O parto no período Tudor

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A gestação é um assunto delicado até os dias de hoje. Mesmo com o avanço na medicina, ainda ocorrem alguns problemas que podem complicar bastante tanto a gestação quanto o parto.
No período Tudor a taxa de mortalidade era consideravelmente alta, principalmente entre crianças, recém-nascidos..
Veremos no artigo de hoje, um pouco mais sobre como funcionava a obstetrícia naquele período.

As mulheres no período Tudor eram em sua maioria, bastante conscientes quanto ao risco que poderia representar uma gestação. Embora tenha sido estimado que a taxa de mortalidade de mulheres ao dar à luz era de apenas 14-18 a cada 1.000 mulheres (o que seria aproximadamente nos dias de hoje em torno de 6% da população feminina na Inglaterra), este número já era alto o suficiente para que todos conhecessem alguém que tivesse falecido durante o parto.

O parto geralmente ocorria na casa da mulher, com médicos ou parteiras de confiança. Se fossem ricas, a mulher iria dispor de médicos ou mais de uma parteira, porém, se fosse pobre, o parto iria ser feito pela parteira de seu vilarejo.
Para facilitar a saída do bebê, um corte era geralmente feito em seu períneo, pela falta de esterilização do instrumento utilizado, ou até mesmo as mãos das pessoas envolvidas no parto, este era um dos grandes problemas para a saúde da mulher…

Modelo de fórceps relativamente novo aos Tudor.

Modelo de fórceps relativamente novo aos Tudor.

A imagem acima datada de 1550, serve para ilustrar um primitivo tipo de fórceps, porém eram muito novos naquele período (e supostamente, não propriamente inventados até o século XVII, de acordo com Fraser). Ferramentas anteriores eram geralmente ganchos para remover um natimorto em pedaços e, com alguma sorte, salvar a mãe. Qualquer ferida aberta corre o risco de ser infectada e isso muitas vezes levava à morte da mulher alguns dias após o parto. O caso mais famoso, provavelmente seja o de Jane Seymour, terceira esposa de Henrique VIII, morta dias após dar a luz a Eduardo VI, provavelmente de febre puerperal (devido a má cicatrização e infecção no períneo).

A Febre Puerperal, era muitas vezes transmitida via germes de médicos ou parteiras, que infectavam as mães fazendo um parto após o outro sem a devida higienização de seus aparelhos. Elas eram infectadas na maioria das vezes com o que hoje é conhecido como estafilococos que espalhavam-se no revestimento do útero. Semmelweis descobriu que a utilização de um anti-séptico antes da higienização dos aparelhos auxiliaria no parto e diminuiria a incidência da doença em pelo menos 90%, podendo atingir os 99%, mas os resultados foram profundamente rejeitados. As mulheres infectadas não tinham antibióticos para interromper os sintomas da doença uma vez que eles se iniciavam: febre, calafrios, sintomas gripais, fortes dores de cabeça, distensão do abdômen, e ocasionalmente a perda da sanidade, pouco antes da morte.

Por mais cuidadosas que fossem, as pessoas daquele período não apresentavam uma higiene muito adequada na hora do parto.
Este fato teria acarretado complicações secundárias muito mais comuns. Como Lawrence Stone apontou, três em cada quatro casamentos eram desfeitos em decorrência da morte das esposas durante ou após o parto nos séculos XVI à XIX. Outro caso Tudor famoso de morte no parto foi o da mãe de Henrique VIII e esposa de Henrique VII, morta logo após um mal sucedido trabalho de parto em 1503.

Apesar do novo matrimonio após o divórcio não ter sido oficialmente permitido, muitas famílias acabavam tendo padrastos, devido à alta taxa de mortalidade de mães e pais como enfermidades em geral, afinal, devido a medicina precária, uma doença hoje facilmente contornável com antibióticos, naquele período, era potencialmente fatal. Há casos de crianças que foram criadas por pais que não eram biologicamente relacionados a elas devido ao fato de serem filhos de cônjuges anteriores. No séculos XVI e XVII, talvez um terço de todas as crianças haviam perdido um dos pais (Stone 1977, 46). Se uma mulher fosse de uma família nobre ou abastada, ela também poderia criar filhos agregados de casamentos anteriores.

Famosas mulheres Tudor que faleceram durante o parto.

Famosas mulheres Tudor que faleceram durante o parto.

FONTES:
TUDOR WOMAN: AQUI.

Banheiros no período Tudor

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Toilette pertencente a Rainha Elizabeth I. FONTE: GOOGLE.

Embora a concepção atual de um banheiro em casa possa parecer algo normal, boa parte do período Tudor não dispôs desta ”regalia”, foi apenas no reinado de Elizabeth I que os banheiros (para os ricos) dentro de casa passaram a ser mais usados. Anteriormente eram usados urinóis ou bacias próprias para esta finalidade, que após o uso, eram despejadas pelas janelas a fim de evitar odores desagradáveis dentro de casa.

As ruas Tudor eram fétidas, escuras e úmidas. Ao andar por elas sentia-se o claro cheiro de urina e fezes, sem falar do lixo. As pessoas tinham de ter cuidado ao andar pelas ruas, pois podiam ser acertadas com baldes de dejetos jogados do alto das casas, sim, isto era comum.

As pessoas mais pobres, ficariam felizes em poder urinar ou defecar em qualquer lugar, na rua, no canto de uma sala ou em um balde. Quando muito pobre você usaria panos velhos ou até folhas para a higienização devida, enquanto os ricos limpavam-se com pedaços de panos chamados loo’o jakes. Em Edimburgo, você poderia pagar por um banheiro portátil, que nada mais era, que um balde coberto por uma tenda.

Os dejetos Reais eram análisados por médicos, que cheiravam, tocavam e às vezes experimentavam a fim de detectar alguma doença no Rei, naquela época acreditavam que o corpo humano era composto de 4 humores: O sangue, a bílis negra, a bílis amarela e fleuma. Uma das formas de detectar qualquer problema era tendo contato direto com as fezes.

Em Hampton Court, até então maior Palácio inglês, foram construídos 28 toilettes que desaguavam no rio Tâmisa. Henrique VIII possuía um assento acolchoado feito com fitas de seda e pregos de ouro, os servos compartilhavam locais destinados a eles na casa dos servos.

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Toilette pertencente a Henrique VIII. Fonte: aggiemania.blogspot.com.br

Com o decorrer do período, as casas foram construidas em etapas, sendo o andar de cima maior que o debaixo, isso consistia por inúmeros motivos, entre eles, evitar que os dejetos caiam nas pessoas ao serem arremessados janela abaixo.

Em palácios e castelos que possuíam um fosso, o senhor e a senhora retirariam-se para a casa de banho onde um armário (garderobe) era fixado na parede onde existia um fosso. O armário fixado sobre o fosso, faria com que o dejeto caísse para a água.

Quando os fossos entupiam, eram chamados os ”meninos das esponjas”, eles tinham de ser pequenos o suficiente para entrar nos fossos e limpar o lixo jogando-o no rio, definitivamente, um trabalho para poucos!

Em 1596, Sir John Harrington inventou o primeiro toilette com água e uma descarga acoplada. Ele construiu uma em sua casa, e mais tarde, a Rainha, sua madrinha Elizabeth I, usou e ficou tão impressionada que mandou Harrington construir um no Palácio de Richmond. Infelizmente, ele parou de ser utilizado após a morte de Harrington e somente 200 anos depois o WC seria inventado.

Vale lembrar que o toilette é uma invenção muito anterior aos Tudors, porém, eles não tomaram conhecimento tão cedo…

Aqui um vídeo em inglês sobre o assunto:

Fosso na parede de um castelo.

Fosso na parede de um castelo.

Fontes:

Youtube Tudor Toilets: AQUI.
Medieval travel: AQUI.
Bog standard: AQUI.
The Tudor Tattler: AQUI.

Febre puerperal no período Tudor

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Peste negra, pragas, doença do suor. Estas palavras remontam-nos a séculos de desespero, onde a morte era um companheiro que vivia lado a lado, espreitando um momento de fraqueza.

No período Tudor as doenças e pragas eram mais comuns do que imaginamos, elas atingiam inúmeras pessoas, assim como seus entes queridos. Mas quando nos aprofundamos nas doenças que as mulheres do século XVI sofriam, há uma morte que especialmente causava um profundo medo entre elas: a febre puerperal, também conhecida como febre de parto e mais tarde A Praga dos Médicos.

A medicina Tudor e Medieval eram centradas tanto em torno da astrologia, quanto da crença comum de que a saúde e doença de todos eram mantidas em equilíbrio ou desequilíbrio de quatro ”humores” de fluidos corporais: O sangue, a bílis negra, a bílis amarela e fleuma. Portanto, o degustar e aspirar de sangue ou urina eram maneiras comuns para diagnosticar ou tratar doenças. Embora pareça absurdo nos dias de hoje, esse tipo de tratamento medicinal reinou por quase 2000 anos, desde os tempos greco-romanos. Segundo pesquisas, apenas 10-15% das pessoas do período Tudor chegavam ao seu quadragésimo aniversário. Causas comuns de doenças que levam à morte? Geralmente a falta de saneamento básico.

Décadas antes da teoria dos germes ser implantada e validada no final do século XIX, o médico húngaro Ignác Semmelweis observou que as mulheres que davam à luz em casa tinham uma menor incidência de febre puerperal do que aquelas que davam à luz em hospitais. Estatísticas mostram que, “entre 1831 e 1843 apenas 10 entre 10.000 mães morriam de febre puerperal quando davam à luz em casa, enquanto 600 entre as 10 mil morriam nas enfermarias de hospitais”. As mulheres mais ricas, que possuíam fácil acesso aos médicos sofriam de febre puerperal com maior frequência do que as que utilizavam serviços de parteiras.

Em 1795, Dr. Alexander Gordon escreveu: “É desagradável para mim declarar que o meu meio foi o responsável por levar esta infecção a um grande número de mulheres”. Embora atualmente esta não seja mais a realidade, a verdade é que os médicos do século XVI transmitiam a doença para as mães por não desinfetarem as mãos e ferramentas entre os pacientes.

Esta doença era muitas vezes transmitida via germes de médicos ou parteiras, que infectavam as mães fazendo um parto após o outro sem a devida higienização de seus aparelhos. Elas eram infectadas na maioria das vezes com o que hoje é conhecido como estafilococos que espalhavam-se no revestimento do útero. Semmelweis descobriu que a utilização de um anti-séptico antes da higienização dos aparelhos auxiliaria no parto e diminuiria a incidência da doença em pelo menos 90%, podendo atingir os 99%, mas os resultados foram profundamente rejeitados. As mulheres infectadas não tinham antibióticos para interromper os sintomas da doença uma vez que eles se iniciavam: febre, calafrios, sintomas gripais, fortes dores de cabeça, distensão do abdômen, e ocasionalmente a perda da sanidade, pouco antes da morte.

Conforme mencionado acima, este tipo de doença não fazia distinção de classes, podendo afetar tanto os ricos quanto os mais pobres, porém, devido ao maior auxílio médico para as classes superiores, o número de pessoas nobres, ricas ou da realeza que eram afetadas consequentemente eram maiores. Na verdade, o medo da febre puerperal é frequentemente citado quando se discute a relutância de Elizabeth I em casar e ter filhos. Na era Tudor, Elizabeth de York, mãe de Henrique VIII, morreu de febre puerperal assim como as duas esposas de seu filho: Jane Seymour e Catarina Parr, embora esta última tenha sido no parto do filho de seu último marido, Thomas Seymour. A descrição da agonia no leito de morte de Parr talvez tenha sido um dos registros de morte mais arrepiantes do século, mais até do que muitas decapitações.

Apesar de Semmelweis ter sido chacota entre a comunidade de médicos por sua implicação de que eles próprios eram os transmissores da doença, a ciência e a medicina moderna prevaleceram. Hoje, no mundo desenvolvido, a incidência de doenças de parto diminuíram suas proporções em quase nulas. As mulheres não precisam mais temer que o próprio ato de levar a vida adiante possa acabar por causar sua própria morte.

Vitimas Tudor da febre puerperal: Elizabeth de York, Jane Seymour, Catarina Parr.

Vitimas Tudor da febre puerperal: Elizabeth de York, Jane Seymour e Catarina Parr.

FONTES:

sandrabyrd.com: AQUI.

Artigo original extraído dos seguintes registros:

The Doctors’ Plague: Germs, Childbed Fever, and the Strange Story of Ignac Semmelweis, Sherwin B Nuland, WW Norton, 2004

Oliver Wendell Homes: The Contagiousness of Puerperal Fever

A doença do suor no período Tudor

ImagemA doença do suor, conhecida no Brasil também como Sudor Anglicus, foi uma doença epidêmica, não conhecida na Inglaterra antes do período Tudor. Ela atraiu a atenção logo no início do reinado de Henrique VII. Tornou-se conhecida alguns dias após seu desembarque em Milford Haven, no dia 07 de agosto de 1485, também há evidências claras de que foi comentada antes da batalha de Bosworth, no dia 22 de agosto. Logo após a chegada de Henrique, em Londres, em 28 de agosto, a capital eclodiu com a enfermidade, causando um alto índice de mortalidade. Esta alarmante doença logo tornou-se conhecida como a doença do suor ou suor maligno. Foi considerada amplamente distinta de qualquer doença ou praga previamente conhecida na Inglaterra, não só pelo sintoma especial que lhe deu o nome, como também por sua rápida e fatal evolução.

Após 1485 até 1507, não ouviu-se mais falar da doença, até que um novo surto ocorreu. O segundo surto foi amplamente mais fatal que o primeiro e cessou como o primeiro. Nenhum sinal da doença foi vista novamente, até que em 1517 um terceiro e muito mais grave surto da epidemia ocorreu. Foi registrada em Oxford e Cambridge, bem como em outras cidades, onde em alguns casos, houve uma perda de até metade da população. Há evidências de que a doença tenha se espalhado para Calais e Antuérpia, porém, fora estes dois locais, ela ficou confinada apenas à Inglaterra.

Em 1558, ocorreu um quarto ciclo da doença, cada vez mais preocupante e severa. Primeiro apareceu em Londres e no final do mês de maio, rapidamente espalhou-se por toda a Inglaterra. Em Londres, a mortalidade foi tão alta, que a corte Tudor foi dissipada e Henrique VIII muitas vezes deixou a cidade por medo da doença. Esta epidemia então espalhou-se pelo continente, aparecendo de repente em Hamburgo e então espalhando-se tão rapidamente que em poucas semanas mais de mil pessoas já haviam morrido. Esta foi mais uma vez a terrível doença do suor, seguindo seu rápido curso destrutivo, durante o qual, causou uma temerosa mortalidade em toda a Europa oriental. França, Itália e os países do sul foram poupados. Espalhou-se de maneira semelhante a cólera, chegando à Suíça em dezembro, e em outros países do norte, como a Dinamarca, Suécia e Noruega. A leste afetou a Lituânia, Polônia e Rússia, e a oeste a Holanda, a menos que de fato a epidemia, que se declarou simultaneamente em Antuérpia e Amsterdam, na manhã do dia 27 de setembro, tenha vindo diretamente da Inglaterra. A doença disseminava caos e morte, e em cada lugar que passava, prevalecia durante um curto período de tempo, geralmente não mais que uma quinzena. Até o final daquele ano, ela já havia desaparecido quase que por completo, exceto no leste da Suíça, onde permaneceria pelo próximo ano. Enfim, o terrível ”suor inglês”, nunca mais apareceria novamente, pelo menos da mesma forma no Continente. A Inglaterra, no entanto, foi destinada a sofrer de mais um surto da doença em 1551, e no que diz respeito a isso, temos a grande vantagem de contar com os relatos de uma testemunha ocular, John Kaye ou Caius, um famoso médico.

plaguefleeing

Sintomas:
Os sintomas descrito por Caius, diziam que a doença começava muito de repente, com um sentimento de apreensão, seguido de calafrios (por vezes muitas vezes violentos), tontura, dor de cabeça e fortes dores no pescoço, ombros e membros, com grande prostração. Após a fase do frio, que poderia durar de meia hora a três horas, seguia-se a fase de calor e transpiração. O característico suor, por sua vez eclodia de repente, sem nenhuma causa óbvia. Com o suor derramado, vinha uma nova sensação de calor, seguida de dor de cabeça, delírio, pulso rápido e sede intensa. Palpitações e dores no coração eram sintomas frequentes. Nenhuma erupção na pele foi observada; Caius não fez alusão nenhuma a tal sintoma. Nos estágios mais avançados, houve prostração geral, colapso, ou sonolência extrema, que acreditavam ser fatal, se o paciente cedesse. Como dito anteriormente, a doença foi notavelmente rápida em seu curso, sendo por vezes, até mesmo fatais em duas ou três horas, sendo que alguns pacientes morriam em menos tempo. Mas comumente, era prolongada a um período de 12 a 24 horas, sendo raro sobreviver após esse tempo. Aqueles que sobreviviam por 24 horas eram considerados fora de perigo.

A doença, ao contrário da peste, não foi especialmente fatal para apenas para os pobres, mas sim, como afirma Caius cita, atacou especialmente os mais ricos, bon vivants e pobres ociosos. “Os que possuíam a fatal doença do suor, ou eram homens de riqueza, conforto ou bem-estar, ou os mais pobres, pessoas ociosas, que bebiam cerveja e frequentavam a taverna.”.

Causas:
Alguns atribuíram a doença ao clima Inglês, sua umidade e suas brumas, aos hábitos destemperados do povo inglês, e à terrível falta de limpeza nas ruas e arredores das casas, que foi notada por Erasmus em uma passagem bem conhecida, e sobre o qual Caius é igualmente explícito. Mas temos de concluir que o clima, estação, e modo de vida não eram adequados, separadamente ou em conjunto, para produzir tal doença, embora cada um pudesse ter agido por vezes, como uma das causas predisponentes. A doença do suor, na verdade, para usar a linguagem moderna, foi uma doença infecciosa específica, no mesmo grau da peste, tifo, escarlatina ou malária.

SAIBA COMO ANA BOLENA SUPEROU A DOENÇA E MUITO MAIS, NO ARTIGO: ANA BOLENA E A DOENÇA DO SUOR MALIGNO.

Fontes:
Luminarium: AQUI.
Wikipédia.

sweatingsickness

Perfumes nos tempos Tudor

ImagemComo vimos anteriormente nos artigos sobre higiene, os Tudors não prezavam apenas por sua higiene, como também com a de suas roupas e casas. Neste artigo vamos explorar ainda mais este assunto, inclinando para um lado mais enigmático, os perfumes.
Qual seria o envolvimento dos Tudors com os perfumes?

Os perfumes foram introduzidos ao povo inglês (assim como a todo o resto da europa) na época das cruzadas, vindos provavelmente da Arábia, durante as inúmeras viagens feitas pelos templários ao oriente. Eles eram vendidos por comerciantes àrabes chamados mascates, que lidavam com essas mercadorias. Os principais produtores de perfumes nesta época, foram os monges, por serem bastante hábeis em destilação. Os perfumes mais populares no período Tudor, eram produzidos à partir de flores, como rosas, lírios e violetas. Na antiguidade, o povo europeu acreditava que os ”gases sujos no ar”, ou odores ruins, causavam doenças e o perfume foi então, uma boa forma de mascará-los.

Segundo Dr. Elizabeth T. Hurren em ”King Henry VIII’s Medical World”, contas reais do reinado de Henrique VIII, mostram um interessante registro sobre o assunto:

” O cheiro de suas bandagens eram muitas vezes repugnante. Suas feridas inflamadas muitas vezes escorriam pus. Contas domésticas de Henrique, mostram que ele gastou gandes somas em perfumes para disfarçar o decadente cheiro que emanava de seu corpo sitiado.”

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O perfume diferente dos dias modernos, não era colocado diretamente sobre a pele, e sim em recipientes denominados Pomos (Pomanders). A palavra Pomander tem origem francesa, pomme d’ambre, que significa ”maçã de âmbar”. Ele consistia de um ornamento muitas vezes circular, no qual seriam depositadas as especiarias e essências, como seria preso a roupa, ao andar exalaria seu perfume, livrando as pessoas de odores desagradáveis.

O perfume também foi citado em um acontecimento interessante na história Tudor, a apresentação no Chateau Vert. Em sua crônica, Edward Hall diz:

”…As virtudes defenderam o castelo com água de rosas e doces, enquanto a dama do escárnio e companhia se defendia jogando fitas…”

Mas segundo Holly Dugan, autora do livro ”The Ephemeral History of Perfume: Scent and Sense in Early Modern England”, o uso da água de rosas foi muito mais simbólico que performático, segundo ela:

”…O uso da água de rosas na apresentação de máscaras de Henrique, celebrou um profundo acaso agrícola e tecnológico: a domesticação do damasco e rosa na Inglaterra coincidiu com a chegada da arte da destilação, permitindo a produção nacional da água de rosas…”

A reforma inglesa de Henrique VIII, alterou drasticamente o modo como o perfume foi produzido e consumido na Inglaterra. Como vimos acima, os monges eram os responsáveis pela destilação do perfume, e com a dissolução dos monastérios na Inglaterra, o número de jardins reais aumentaram consideravelmente. Quando jardineiros reais tranformaram os jardins antes privados para os monges em espaços públicos, eles também alteraram as práticas da produção de perfumes na Inglaterra. Não mais controlados pelo episcopado, a produção de perfumes tornou-se um assunto interno. Os perfumes ingleses não eram mais barras sólidas prontas para serem usadas em pomos ou queimadas. Boticários ingleses, desenvolveram águas perfumadas misturadas à partir de óleos destilados, especiarias e flores.

Perfume de Elizabeth I:
A receita de um perfume original com mais de 400 anos de idade usado por Elizabeth I, foi descoberta em um livro na biblioteca da Sociedade Real de Horticultura em Londres, em um livro intitulado “O Mistério e Sedução dos Perfumes” por CJS Thompson.

”Pegue 8 grãos de almíscar e coloque 8 colheres de água de rosas, 3 colheres de água de damasco e 1/4 de grama de açúcar. Ferva por cinco horas e coe.”

A reprodução deste perfume é vendida no site Historic Royal Palaces.

Existem também registros do perfume favorito de Henrique VIII, compossto de uma mistura de Almíscar, civetona e âmbar.

Podemos concluir que os Tudors tiveram bastante envolvimento com o perfume e sua história, não sendo ele usado apenas como um mero objeto de vaidade. O perfume foi usado com fins simbólicos e medicinais e sociais.

Fontes:

Livro: Aroma: the cultural history of smell – C. Classen, Howes David, Synnott Anthony.
Livro: Tudor costume and fashion – Herbert Norris.
Livro: The Ephemeral History of Perfume: Scent and Sense in Early Modern England Por Holly Dugan
Artigo: King Henry VIII’s Medical World – Dr. Elizabeth T Hurren

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Higiene Tudor- Parte 2

Louças Tudor em Hampton Court Palace

Como já haviamos visto os Tudors eram geralmente aceitos como tendo uma ligação com sujeiras e doenças, porém tentavam sempre manter suas casas limpas. O que não era uma tarefa fácil, considerando que a maioria das casas tinham pisos de terra, que eram de dificil manutenção e estavam sempre empoeirados. Utensílios domésticos como pratos e tigelas eram geralmente feitos de madeira, posando outro desafio para as donas de casa que precisavam mantê-los limpos, sem a ajuda dos produtos de limpeza atuais.

Se você fosse rico, provavelmente teria piso de pedra e utensílios de estanho, mas seus empregados ainda teriam de limpá-los com os mesmos materiais que qualquer Tudor, independente de sua classe social teria a sua disposição.

O trabalho de uma dona de casa Tudor era difícil. Mesmo antes de iniciar suas tarefas ela precisaria localizar um suprimento adequado de água e pelo fato da água ser pesada para o transporte, muitas tarefas diárias teriam sido realizadas fora de casa até mesmo no inverno. Isto também eliminaria os problemas associados com a eliminação da água residual. Ao contrário de hoje, não havia ralos dentro de casa na qual a água suja pudesse ser eliminada e por isso tinham de carregar a água residual para fora de casa para “sumidouro” ou um buraco no solo.

Alison Sim afirma que um dos trabalhos mais básicos que uma dona de casa Tudor tinha que fazer era lavar louças. O que teria sido um trabalho bastante demorado em vista que tudo, (desde vasilhas de leite a talheres) teria de ser lavado.

Hoje podemos usar detergentes para esta tarefa em particular, mas os Tudors normalmente usavam areia de rio afiada. Alison também descreve como uma planta conhecida como cavalinha (Equisetum telmateia) também foi usada para limpar qualquer coisa desde de madeira a armaduras. Esta planta foi um importante agente de limpeza Tudor.

Se lavar louças já parece exaustivo, imagine lavar roupas! Se você pudesse pagar, contrataria uma lavadeira, pois este era um trabalho muito mais demorado.

Como já mencionado na primeira parte deste artigo, os Tudors tomavam bastante cuidado em garantir que sua roupa estivesse sempre limpa, uma vez que isso era sinal de respeito. Todos tentavam trocar suas roupas diariamente, os mais ricos mudavam várias vezes ao dia, mas não era apenas para essa finalidade que era necessário lavar roupas. Toalhas e lençóis também necessitavam ser lavados e muitas eram limpos por um processo denominado “bucking”. Alison Sim descreve o processo em detalhes:

“Era uma grande banheira, mais parecida com um barril, que se sustentava sobre um suporte que a elevava a um pé do chão. Ela tinha uma torneira cerca de um centímetro acima do fundo. Uma banheira de madeira rasa era colocada sob a torneira. Encher a banheira era uma tarefa bastante complicada, pois a roupa tinha de ser dobrada e colocada de forma que a água derramada atravessasse toda a roupa e assim a água suja não manchasse o material. Varas eram colocadas entre o feixe das roupas, de modo que a água pudesse passar livremente.”

Uma vez que a banheira fosse cheia com roupas, ley seria derramada no barril. Esta “solução alcalina forte” era feita para fazer a água passar através de cinzas limpas de madeira ou de samambaias secas.

Uma vez que a roupa fosse deixada de molho, o ley seria dispersado através de uma torneira no fundo da banheira e em seguida, as roupas seriam viradas. Uma vez que a sujeira fosse dissolvida, a roupa era lavada em água corrente e se necessário “também branqueada ao sol e vento, colocando-a no chão ou sobre um arbusto e molhando-a repetidamente”. Este elaborado processo era executado diariamente!

O Bucking era excelente para materiais mais resistentes, mas o  delicado tecido usado pelos mais ricos não poderia ser exposto a tal processo. Ao invés disso, poderia ter sido lavado com água e sabão.

O “sabão-negro”, como era conhecido, tinha consistência “gelatinosa” e era feito com gordura fervente e soda cáustica. Quando armazenado em barris parecia negro, por isso seu nome. Alison Sim afirma que o sabão gerava uma indústria de grande escala no século XVI, o que sugere que a maioria das pessoas compravam seu sabão ao invés de fazê-lo.

A lavadeira de Henrique VIII, Anne Harris, usava sabão para executar suas tarefas de lavagem reais, conforme registrado nas contas financeiras da época.

Anne Harris, a lavadeira do Rei lavava suas toalhas de mesa e toalhas e fornecia ervas para manter a roupagem perfumada. Ela recebia 10 libras por ano, o que era um bom salário, mas foi afirmado muito especificamente que ela devia fornecer seu próprio sabão. “

Os deveres da lavadeira não terminavam por ai. No século XVI roupa limpa era um sinal de respeito, mas linho branco era um sinal de riqueza. Quanto mais branco o linho, mais rico o proprietário. Se você pudesse pagar, você compraria sua roupa já branqueada, mas se não pudesse, compraria “não-branqueada” que era uma cor creme-acinzentado e só seria transformada no cobiçado linho branco por branqueamento repetido.

Mas o que os Tudors usavam como alvejante? Eles usavam urina humana. O processo de branqueamento era semelhante ao processo bucking, só que ao invés de adicionar ley era adicionado lixívia.

A roupa secaria sendo espalhada no chão ou colocada sobre um arbusto. No inverno tal tarefa seria bastante desafiadora.

Outra tarefa igualmente desafiadora teria sido cuidar dos luxuosos tecidos encontrados nos armários dos ricos. Além de linho muito fino, tecidos como o veludo, seda e até mesmo linho de ouro necessitariam limpeza. Uma rica roupa Tudor muitas vezes tinha bordados, o que era  uma dor de cabeça extra e tapeçarias finas que decoravam as paredes das casas ou a pele que era usada nas roupas no inverno.

Os itens de lã eram escovados e sacuididos semanalmente para manter as traças fora e peles que haviam endurecido eram salpicadas com vinho, deixadas para secar e em seguida, esfregadas até ficarem macias.

A Remoção de manchas de tecidos finos também era um trabalho difícil e Alison Sim acredita que existiam tantas formas alternativas de tratamento de manchas que sugere que era o caso de tentar apenas uma vez, ou seja “acertar ou errar”.

Um exemplo de uma instrução encontrada no ”O livro rentável de remédios aprovados” sugere que tanto para lavar seda quanto ouro deve-se aquecer a água, adicionar sabão permitindo que derreta e em seguida, uma vez que a água esteja quase fria, lavar as roupas. A peça deve ser então seca e estabelecida entre camadas.

Remover manchas de graxa das roupas é bastante difícil hoje em dia. Mas no passado nossos modernos removedores de manchas seriam inúteis quando se trata de remover manchas tais manchas. Então, o que os Tudors faziam? John Partridge recomendava o uso da água em que as ervilhas foram encharcadas e seu lvro sugere a aplicação do sabão de Castela com uma pena limpa.

É claro que como hoje, ao se tratar da remoção de manchas, haviam muitos conselhos para escolher. Se o conselho realmente funcionava era uma questão completamente diferente.

Ou seja de fato, a dona de casa Tudor tinha um trabalho bastante cansativo!

Próximo artigo- Higiene Tudor- Parte 3 – Higiene Pessoal.

Fonte:

Esse artigo foi escrito com base em um artigo do site The Tudor Trail.

Higiene nos tempos Tudor- Parte I

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Ilustração de um ritual de banho.


“Um dos equívocos da história popular, é achar que a preocupação com a higiene e saneamento básico é algo recente – e decididamente, um fenômeno moderno.”  Simon Thurley

Nós não costumamos pensar sobre os Tudors como sendo pessoas particularmente higiênicas, mas eles na verdade eram muito mais “limpos” do que geralmente pensamos ou damos crédito. Eles eram, naturalmente, limitados pela tecnologia da época e pelos desafios associados com a eliminação do esgoto e do lixo, mas isso não significa que eles não tentavam se manter limpos e as suas casas…

De acordo com Alison Sim, os Tudors se lavavam com muito mais freqüência do que geralmente se pensa. Não se sabe exatamente quantas vezes, mas de fato as receitas de sabão e “águas de lavagem ” estão inclusas no manual de instruções de uso doméstico, ilustrando que definitivamente havia um interesse em higiene pessoal (Sim, pág. 47).

Senhoras ricas usavam um sabonete perfumado ou ‘sabão castill’ para a sua limpeza diária. Nem todos os níveis da sociedade, podiam usar esse tipo de sabão, pois era importado e muito caro. O sabão mais comum era feito com “azeite ou gordura de animais'(Sim, Pg. 47).

‘Hugh Plat’s Delightes for ladies’- um manual para casa do século 14, dá instruções para a preparação de água para o banho sugerindo o uso de sálvia, manjerona, camomila, alecrim e casca de laranja como possíveis ingredientes. Ele também oferece alternativas muito mais baratas sugerindo mais uma vez que não eram apenas os Tudors ricos que se interessavam ​​em higiene pessoal, mas pessoas de todos os níveis da sociedade.

A fim de ter um banho, a maioria dos Tudors teriam que usar uma banheira de madeira, alinhada com as folhas, ou forrada por uma lona de tecido, recolher baldes de água, aquecê-la na lareira e encher a banheira. É provavelmente seguro afirmar que este trabalhoso processo tenha dissuadido as pessoas a tomarem menos banhos antigamente do que tomamos hoje, porém não havia nada que os impedissem de realizar um banho diário. A distinção é que o banho como conhecemos hoje, exigia que uma pessoa entrasse em uma banheira e se lavasse com esponja.

Os únicos Tudors a terem sorte o suficiente para ter um encanamento permanente e luxuosos banheiros eram da realeza.

Pelo fato do abastecimento de água determinar por quanto tempo a corte poderia ficar em um determinado local, Henrique VIII decidiu reformular os sistemas de abastecimento de água de todas as suas grandes casas.

Melhorias feitas para o abastecimento de água levaram ao facilitamento dos banhos. Algumas das casas que Henry herdou já continham banheiros de luxo, tais como o banheiro de Eduardo III em Westminster com “duas grandes torneiras de bronze para o banho dos reis pudesse ter água quente e fria” (Thurley, pág. 167).

Em 1529, Henrique VIII ordenou a construção de um novo banheiro no primeiro andar da Torre de Bayne em Hampton Court. Esta torre era a suíte de luxo de Henrique VIII e consistia em um escritório, uma sala-forte, um quarto, um banheiro, uma sala de reuniões, uma biblioteca e uma jewel house (Thurley, Pg 170.).

Thurley descreve o banheiro em grandes detalhes:

“O banheiro tem profundas janelas com assentos e armários embaixo, adornado por um teto decorado com ripas de ouro em um fundo branco. As banheiras foram feitas por um tanoeiro e foram fixadas à parede, elas tem duas torneiras, uma para a água fria e outra para quente. Logo atrás do banheiro, em outra sala pequena, tem um fogão de de queima de carvão, ou caldeira, alimentado a partir de uma cisterna no segundo andar, que foi preenchido pela conduta de Coombe. “(Pág. 170)

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Foto de uma típica banheira Tudor.

Outros banheiros semelhantes existiram na Torre de Londres, Castelo de Windsor e New Hall.

Mais tarde no reinado de Henry, ele começou a tomar banho em banheiras submersivas. Thomas Platter descreveu o banho de Henry em Woodstock:

“Fomos apresentados ao banheiro e banheira do Rei Henrique VIII, e também a uma grande cisterna central quadrada cheia de água em que ele se banhava, a água vem da nascente Rosamund, e é fria no verão e quente no inverno.” (Thurley, pág. 170)

Em 1540, Henrique VIII instalou uma banheira em Whitehall mais luxuosa e sofisticada até mesmo que a de Hampton Court, mas não temos nenhum registro a respeito da freqüência que Henry de fato teria usado a banheira.

Thurley afirma que Henry, por prescrição médica, tomava ‘banhos de ervas medicinais’ a cada inverno, mas evitou banhos por um tempo quando a doença do suor maligno tornou-se evidente.

Uma escola filosófica de pensamento que existiu na época acreditava que o banho era perigoso e que “permitia que ares venenosos entrassem, destruíssem os espíritos animados no homem e enfraquecesse o corpo” (Thurley, pág. 171).

Além de tomar banho com sabonetes perfumados, os mais ricos também poderiam se dar ao luxo de comprar perfume. Os Perfumes eram feitos de especiarias importadas e por isso nem todos podiam pagar por esse luxo (veja também o artigo: ”A Maquiagem nos tempos Tudor”). Alison Sim acredita que eles foram usados mais ​​como uma demonstração de riqueza do que como forma de mascarar odores desagradáveis. Alison também afirma que se de fato eles tivessem sido usados ​​para mascarar odores, seria mais provável que tivesse sido da roupa, ao invés das pessoas.

Usar roupas Tudor no pico verão teria causado muitos suores e para tentar mantê-las com um cheiro mais fresco, sem as conveniências modernas como desodorante ou máquina de lavar, eles de fato podem ter aplicado algumas fragrâncias. Uma outra forma de tentar fazer com que as roupas permanecessem frescas seria mudando-as tão frequentemente quanto possível.

Os Tudors tomavam grande cuidado em garantir que suas roupas de baixo estivessem sempre limpas, uma vez que isso era um sinal de respeitabilidade. No livro de Richard Jones ‘Heptameron of Civil Discourses’, sobre como ter um casamento feliz, ele diz que uma mulher que não usa roupas de baixo limpas não deve agradar a estranhos e muito menos a seu marido”(Sim, pág. 52). A maioria mudava sua roupa de baixo diariamente e os mais ricos poderiam trocá-las várias vezes ao dia.

Na próxima parte de nosso artigo de higiene Tudor, vamos olhar para a forma que os Tudors escovavam os dentes, lavavam roupas e como a limpeza doméstica em geral era feita.

Fontes:
On the Tudor Trail: AQUI.

 

Jane Seymour higienizando suas mãos no filme Henry VIII and his six wives de 1972 da BBC.

Jane Seymour higienizando suas mãos no filme Henry VIII and his six wives de 1972 da BBC.