A Depilação e o Aspecto Social dos Pêlos no Renascimento

venusA depilação, não é um fenômeno moderno. Ela incrivelmente, existe desde os tempos das cavernas. Embora os locais do corpo a serem depilados, tenham mudado com o tempo, a remoção de pelos indesejados sempre existiu, tendo suas técnicas e preferências, alternado tanto conforme os séculos, quanto devido ao gosto pessoal e a tecnologia necessária.

DP116090A remoção dos pêlos da cabeça e rosto dos homens, não eram apenas para fins estéticos e sim, para a sobrevivência. Sabe-se que não só os homens das cavernas fizeram isto, mas os antigos egípcios também. Houveram especulações de que para a segurança, raspar a barba e cabelo da cabeça, tiraria a vantagem de um adversário, por não ter nada para agarrar durante os combates. Para os homens das cavernas, eles possivelmente notaram que quanto menos pêlos tivessem, menos piolhos e carrapatos teriam para incomodar-lhes.

Durante a idade média – ao contrário do período antigo – as mulheres européias não eram tão adeptas à remoção dos pêlos do corpo. Na realidade, não foi até o período Tudor elizabethano, que as mulheres européias voltariam de fato a se preocupar com a depilação. Elas não preocupavam-se em remover os pêlos das axilas, pernas ou púbicos. O cuidado era mais voltado à remoção do cabelo na testa, para deixa-la alta e nas sobrancelhas, para afiná-las.

Cappella_brancacci,_Tentazione_di_Adamo_ed_Eva_(restaurato),_MasolinoO costume dos homens em fazer a barba, apenas retornou com a volta dos cruzados do oriente médio, onde o costume de fato, nunca havia morrido.

A igreja sempre desaprovou o ato de mulheres retirarem os pêlos do corpo. Em segredo de confissão, os clérigos eram encorajados a perguntarem:

”Se ela arrancou o cabelo de seu corpo, sobrancelhas ou rosto por vaidade ou para agradar aos homens. Isto é um pecado mortal, a menos que ela o fizesse para remediar grave desfiguração, ou de modo a não ser desprezada pelo marido.”

Instrumentos:

Com o retorno dos cruzados (1096-1270), a prática da depilação, aos poucos retornou à Europa. Em muitos castelos europeus, construídos entre 1200 e 1600 Dc, uma sala especial era construída, onde as damas da corte podiam reunirem-se para se depilarem ou os homens, fazerem a barba. Durante o Renascimento, a prática de remoção de pêlos púbicos floresceu, porém depois de um certo período, foi desencorajada em muitos reinos católicos.

31-xrST+NXL._SY355_Muitos livros citam pequenas pinças feitas de liga de cobre ou prata, como parte do conjunto de higiene antigo. As pinças são datadas do século XV e possuíam dobradiças para se fecharem no momento em que não estivessem em uso. Existem alguns kits de higiene feminino que sobreviveram ao tempo, onde podemos ver tal adereço.

Um tratado do século XI, chamado ”Trotula de Ruggiero, De Ornatu Mulierum” (Sobre Mulheres e Cosméticos), aconselha um remédio depilatório para as mulheres:

”A fim de remover permanentemente o pêlo. Tire os ovos de formigas, auripigmento vermelho e goma de hera, misture com vinagre e esfregue na área desejada.”

Para a testa alta e sobrancelhas finas, algumas receitas caseiras eram seguidas para tornar a prática mais fácil, como por exemplo, ataduras amarradas na cabeça com óleos, vinagre e esterco de gato. Algumas mulheres chegavam a remover totalmente os pêlos da sobrancelha.

No século XVI, pequenos livros foram propagados contendo receitas de família, e eram muitas vezes chamados de “livros de segredos”. Estes livros continham todos os tipos de receitas que poderiam ser úteis para a família, incluindo muitas para o uso cosmético. Juntamente com receitas e conselhos de como criar a pele perfeita – receitas para um licor barato e fácil, que poderia ser utilizado para manter a pele lisa, macia e brilhante, ou uma loção para remover todos os tipos de manchas da face, ou manter um olhar encantador – existiam conselhos sobre como remover os pêlos de todas as partes do corpo. Juntamente com o renovado interesse em cremes e cosméticos faciais, os tratamentos para a remoção de pêlos no corpo, foram crescendo com o passar dos anos. Foi no renascimento, que os antigos costumes medievais de preservar os pêlos, foi morrendo.

Pelos Púbicos:
titian-pubes-detDevemos lembrar que com a Reforma ocorrendo à todo vapor no continente europeu, alguns antigos costumes católicos, foram aos poucos saindo de moda e dando lugar a uma nova reciclagem de pensamentos e um deles, foi a maneira que lidavam com os pêlos corporais. Conforme visto acima, para a igreja católica, a remoção de pêlos realizada por vaidade mundana, era um pecado inadmissível, a não ser quando se tratasse do gosto marido do marido, da mulher em questão. Porém, com a quebra do pensamento católico puritano, alguns reinos reformados, passaram a encarar a depilação como um fator mais cotidiano, embora mesmo assim, outros ainda não houvessem admitido tal ato.

No reinado de Catarina de Médici, uma católica fervorosa, a depilação ainda era fora de moda. Ela proibiu que suas damas de companhia removessem a maioria de seus pêlos, principalmente os púbicos.

Algumas pinturas femininas do período, mostram mulheres com pouco ou nenhum pêlo púbico. Uma vez que pinças eram utilizadas para remover os pêlos do rosto, elas podiam ter sido algumas vezes, instrumentos para a remoção de outros tipos de pêlos corporais, só que em menor quantidade.

Captura de Tela 2014-12-21 às 00.26.46Uma referência a pêlos púbicos femininos, é encontrada no conto de Griselda, um romance popular, muitas vezes re-contado, sobre um marido cruel e sua esposa submissa. Em uma de suas versões, o marido Gualtieri, examina o tipo de mulher que saiu de sua casa, com apenas uma bata para esquentar sua lã ou esfregar seu couro contra outro homem, para adquirir roupas melhores. É bastante certo de que a lã e o couro referidos, eram os pelos púbicos da mulher. À partir disto, podemos acreditar, que pelo menos algumas mulheres, mantiveram seus pêlos.

Para contrariar este ponto de vista, Erasmus em sua obra O Elogio da Loucura, fala de uma velha, comprando para si um jovem amante, dizendo:

”…Hoje em dia, qualquer velho caquético com o pé na sepultura, pode casar-se com uma suculenta jovem dama, mesmo que ela não tenha dote. Mas o melhor de tudo, é ver os homens mais velhos, quase mortos e parecendo esqueletos que saem de suas sepulturas, ainda murmurando: “A vida é doce!”. Tão velho quanto são, eles ainda sentem calor e ainda seduzem uma jovem que contratam por grandes somas de dinheiro. Todos os dias, elas rebocam-se com maquiagem e depilam seus pêlos púbicos, elas expõem seus seios caídos e tentam despertar o desejo com suas vozes finas…”

Este texto de 1509, mostra que naquele período, era normal para uma mulher sanar seus pêlos púbicos. Se tal prática foi estendida para todos os camponeses, não podemos afirmar exatamente, mas podemos acreditar, que estendeu-se por outros países da Europa.

As Seis Mulheres de Henrique VIII:

cranach11Muitos leitores interessados no período Tudor, questionam-se qual seria a depilação praticada pelas esposas de Henrique VIII. Como um reino recém reformado, é provável que as mulheres passaram a lidar com a depilação, de maneira diferente à tempos outrora, porém isso não possa indicar com embasamento o suficiente, qual a escolha pessoal feita por elas.

Como sabemos, Catarina de Aragão era católica devota e Jane Seymour e Ana de Cleves também (a terceira, em algum momento de sua vida), foram. É muito provável que Catarina de Aragão, assim como Jane, tenham sido adeptas à uma depilação mínima, apenas nas sobrancelhas. Era comum no período, que as mulheres exibissem sobrancelhas finas, mas nada além disso, ainda mais considerando a visão católica pecaminosa por trás de tal ato.

Ana de Cleves, nasceu e cresceu em um reino protestante, tendo provavelmente visto de perto, a maneira como as mulheres lidavam com seus pêlos corporais. Porém, como filha de uma mãe católica restrita, é provável que Ana não tenha familiarizado-se com tal pratica (ainda mais considerando, que Ana virou católica no fim de sua vida). Uma teoria que reforça tal ponto, foi baseada em um relato de Henrique VIII sobre sua quarta esposa. Neste relato, o monarca declarou que Ana fedia. Muitos estudiosos afirmam, que este cheiro corporal mais forte que Ana poderia ter possuído, pode ter sido gerado através de pêlos corporais e hormônios. Porém, é importante ressaltar, que muito do que fora dito sobre Ana de Cleves por Henrique, é considerado irrelevante, uma vez que o mesmo exalava desgosto por não contrair matrimônio com uma mulher que ele mesmo escolhesse.

Captura de Tela 2014-12-21 às 00.30.12Quanto à Ana Bolena, Catarina Howard e Catarina Parr, é provável que não tenham ido muito além das citadas acima. Catarina Howard, certa vez declarara que conhecia receitas e técnicas que a impediam de conceber. Conforme visto acima, muitas dessas técnicas podem ter passado de família para família, nos famosos livros de segredo. Portanto, não é impossível acreditar que a jovem Howard, possa ter de alguma maneira, tido contato com tais técnicas, embora isso não seja o suficiente para alegar se ela era ou não, adepta à elas.

Já Ana Bolena, pode ter conhecido tais técnicas já que esteve presente em outras Cortes na Europa e Catarina Parr, por ser protestante convicta, pode não ter acreditado no pecado que envolvia a depilação segundo os católicos, mas novamente, não há registros fortes o suficiente para que tenhamos algum embasamento mais forte que os apontados acima.

Receitas:

Captura de Tela 2014-12-21 às 00.28.30Uma receita datada de um livro dos segredos de 1532, dá a seguinte dica para a remoção de pêlos corporais:

”…Como remover o cabelo de qualquer parte do corpo:

Ferva junto uma solução de um litro de arsênico e 1/8 de litro de cal virgem. Vá para uma sala fechada e esfregue a mistura na área a ser depilada. Quando a pele ficar quente, lave rapidamente com água quente, para que a carne não saia…”

image022Caterina Sforza em seu livro Experimenti (basicamente um livro de segredos, compilado por volta da virada do século XVI), dá mais ou menos a mesma instrução, mas aconselha que você deve deixar a mistura sobre a pele “o tempo suficiente para rezar dois Pai Nossos”.

Neste livro de Caterina Sforza, existem nove receitas para tal fim; incluindo uma feita com banha de porco, mostarda e zimbro e outra envolvendo uma destilação à partir de andorinhas.

Uma outra compilação de meados do mesmo século em Bolonha, possui uma seção inteira chamada ”tratado sobre como remover os pêlos do corpo de várias maneiras, para que eles nunca mais voltem”, onde aconselha a mulher para que se deleite em manter-se limpa e para isto, seu rosto precisará de um creme depilatório, que remove de forma limpa, os cabelos sem graça em vários lugares do corpo de uma mulher. Neste livro, existem nada menos que 16 receitas sobre o assunto. Esta nova variedade de receitas, é igualmente perceptível em livros subsequentes, que começam a conter receitas para uso diário, ao invés de uso único, com ingredientes menos voláteis, que podem ser obtidos de forma mais barata e serem utilizados em casa.

Há uma outra receita particularmente memorável, em um livro datado de 1532, por exemplo, onde recomenda que as mulheres lavem a área em que o cabelo está, e remova-os utilizando uma mistura de excrementos de gato e vinagre.


Estética e meio social:

Captura de Tela 2014-12-21 às 00.57.08A remoção de pêlos não era apenas estética. Como Cavallo fez notar, existia uma crença do início do período moderno, de que o cabelo era uma excreção do corpo, que em excesso, precisava ser removida. Um registro de 1626, sugere que o surgimento de muito cabelo, criaria uma proliferação de vermes e sujeira, embora tenha de ser ressaltado, que há pouca evidência de remoção de pêlos do corpo de homens por este motivo.

Na realidade, muitos acreditavam que a pilosidade em mulheres, poderia ser uma representação visual de desequilíbrio de humor. De acordo com registros médicos do período, as mulheres eram de natureza fria e úmida, ao contrário de seus companheiros do sexo masculino, que eram quentes e secos e acreditavam que o calor e secura, era a fonte de pêlos no corpo de uma pessoa. Assim, o médico espanhol do século XVI, Juan Huarte escreveu que:

”…Ter muitos pêlos no corpo e pouca barba, é uma clara indicação de baixos níveis de frieza e umidade e se o cabelo é escuro, então níveis ainda mais elevados de calor e secura estão presentes. A temperatura oposta, cria uma mulher que é lisa, sem barba ou pêlos do corpo. A mulher de níveis médios de frieza e umidade tem um pouco de cabelo em seu corpo, mas ele é leve e loiro. Naturalmente, a mulher que tem muito pêlo no corpo e face (sendo de natureza mais quente e seca) também é inteligente, mas desagradável e argumentativa, musculosa, feia, tem uma voz profunda e problemas de infertilidade freqüentes…”

homem-vitruvianoNo Renascimento, assim como atualmente, a medicina, higiene e beleza, eram intimamente interligadas. Na obra ”La Lozaan Andaluza”, de Francisco Delicado – publicada em Veneza em 1528 – ele narra o conto de uma prostituta andaluz em Roma, chamada Lozana, que passa por todos os tipos de desventuras sexuais e também oferece tratamentos de beleza para clientes do sexo feminino. Lozana declara que em um determinado bordel romano: “Você vai ver mais de dez prostitutas, algumas que irão arrancar suas sobrancelhas e outras que irão raspar suas partes íntimas”, e mais tarde, narra uma história de como “por erro, queimou todos os pêlos das partes íntimas de uma senhora de Bolonha, e colocou manteiga sobre ela, de modo a feze-la acreditar que estava em grande estilo”. Mais tarde, algumas mulheres chegam à Lozana, querendo alguns cosméticos e pomadas, e pedindo para que ela as ensinasse como raspar o pêlo em seus corpos femininos.

A expectativa masculina sobre o corpo feminino, assim como a pressuposta expectativa feminina sobre o corpo masculino, desenvolta em uma recém reformada sociedade, poderia ter levado a um eficaz alto policiamento de aspectos corporais naturais. Pode ter sido à partir deste período, que novos parâmetros de visões sociais de beleza, em relação aos pêlos corporais, podem ter sido desenvolvidos.


Conclusão:

©Photo. R.M.N. / R.-G. OjŽdaTerry Eagleton, abordou uma teoria em 2001, que “nem todos os estudantes sobre a cultura dos povos, são cegos ao narcisismo ocidental envolvido no trabalho sobre a história dos pêlos púbicos…”. Como vários especialistas indignados da história dos pêlos púbicos, têm notado (e sim, eles existem), a investigação sobre os hábitos de cuidados pessoais da mulher, é em muitos aspectos, o estudo de sistemas de desigualdade de gêneros – em especial a internalização da noção de que o corpo da mulher é imperfeito a menos que seja alguma forma, modificado.

O estudo de cosméticos fora por muitos séculos, admitido como frívolo – e certamente continua sendo, segundo o ponto de vista de muitas pessoas. É difícil não ver algum tipo de sexismo, ou até mesmo misoginia, sendo aplicada como uma razão estrutural sobre o porque este assunto é tantas vezes ignorado, mesmo possuindo abundância de material de fonte primária disponível, passíveis de fornecer-nos uma visão cotidiana sobre a vida das mulheres, desde seus aspectos mais íntimos.

Embora não tenhamos como traçar uma conexão causal referente ao surgimento deste cuidado e a identidade corporal feminina, agora é hora de fazermos algumas perguntas e livrar-nos de tabus impostos por nossa sociedade.

FONTES:
Rosalie Gilbert;
History Undressed;
On the Tudor Trail;
Renresearch.

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Elizabeth I -Parte X: A Corte Elizabetana

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A Corte, era onde quer que a Rainha fosse estar e era composta por todos aqueles que a cercavam, servos, conselheiros, cortesãos e etc. Uma vez por ano, a rainha seguia rumo aos condados do sul, mas na maioria das vezes, ela residia em seu grandes Palácios Reais, que eram: Whitehall, Hampton Court, Greenwich, Richmond, Westminster, St James, Castelo de Windsor, e no final de seu reinado, Nonsuch em Surrey. Todos estes palácios eram em suas diferentes formas, magníficos de se olhar, com suas altas torres e um mar de chaminés em espirais. Whitehall, era tido como um dos maiores palácios da Europa, medindo incríveis 23 hectares e foi neste palácio, mais do que em qualquer outro, que Elizabeth I viveu.

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Nonsuch Palace, Surrey.

Geralmente, mais de 1000 pessoas compunham uma Corte Real. Portanto, quanto maior o palácio, mais fácil era para acomodar tamanho número de pessoas. Mesmo assim, não importava em qual palácio a Rainha residisse, ainda não era possível abrigar todos os cortesãos, trabalhadores, embaixadores, ou outras pessoas que desejavam ir à Corte, para apresentarem-se. Todos estes Palácios, estavam localizados em Londres ou grande Londres, de modo que encontrar alojamentos adequados, não era uma tarefa difícil. Londres foi uma das maiores cidades da Europa, começando sua notável extensão no período de Henrique VII, (avô de Elizabeth) e no período elizabetano, contava com uma população de 200.000 habitantes. A cidade crescia cada vez mais e graças a isto, oferecia tudo o que um visitante poderia desejar, desde pousadas, a lojas requintadas e centros de entretenimentos. No entanto, ser alojado na Corte, era uma grande honra e o embaixador espanhol, o Conde de Feria, não estava nada satisfeito em ter que alojar-se na cidade e não na Corte, como outrora havia sido no reinado de Maria I.

No natal, a Rainha normalmente retirava-se para Whitehall e em seguida ia para outro palácio, como Richmond ou Greenwich, antes de mudar-se novamente para Windsor na páscoa e em cerimonias. Nestas cerimônias, Elizabeth teria de lavar os pés dos pobres (o equivalente de vezes a sua idade), fazer o sinal da cruz e depois beijá-los. As mulheres então, deviam presentear a Rainha com panos, sapatos, peixes, pães, vinhos e bolsas, que continham em moedas, o mesmo número de idade da Rainha. O dia de São Jorge, também foi comemorado em Windsor.

Elizabeth-CourtiersEra importante que a Corte se mudasse após algumas semanas, pois os palácios precisavam ”tomar ar e serem adoçados”. Instalações de esgotos eram primitivas, por isto, a menos que os palácios fossem higienizados de semana em semana, o local seria anti-higiênico e difícil de se morar. Quando a Corte não estava na residência, o palácio seria cuidado por um mantenedor, que residiria lá com sua equipe e que deveria manter tudo pronto para que a Rainha e sua Corte pudessem chegar a qualquer momento.  O Castelo de Windsor, por exemplo, era o castelo mais forte e em melhor posição estratégica para oferecer a melhor defesa sobre as forças inimigas. Se estas tentassem invadir o país, era imperativo que a rainha e a Corte, pudessem recorrer ao local imediatamente.

Em sua adesão, a rainha herdou mais de sessenta residências reais. Alguns, Elizabeth ocasionalmente frequentou, mas muitos foram dilapidados. Outras caíram em ruína ao longo do reinado, já que o custo de manutenção era enorme. Uma solução, foi conferir estas residências aos mais favorecidos cortesãos. Robert Dudley em particular, foi beneficiado neste quesito, ele recebeu entre outras posses, o Castelo de Kenilworth em Warwickshire.

Os palácios eram em muitos aspectos, uma realização arquitetônica do monarca. Portanto, tinham não apenas uma aparência exterior magnífica, como um interior magnífico. Em comparação com as condições estruturais dos castelos reais medievais, os palácios eram luxuosos. Eles possuíam grandes lareiras, elaboradamente decoradas que forneciam calor, paredes cobertas total ou parcialmente com painéis de carvalho, que não eram apenas visualmente impressionantes, como também agiam como isoladores térmicos e sonoros. Longas e altas janelas deixavam a luz solar entrar e infiltrar-se e tetos primorosamente decorados em gesso. Pinturas e tapeçarias caras, adornavam as paredes e placas de prata ou ouro, eram exibidas a fim de impressionar os visitantes.

untonlargeTodos que podiam frequentar à Corte, tinham acesso à sala de audiências. Esta foi uma grande sala, onde o monarca daria audiências e onde toda a socialização e entretenimento em geral ocorriam. O acesso a outras partes do palácio, dependia de status e relações pessoais com a Rainha. A segurança era muito forte. Com tantas pessoas visitando à Corte diariamente, havia sempre o perigo de um assassino a espreita, esperando o momento ideal para alvejar a Rainha. Neste quesito, Elizabeth foi bem protegida e o acesso aos seus aposentos, foi rigorosamente controlado por seu Mestre Cavalheiro. A Rainha possuía dois quartos privados, a Casa Real e o a Câmara da Cama (quarto de dormir ou Bedchamber), embora ela raramente ou nunca, ficasse sozinha em qualquer um. Não haviam só suas seis damas de companhia pessoais, mas muitas outras presentes, como também as Damas do Quarto de Dormir, as Damas da Câmara Privada, assim como o Mestre Cavalheiro. A rainha também entreteu funcionários do governo ou embaixadores lá.

Elizabeth tendia a gastar a maior parte do dia na Câmara Privada, mas também tinha um jardim particular, onde ela gostava de fazer caminhadas rápidas ao ar livre, acompanhada de suas damas de companhia. Os palácios também abrigavam uma grande biblioteca e Elizabeth era uma ávida leitora. Ela era fluente em latim e grego e gostava de ler e traduzir as obras de autores clássicos, sendo também muito interessada em história. O jantar (sim, jantar), era servido geralmente ao meio-dia e cortesãos em geral, comeriam juntos na câmara de presença, embora alguns tivessem a comida entregue a eles em particular, em seus aposentos. Elizabeth tendia a fazer suas refeições em sua câmara Privada e só comia na Câmara de presença em ocasiões especiais. Ela não apenas foi poupada de sua presença em público, como tinha privacidade, podendo comer suas refeições rapidamente e sem cerimônia, a fim de continuar seus negócios do dia. Suas damas trariam vários pratos de comida para seus aposentos privado, as refeições, sempre haviam sido minuciosamente provadas, a fim de detectar algum rastro de veneno. Após comer o que desejava, ela compartilhava sua refeição com suas damas.

Elizabeth_I,_Procession_Portrait.A ceia era servida entre as 17 ou 18 da tarde, após isto, o entretenimento era fornecido na câmara de presença, com um jogo, um baile de máscaras, um concerto ou algo do gênero. Às vezes, a rainha assistia, outras vezes ficava em seus aposentos executando a leitura de papeis de estado e fazendo assinaturas. A maioria dos palácios, tinha um campo de caça, onde a Rainha e seus cortesãos, podiam caçar veados. Este foi um dos passatempos favoritos da Rainha. Caça com ursos e cães, também foram realizadas na Corte, junto com esportes menos violentos, como a falcoaria. O tênis foi outro passatempo bem quisto na Corte, assim como a Justa, na qual grandes torneios eram realizados. A Justa era um esporte perigoso, que resultou no ferimento quase fatal de Henrique VIII (que carregaria sequelas pelo resto da vida) e na morte de Henrique II da França; mas eles acreditavam que o perigo fazia parte da emoção e romance.

128841_orHaviam muitas cerimônias envoltas a presença da rainha. Por exemplo, enquanto locomovia-se pelo palácio, os guardas alinhavam-se a sua volta e uma fanfarra anunciava sua chegada. A altura da cabeça da Rainha, sempre tinha de ser maior em alinhamento, do que a de todos a sua volta. Como a maioria dos homens na Corte eram altos, muitos tinham de ficar quase sempre ajoelhados. Ninguém deveria virar as costas para a monarca, o que muitas vezes, significava sair andando de trás para frente e prestando mesuras até deixar o local onde estava a rainha. Também esperava-se, que todos os cortesãos presenteassem a rainha no ano novo e em troca, ela iria presenteá-los com uma placa de ouro equivalente a seus status. Mais tarde, tornou-se habitual presenteá-la em seu aniversário e dia de ascensão ao trono.

Muito esperava-se de um cortesão. Era esperado que ele fosse gracioso, cortês, bom de discurso, bem educado em obras clássicas da literatura, história, geografia, matemática, línguas; atlético, trabalhador, generoso e espirituoso.

Enquanto todos os homens que freqüentavam a corte, eram tecnicamente cortesãos, o papel tradicional de um cortesão, era muito diferente do papel desempenhado por um conselheiro político.

The_Somerset_House_Conference,_1604_from_NPGOu seja, Elizabeth esperava várias coisas diferentes de vários homens. De cortesãos tradicionais como Robert Dudley, ela esperava certa exuberância em seu vestuário e comportamento. Ela deveria ser cortejada na tradição do amor cortês, mas em um contexto inatingível, quase platônico, de alguém que a desejava, mas nunca poderia conquistá-la. Ela esperava elogios, presentes, enaltecimentos pela música, pela dança e por palavras de devoção, amor e afeto. Era tudo parte do protocolo de um cortesão ideal e uma solução perfeita para o problema de como um homem deveria porta-se diante de um monarca do sexo feminino. Foi de muitas maneiras, uma diversão frívola e homens casados, assim como os solteiros, participavam destas cordialidades para com a rainha. o objetivo não era ser cortês a nível pessoal ou iniciar um flerte com intuito de resultar em um relacionamento real ou o romance pessoal com a Rainha. Estrangeiros hostis, por muitas vezes entendiam errado o intuito destas formalidades cordiais e foi graças a estes inocentes flertes mal compreendidos (ou deliberadamente deturpados), que muitos acreditavam que Elizabeth não era realmente a Rainha Virgem, que dizia ser. Rumores circularam, especialmente na Europa, que ela estava dormindo com Robert Dudley, Christopher Hatton e outros cortesãos e dizem que Elizabeth queixou-se: “Eu não sei como uma opinião tão ruim foi formada sobre mim. Mil olhos, vêem tudo o que faço. “

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Robert Devereux, 2 Conde de Essex.

De seus conselheiros políticos, Elizabeth esperava um grau de sobriedade maior e seu relacionamento com estes homens, raramente foi tingido de romantismo, ao contrário de suas relações tradicionais com seus cortesãos. Um dos pontos fortes de seu governo, foi sua capacidade de julgar bem os homens que escolhia, tanto como cortesãos, como políticos (que ela escolhia de diferentes estirpes). Tanto William Cecil e Francis Walsingham, eram altamente religiosos, homens de família e profissionais incríveis. Frequentemente vestiam-se de preto e eram considerados modelos de sobriedade. Seus cortesãos, como Robert Dudley e Robert Devereux, Conde de Essex, eram extravagantes, com um olho para o espetáculo, além de serem homens com grande inteligência, charme e beleza, destacavam-se em eventos da Corte, como as Justas.

Apesar de seus melhores esforços, nem Robert Dudley ou Robert Devereux, conseguiram combinar com êxito, a perigosa mistura de cortesão e conselheiro político. Ambos eram melhores cortesãos do que políticos, mas a rainha precisava de homens em que pudesse confiar para serem seus conselheiros. Se sua situação pessoal houvesse sido mais favorável, as virtudes cortesãs de Dudley, poderiam tê-lo feito um bom príncipe consorte. Houve apenas um homem, Christopher Hatton, que foi bem sucedido o suficiente, para fazer a ponte entre estes dois mundos. Ele era um homem bonito, atlético, cortesão e também um político bem-sucedido, chegando a tornar-se Lorde Chanceler da Inglaterra. Como seu padrasto, Robert Devereux também tentou tornar-se um cortesão e político, mas suas tentativas, apenas terminaram e desastres políticos e pessoais.

Assim como cortesãos ambiciosos, políticos, bispos e funcionários, a Corte de Elizabeth também abrigava a sua quota de espiões. Estes espiões, pertenciam a várias potências estrangeiras que lhes plantavam na Corte, a fim de descobrirem segredos e proporcionar-lhes geralmente com informações. A rainha tinha seus próprios espiões em residências reais de outros países e eles eram considerados por alguns historiadores, os melhores espiões do período (eles de maneira divertida, os apelidavam de ”Os 007” de Elizabeth).

FONTES:
Elizabeth I.org: AQUI.

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O parto no período Tudor

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A gestação é um assunto delicado até os dias de hoje. Mesmo com o avanço na medicina, ainda ocorrem alguns problemas que podem complicar bastante tanto a gestação quanto o parto.
No período Tudor a taxa de mortalidade era consideravelmente alta, principalmente entre crianças, recém-nascidos..
Veremos no artigo de hoje, um pouco mais sobre como funcionava a obstetrícia naquele período.

As mulheres no período Tudor eram em sua maioria, bastante conscientes quanto ao risco que poderia representar uma gestação. Embora tenha sido estimado que a taxa de mortalidade de mulheres ao dar à luz era de apenas 14-18 a cada 1.000 mulheres (o que seria aproximadamente nos dias de hoje em torno de 6% da população feminina na Inglaterra), este número já era alto o suficiente para que todos conhecessem alguém que tivesse falecido durante o parto.

O parto geralmente ocorria na casa da mulher, com médicos ou parteiras de confiança. Se fossem ricas, a mulher iria dispor de médicos ou mais de uma parteira, porém, se fosse pobre, o parto iria ser feito pela parteira de seu vilarejo.
Para facilitar a saída do bebê, um corte era geralmente feito em seu períneo, pela falta de esterilização do instrumento utilizado, ou até mesmo as mãos das pessoas envolvidas no parto, este era um dos grandes problemas para a saúde da mulher…

Modelo de fórceps relativamente novo aos Tudor.

Modelo de fórceps relativamente novo aos Tudor.

A imagem acima datada de 1550, serve para ilustrar um primitivo tipo de fórceps, porém eram muito novos naquele período (e supostamente, não propriamente inventados até o século XVII, de acordo com Fraser). Ferramentas anteriores eram geralmente ganchos para remover um natimorto em pedaços e, com alguma sorte, salvar a mãe. Qualquer ferida aberta corre o risco de ser infectada e isso muitas vezes levava à morte da mulher alguns dias após o parto. O caso mais famoso, provavelmente seja o de Jane Seymour, terceira esposa de Henrique VIII, morta dias após dar a luz a Eduardo VI, provavelmente de febre puerperal (devido a má cicatrização e infecção no períneo).

A Febre Puerperal, era muitas vezes transmitida via germes de médicos ou parteiras, que infectavam as mães fazendo um parto após o outro sem a devida higienização de seus aparelhos. Elas eram infectadas na maioria das vezes com o que hoje é conhecido como estafilococos que espalhavam-se no revestimento do útero. Semmelweis descobriu que a utilização de um anti-séptico antes da higienização dos aparelhos auxiliaria no parto e diminuiria a incidência da doença em pelo menos 90%, podendo atingir os 99%, mas os resultados foram profundamente rejeitados. As mulheres infectadas não tinham antibióticos para interromper os sintomas da doença uma vez que eles se iniciavam: febre, calafrios, sintomas gripais, fortes dores de cabeça, distensão do abdômen, e ocasionalmente a perda da sanidade, pouco antes da morte.

Por mais cuidadosas que fossem, as pessoas daquele período não apresentavam uma higiene muito adequada na hora do parto.
Este fato teria acarretado complicações secundárias muito mais comuns. Como Lawrence Stone apontou, três em cada quatro casamentos eram desfeitos em decorrência da morte das esposas durante ou após o parto nos séculos XVI à XIX. Outro caso Tudor famoso de morte no parto foi o da mãe de Henrique VIII e esposa de Henrique VII, morta logo após um mal sucedido trabalho de parto em 1503.

Apesar do novo matrimonio após o divórcio não ter sido oficialmente permitido, muitas famílias acabavam tendo padrastos, devido à alta taxa de mortalidade de mães e pais como enfermidades em geral, afinal, devido a medicina precária, uma doença hoje facilmente contornável com antibióticos, naquele período, era potencialmente fatal. Há casos de crianças que foram criadas por pais que não eram biologicamente relacionados a elas devido ao fato de serem filhos de cônjuges anteriores. No séculos XVI e XVII, talvez um terço de todas as crianças haviam perdido um dos pais (Stone 1977, 46). Se uma mulher fosse de uma família nobre ou abastada, ela também poderia criar filhos agregados de casamentos anteriores.

Famosas mulheres Tudor que faleceram durante o parto.

Famosas mulheres Tudor que faleceram durante o parto.

FONTES:
TUDOR WOMAN: AQUI.

Banheiros no período Tudor

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Embora a concepção atual de um banheiro em casa possa parecer algo normal, boa parte do período Tudor não dispôs desta ”regalia”. Foi apenas no reinado de Elizabeth I, que os banheiros (para os ricos) dentro de casa, passaram a ser mais utilizados. Anteriormente, eram usados urinóis ou bacias próprias para esta finalidade, que após o uso, eram despejadas pelas janelas, a fim de evitar odores desagradáveis dentro de casa. As ruas Tudor eram fétidas, escuras e úmidas. Ao andar por elas, sentia-se o claro cheiro de urina e fezes, sem falar do lixo. As pessoas tinham de ter cuidado ao andar pelas ruas, pois podiam ser acertadas com baldes de dejetos jogados do alto das casas; sim, isto era comum.

As pessoas mais pobres, ficariam felizes em poder urinar ou defecar em qualquer lugar; na rua, no canto de uma sala ou em um balde. Quando muito pobre, você usaria panos velhos ou até folhas para a higienização local devida, enquanto os ricos limpavam-se com pedaços de panos chamados loo’o jakes. Em Edimburgo, você até poderia pagar por um banheiro portátil, que nada mais era, que um balde coberto por uma tenda.

Os dejetos Reais eram um espetáculo à parte. Eles eram analisados por médicos, que cheiravam, tocavam e às vezes experimentavam a fim de detectar alguma doença no monarca. Naquele período, acreditavam que o corpo humano era composto de 4 humores: O sangue, a bílis negra, a bílis amarela e fleuma. Uma das formas de detectar qualquer problema, era tendo contato direto com as fezes ou urina da pessoa. Em Hampton Court – até então maior Palácio inglês – foram construídos 28 toilettes que desaguavam no rio Tâmisa. O monarca Henrique VIII, possuía seu próprio assento especial, feito em veludo acolchoado, com fitas de seda e pregos de ouro; já os serviçais, compartilhavam locais destinados a eles na casa dos servos.

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Toilette pertencente a Henrique VIII. Fonte: aggiemania.blogspot.com.br

Com o decorrer do período, as casas foram construídas em etapas, sendo o andar de cima maior que o debaixo. Isto consistia por inúmeros motivos, entre eles, evitar que os dejetos caíssem nos transeuntes, ao serem arremessados janela abaixo. Em palácios e castelos que possuíam um fosso, o senhor e a senhora retirariam-se para a casa de banho, onde o vaso sanitário (garderobe) era fixado na parede onde existia um fosso. O vaso fixado sobre o fosso, faria com que o dejeto caísse diretamente para a água. Quando os fossos entupiam, eram chamados os ”meninos das esponjas”, eles tinham de ser pequenos o suficiente, para entrar nos fossos e limpar os dejetos, jogando-os no rio, definitivamente um trabalho para poucos!

Em 1596, Sir John Harrington (Cujo o ator que interpreta Jon Snow em Game of Thrones, é descendente) inventou o primeiro toilette com água e uma descarga acoplada. Ele construiu um em sua casa e mais tarde, a Rainha Elizabeth I, sua madrinha, tornou-se adepta. Ela ficou tão impressionada com o invento, que mandou que seu enteado construísse um no Palácio de Richmond. Infelizmente, ele parou de ser utilizado após a morte de Harrington e somente 200 anos depois, o WC seria inventado. Vale lembrar que o toilette é uma invenção muito anterior aos Tudors, porém, eles não tomaram conhecimento tão cedo… Aqui um vídeo em inglês sobre o assunto:

Fosso na parede de um castelo.

Fosso na parede de um castelo.

Fontes: Youtube Tudor Toilets: AQUI. Medieval travel: AQUI. Bog standard: AQUI. The Tudor Tattler: AQUI.

Febre puerperal no período Tudor

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Peste negra, pragas, doença do suor. Estas palavras remontam-nos a séculos de desespero, onde a morte era um companheiro que vivia lado a lado, espreitando um momento de fraqueza.

No período Tudor as doenças e pragas eram mais comuns do que imaginamos, elas atingiam inúmeras pessoas, assim como seus entes queridos. Mas quando nos aprofundamos nas doenças que as mulheres do século XVI sofriam, há uma morte que especialmente causava um profundo medo entre elas: a febre puerperal, também conhecida como febre de parto e mais tarde A Praga dos Médicos.

A medicina Tudor e Medieval eram centradas tanto em torno da astrologia, quanto da crença comum de que a saúde e doença de todos eram mantidas em equilíbrio ou desequilíbrio de quatro ”humores” de fluidos corporais: O sangue, a bílis negra, a bílis amarela e fleuma. Portanto, o degustar e aspirar de sangue ou urina eram maneiras comuns para diagnosticar ou tratar doenças. Embora pareça absurdo nos dias de hoje, esse tipo de tratamento medicinal reinou por quase 2000 anos, desde os tempos greco-romanos. Segundo pesquisas, apenas 10-15% das pessoas do período Tudor chegavam ao seu quadragésimo aniversário. Causas comuns de doenças que levam à morte? Geralmente a falta de saneamento básico.

Décadas antes da teoria dos germes ser implantada e validada no final do século XIX, o médico húngaro Ignác Semmelweis observou que as mulheres que davam à luz em casa tinham uma menor incidência de febre puerperal do que aquelas que davam à luz em hospitais. Estatísticas mostram que, “entre 1831 e 1843 apenas 10 entre 10.000 mães morriam de febre puerperal quando davam à luz em casa, enquanto 600 entre as 10 mil morriam nas enfermarias de hospitais”. As mulheres mais ricas, que possuíam fácil acesso aos médicos sofriam de febre puerperal com maior frequência do que as que utilizavam serviços de parteiras.

Em 1795, Dr. Alexander Gordon escreveu: “É desagradável para mim declarar que o meu meio foi o responsável por levar esta infecção a um grande número de mulheres”. Embora atualmente esta não seja mais a realidade, a verdade é que os médicos do século XVI transmitiam a doença para as mães por não desinfetarem as mãos e ferramentas entre os pacientes.

Esta doença era muitas vezes transmitida via germes de médicos ou parteiras, que infectavam as mães fazendo um parto após o outro sem a devida higienização de seus aparelhos. Elas eram infectadas na maioria das vezes com o que hoje é conhecido como estafilococos que espalhavam-se no revestimento do útero. Semmelweis descobriu que a utilização de um anti-séptico antes da higienização dos aparelhos auxiliaria no parto e diminuiria a incidência da doença em pelo menos 90%, podendo atingir os 99%, mas os resultados foram profundamente rejeitados. As mulheres infectadas não tinham antibióticos para interromper os sintomas da doença uma vez que eles se iniciavam: febre, calafrios, sintomas gripais, fortes dores de cabeça, distensão do abdômen, e ocasionalmente a perda da sanidade, pouco antes da morte.

Conforme mencionado acima, este tipo de doença não fazia distinção de classes, podendo afetar tanto os ricos quanto os mais pobres, porém, devido ao maior auxílio médico para as classes superiores, o número de pessoas nobres, ricas ou da realeza que eram afetadas consequentemente eram maiores. Na verdade, o medo da febre puerperal é frequentemente citado quando se discute a relutância de Elizabeth I em casar e ter filhos. Na era Tudor, Elizabeth de York, mãe de Henrique VIII, morreu de febre puerperal assim como as duas esposas de seu filho: Jane Seymour e Catarina Parr, embora esta última tenha sido no parto do filho de seu último marido, Thomas Seymour. A descrição da agonia no leito de morte de Parr talvez tenha sido um dos registros de morte mais arrepiantes do século, mais até do que muitas decapitações.

Apesar de Semmelweis ter sido chacota entre a comunidade de médicos por sua implicação de que eles próprios eram os transmissores da doença, a ciência e a medicina moderna prevaleceram. Hoje, no mundo desenvolvido, a incidência de doenças de parto diminuíram suas proporções em quase nulas. As mulheres não precisam mais temer que o próprio ato de levar a vida adiante possa acabar por causar sua própria morte.

Vitimas Tudor da febre puerperal: Elizabeth de York, Jane Seymour, Catarina Parr.

Vitimas Tudor da febre puerperal: Elizabeth de York, Jane Seymour e Catarina Parr.

FONTES:

sandrabyrd.com: AQUI.

Artigo original extraído dos seguintes registros:

The Doctors’ Plague: Germs, Childbed Fever, and the Strange Story of Ignac Semmelweis, Sherwin B Nuland, WW Norton, 2004

Oliver Wendell Homes: The Contagiousness of Puerperal Fever

A doença do suor no período Tudor

ImagemA doença do suor, conhecida no Brasil também como Sudor Anglicus, foi uma doença epidêmica, não conhecida na Inglaterra antes do período Tudor. Ela atraiu a atenção logo no início do reinado de Henrique VII. Tornou-se conhecida alguns dias após seu desembarque em Milford Haven, no dia 07 de agosto de 1485, também há evidências claras de que foi comentada antes da batalha de Bosworth, no dia 22 de agosto. Logo após a chegada de Henrique, em Londres, em 28 de agosto, a capital eclodiu com a enfermidade, causando um alto índice de mortalidade. Esta alarmante doença logo tornou-se conhecida como a doença do suor ou suor maligno. Foi considerada amplamente distinta de qualquer doença ou praga previamente conhecida na Inglaterra, não só pelo sintoma especial que lhe deu o nome, como também por sua rápida e fatal evolução.

Após 1485 até 1507, não ouviu-se mais falar da doença, até que um novo surto ocorreu. O segundo surto foi amplamente mais fatal que o primeiro e cessou como o primeiro. Nenhum sinal da doença foi vista novamente, até que em 1517 um terceiro e muito mais grave surto da epidemia ocorreu. Foi registrada em Oxford e Cambridge, bem como em outras cidades, onde em alguns casos, houve uma perda de até metade da população. Há evidências de que a doença tenha se espalhado para Calais e Antuérpia, porém, fora estes dois locais, ela ficou confinada apenas à Inglaterra.

Em 1558, ocorreu um quarto ciclo da doença, cada vez mais preocupante e severa. Primeiro apareceu em Londres e no final do mês de maio, rapidamente espalhou-se por toda a Inglaterra. Em Londres, a mortalidade foi tão alta, que a corte Tudor foi dissipada e Henrique VIII muitas vezes deixou a cidade por medo da doença. Esta epidemia então espalhou-se pelo continente, aparecendo de repente em Hamburgo e então espalhando-se tão rapidamente que em poucas semanas mais de mil pessoas já haviam morrido. Esta foi mais uma vez a terrível doença do suor, seguindo seu rápido curso destrutivo, durante o qual, causou uma temerosa mortalidade em toda a Europa oriental. França, Itália e os países do sul foram poupados. Espalhou-se de maneira semelhante a cólera, chegando à Suíça em dezembro, e em outros países do norte, como a Dinamarca, Suécia e Noruega. A leste afetou a Lituânia, Polônia e Rússia, e a oeste a Holanda, a menos que de fato a epidemia, que se declarou simultaneamente em Antuérpia e Amsterdam, na manhã do dia 27 de setembro, tenha vindo diretamente da Inglaterra. A doença disseminava caos e morte, e em cada lugar que passava, prevalecia durante um curto período de tempo, geralmente não mais que uma quinzena. Até o final daquele ano, ela já havia desaparecido quase que por completo, exceto no leste da Suíça, onde permaneceria pelo próximo ano. Enfim, o terrível ”suor inglês”, nunca mais apareceria novamente, pelo menos da mesma forma no Continente. A Inglaterra, no entanto, foi destinada a sofrer de mais um surto da doença em 1551, e no que diz respeito a isso, temos a grande vantagem de contar com os relatos de uma testemunha ocular, John Kaye ou Caius, um famoso médico.

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Sintomas:
Os sintomas descrito por Caius, diziam que a doença começava muito de repente, com um sentimento de apreensão, seguido de calafrios (por vezes muitas vezes violentos), tontura, dor de cabeça e fortes dores no pescoço, ombros e membros, com grande prostração. Após a fase do frio, que poderia durar de meia hora a três horas, seguia-se a fase de calor e transpiração. O característico suor, por sua vez eclodia de repente, sem nenhuma causa óbvia. Com o suor derramado, vinha uma nova sensação de calor, seguida de dor de cabeça, delírio, pulso rápido e sede intensa. Palpitações e dores no coração eram sintomas frequentes. Nenhuma erupção na pele foi observada; Caius não fez alusão nenhuma a tal sintoma. Nos estágios mais avançados, houve prostração geral, colapso, ou sonolência extrema, que acreditavam ser fatal, se o paciente cedesse. Como dito anteriormente, a doença foi notavelmente rápida em seu curso, sendo por vezes, até mesmo fatais em duas ou três horas, sendo que alguns pacientes morriam em menos tempo. Mas comumente, era prolongada a um período de 12 a 24 horas, sendo raro sobreviver após esse tempo. Aqueles que sobreviviam por 24 horas eram considerados fora de perigo.

A doença, ao contrário da peste, não foi especialmente fatal para apenas para os pobres, mas sim, como afirma Caius cita, atacou especialmente os mais ricos, bon vivants e pobres ociosos. “Os que possuíam a fatal doença do suor, ou eram homens de riqueza, conforto ou bem-estar, ou os mais pobres, pessoas ociosas, que bebiam cerveja e frequentavam a taverna.”.

Causas:
Alguns atribuíram a doença ao clima Inglês, sua umidade e suas brumas, aos hábitos destemperados do povo inglês, e à terrível falta de limpeza nas ruas e arredores das casas, que foi notada por Erasmus em uma passagem bem conhecida, e sobre o qual Caius é igualmente explícito. Mas temos de concluir que o clima, estação, e modo de vida não eram adequados, separadamente ou em conjunto, para produzir tal doença, embora cada um pudesse ter agido por vezes, como uma das causas predisponentes. A doença do suor, na verdade, para usar a linguagem moderna, foi uma doença infecciosa específica, no mesmo grau da peste, tifo, escarlatina ou malária.

SAIBA COMO ANA BOLENA SUPEROU A DOENÇA E MUITO MAIS, NO ARTIGO: ANA BOLENA E A DOENÇA DO SUOR MALIGNO.

Fontes:
Luminarium: AQUI.
Wikipédia.

sweatingsickness

Perfumes nos tempos Tudor

ImagemComo vimos anteriormente nos artigos sobre higiene, os Tudors não prezavam apenas por sua higiene, como também com a de suas roupas e casas. Neste artigo vamos explorar ainda mais este assunto, inclinando para um lado mais enigmático, os perfumes.
Qual seria o envolvimento dos Tudors com os perfumes?

Os perfumes foram introduzidos ao povo inglês (assim como a todo o resto da europa) na época das cruzadas, vindos provavelmente da Arábia, durante as inúmeras viagens feitas pelos templários ao oriente. Eles eram vendidos por comerciantes àrabes chamados mascates, que lidavam com essas mercadorias. Os principais produtores de perfumes nesta época, foram os monges, por serem bastante hábeis em destilação. Os perfumes mais populares no período Tudor, eram produzidos à partir de flores, como rosas, lírios e violetas. Na antiguidade, o povo europeu acreditava que os ”gases sujos no ar”, ou odores ruins, causavam doenças e o perfume foi então, uma boa forma de mascará-los.

Segundo Dr. Elizabeth T. Hurren em ”King Henry VIII’s Medical World”, contas reais do reinado de Henrique VIII, mostram um interessante registro sobre o assunto:

” O cheiro de suas bandagens eram muitas vezes repugnante. Suas feridas inflamadas muitas vezes escorriam pus. Contas domésticas de Henrique, mostram que ele gastou gandes somas em perfumes para disfarçar o decadente cheiro que emanava de seu corpo sitiado.”

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O perfume diferente dos dias modernos, não era colocado diretamente sobre a pele, e sim em recipientes denominados Pomos (Pomanders). A palavra Pomander tem origem francesa, pomme d’ambre, que significa ”maçã de âmbar”. Ele consistia de um ornamento muitas vezes circular, no qual seriam depositadas as especiarias e essências, como seria preso a roupa, ao andar exalaria seu perfume, livrando as pessoas de odores desagradáveis.

O perfume também foi citado em um acontecimento interessante na história Tudor, a apresentação no Chateau Vert. Em sua crônica, Edward Hall diz:

”…As virtudes defenderam o castelo com água de rosas e doces, enquanto a dama do escárnio e companhia se defendia jogando fitas…”

Mas segundo Holly Dugan, autora do livro ”The Ephemeral History of Perfume: Scent and Sense in Early Modern England”, o uso da água de rosas foi muito mais simbólico que performático, segundo ela:

”…O uso da água de rosas na apresentação de máscaras de Henrique, celebrou um profundo acaso agrícola e tecnológico: a domesticação do damasco e rosa na Inglaterra coincidiu com a chegada da arte da destilação, permitindo a produção nacional da água de rosas…”

A reforma inglesa de Henrique VIII, alterou drasticamente o modo como o perfume foi produzido e consumido na Inglaterra. Como vimos acima, os monges eram os responsáveis pela destilação do perfume, e com a dissolução dos monastérios na Inglaterra, o número de jardins reais aumentaram consideravelmente. Quando jardineiros reais tranformaram os jardins antes privados para os monges em espaços públicos, eles também alteraram as práticas da produção de perfumes na Inglaterra. Não mais controlados pelo episcopado, a produção de perfumes tornou-se um assunto interno. Os perfumes ingleses não eram mais barras sólidas prontas para serem usadas em pomos ou queimadas. Boticários ingleses, desenvolveram águas perfumadas misturadas à partir de óleos destilados, especiarias e flores.

Perfume de Elizabeth I:
A receita de um perfume original com mais de 400 anos de idade usado por Elizabeth I, foi descoberta em um livro na biblioteca da Sociedade Real de Horticultura em Londres, em um livro intitulado “O Mistério e Sedução dos Perfumes” por CJS Thompson.

”Pegue 8 grãos de almíscar e coloque 8 colheres de água de rosas, 3 colheres de água de damasco e 1/4 de grama de açúcar. Ferva por cinco horas e coe.”

A reprodução deste perfume é vendida no site Historic Royal Palaces.

Existem também registros do perfume favorito de Henrique VIII, compossto de uma mistura de Almíscar, civetona e âmbar.

Podemos concluir que os Tudors tiveram bastante envolvimento com o perfume e sua história, não sendo ele usado apenas como um mero objeto de vaidade. O perfume foi usado com fins simbólicos e medicinais e sociais.

Fontes:

Livro: Aroma: the cultural history of smell – C. Classen, Howes David, Synnott Anthony.
Livro: Tudor costume and fashion – Herbert Norris.
Livro: The Ephemeral History of Perfume: Scent and Sense in Early Modern England Por Holly Dugan
Artigo: King Henry VIII’s Medical World – Dr. Elizabeth T Hurren

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Higiene Tudor- Parte 2

Louças Tudor em Hampton Court Palace

Como já haviamos visto os Tudors eram geralmente aceitos como tendo uma ligação com sujeiras e doenças, porém tentavam sempre manter suas casas limpas. O que não era uma tarefa fácil, considerando que a maioria das casas tinham pisos de terra, que eram de dificil manutenção e estavam sempre empoeirados. Utensílios domésticos como pratos e tigelas eram geralmente feitos de madeira, posando outro desafio para as donas de casa que precisavam mantê-los limpos, sem a ajuda dos produtos de limpeza atuais.

Se você fosse rico, provavelmente teria piso de pedra e utensílios de estanho, mas seus empregados ainda teriam de limpá-los com os mesmos materiais que qualquer Tudor, independente de sua classe social teria a sua disposição.

O trabalho de uma dona de casa Tudor era difícil. Mesmo antes de iniciar suas tarefas ela precisaria localizar um suprimento adequado de água e pelo fato da água ser pesada para o transporte, muitas tarefas diárias teriam sido realizadas fora de casa até mesmo no inverno. Isto também eliminaria os problemas associados com a eliminação da água residual. Ao contrário de hoje, não havia ralos dentro de casa na qual a água suja pudesse ser eliminada e por isso tinham de carregar a água residual para fora de casa para “sumidouro” ou um buraco no solo.

Alison Sim afirma que um dos trabalhos mais básicos que uma dona de casa Tudor tinha que fazer era lavar louças. O que teria sido um trabalho bastante demorado em vista que tudo, (desde vasilhas de leite a talheres) teria de ser lavado.

Hoje podemos usar detergentes para esta tarefa em particular, mas os Tudors normalmente usavam areia de rio afiada. Alison também descreve como uma planta conhecida como cavalinha (Equisetum telmateia) também foi usada para limpar qualquer coisa desde de madeira a armaduras. Esta planta foi um importante agente de limpeza Tudor.

Se lavar louças já parece exaustivo, imagine lavar roupas! Se você pudesse pagar, contrataria uma lavadeira, pois este era um trabalho muito mais demorado.

Como já mencionado na primeira parte deste artigo, os Tudors tomavam bastante cuidado em garantir que sua roupa estivesse sempre limpa, uma vez que isso era sinal de respeito. Todos tentavam trocar suas roupas diariamente, os mais ricos mudavam várias vezes ao dia, mas não era apenas para essa finalidade que era necessário lavar roupas. Toalhas e lençóis também necessitavam ser lavados e muitas eram limpos por um processo denominado “bucking”. Alison Sim descreve o processo em detalhes:

“Era uma grande banheira, mais parecida com um barril, que se sustentava sobre um suporte que a elevava a um pé do chão. Ela tinha uma torneira cerca de um centímetro acima do fundo. Uma banheira de madeira rasa era colocada sob a torneira. Encher a banheira era uma tarefa bastante complicada, pois a roupa tinha de ser dobrada e colocada de forma que a água derramada atravessasse toda a roupa e assim a água suja não manchasse o material. Varas eram colocadas entre o feixe das roupas, de modo que a água pudesse passar livremente.”

Uma vez que a banheira fosse cheia com roupas, ley seria derramada no barril. Esta “solução alcalina forte” era feita para fazer a água passar através de cinzas limpas de madeira ou de samambaias secas.

Uma vez que a roupa fosse deixada de molho, o ley seria dispersado através de uma torneira no fundo da banheira e em seguida, as roupas seriam viradas. Uma vez que a sujeira fosse dissolvida, a roupa era lavada em água corrente e se necessário “também branqueada ao sol e vento, colocando-a no chão ou sobre um arbusto e molhando-a repetidamente”. Este elaborado processo era executado diariamente!

O Bucking era excelente para materiais mais resistentes, mas o  delicado tecido usado pelos mais ricos não poderia ser exposto a tal processo. Ao invés disso, poderia ter sido lavado com água e sabão.

O “sabão-negro”, como era conhecido, tinha consistência “gelatinosa” e era feito com gordura fervente e soda cáustica. Quando armazenado em barris parecia negro, por isso seu nome. Alison Sim afirma que o sabão gerava uma indústria de grande escala no século XVI, o que sugere que a maioria das pessoas compravam seu sabão ao invés de fazê-lo.

A lavadeira de Henrique VIII, Anne Harris, usava sabão para executar suas tarefas de lavagem reais, conforme registrado nas contas financeiras da época.

Anne Harris, a lavadeira do Rei lavava suas toalhas de mesa e toalhas e fornecia ervas para manter a roupagem perfumada. Ela recebia 10 libras por ano, o que era um bom salário, mas foi afirmado muito especificamente que ela devia fornecer seu próprio sabão. “

Os deveres da lavadeira não terminavam por ai. No século XVI roupa limpa era um sinal de respeito, mas linho branco era um sinal de riqueza. Quanto mais branco o linho, mais rico o proprietário. Se você pudesse pagar, você compraria sua roupa já branqueada, mas se não pudesse, compraria “não-branqueada” que era uma cor creme-acinzentado e só seria transformada no cobiçado linho branco por branqueamento repetido.

Mas o que os Tudors usavam como alvejante? Eles usavam urina humana. O processo de branqueamento era semelhante ao processo bucking, só que ao invés de adicionar ley era adicionado lixívia.

A roupa secaria sendo espalhada no chão ou colocada sobre um arbusto. No inverno tal tarefa seria bastante desafiadora.

Outra tarefa igualmente desafiadora teria sido cuidar dos luxuosos tecidos encontrados nos armários dos ricos. Além de linho muito fino, tecidos como o veludo, seda e até mesmo linho de ouro necessitariam limpeza. Uma rica roupa Tudor muitas vezes tinha bordados, o que era  uma dor de cabeça extra e tapeçarias finas que decoravam as paredes das casas ou a pele que era usada nas roupas no inverno.

Os itens de lã eram escovados e sacuididos semanalmente para manter as traças fora e peles que haviam endurecido eram salpicadas com vinho, deixadas para secar e em seguida, esfregadas até ficarem macias.

A Remoção de manchas de tecidos finos também era um trabalho difícil e Alison Sim acredita que existiam tantas formas alternativas de tratamento de manchas que sugere que era o caso de tentar apenas uma vez, ou seja “acertar ou errar”.

Um exemplo de uma instrução encontrada no ”O livro rentável de remédios aprovados” sugere que tanto para lavar seda quanto ouro deve-se aquecer a água, adicionar sabão permitindo que derreta e em seguida, uma vez que a água esteja quase fria, lavar as roupas. A peça deve ser então seca e estabelecida entre camadas.

Remover manchas de graxa das roupas é bastante difícil hoje em dia. Mas no passado nossos modernos removedores de manchas seriam inúteis quando se trata de remover manchas tais manchas. Então, o que os Tudors faziam? John Partridge recomendava o uso da água em que as ervilhas foram encharcadas e seu lvro sugere a aplicação do sabão de Castela com uma pena limpa.

É claro que como hoje, ao se tratar da remoção de manchas, haviam muitos conselhos para escolher. Se o conselho realmente funcionava era uma questão completamente diferente.

Ou seja de fato, a dona de casa Tudor tinha um trabalho bastante cansativo!

Próximo artigo- Higiene Tudor- Parte 3 – Higiene Pessoal.

Fonte:

Esse artigo foi escrito com base em um artigo do site The Tudor Trail.

Higiene nos tempos Tudor- Parte I

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Ilustração de um ritual de banho.


“Um dos equívocos da história popular, é achar que a preocupação com a higiene e saneamento básico é algo recente – e decididamente, um fenômeno moderno.”  Simon Thurley

Nós não costumamos pensar sobre os Tudors como sendo pessoas particularmente higiênicas, mas eles na verdade eram muito mais “limpos” do que geralmente pensamos ou damos crédito. Eles eram, naturalmente, limitados pela tecnologia da época e pelos desafios associados com a eliminação do esgoto e do lixo, mas isso não significa que eles não tentavam se manter limpos e as suas casas…

De acordo com Alison Sim, os Tudors se lavavam com muito mais freqüência do que geralmente se pensa. Não se sabe exatamente quantas vezes, mas de fato as receitas de sabão e “águas de lavagem ” estão inclusas no manual de instruções de uso doméstico, ilustrando que definitivamente havia um interesse em higiene pessoal (Sim, pág. 47).

Senhoras ricas usavam um sabonete perfumado ou ‘sabão castill’ para a sua limpeza diária. Nem todos os níveis da sociedade, podiam usar esse tipo de sabão, pois era importado e muito caro. O sabão mais comum era feito com “azeite ou gordura de animais'(Sim, Pg. 47).

‘Hugh Plat’s Delightes for ladies’- um manual para casa do século 14, dá instruções para a preparação de água para o banho sugerindo o uso de sálvia, manjerona, camomila, alecrim e casca de laranja como possíveis ingredientes. Ele também oferece alternativas muito mais baratas sugerindo mais uma vez que não eram apenas os Tudors ricos que se interessavam ​​em higiene pessoal, mas pessoas de todos os níveis da sociedade.

A fim de ter um banho, a maioria dos Tudors teriam que usar uma banheira de madeira, alinhada com as folhas, ou forrada por uma lona de tecido, recolher baldes de água, aquecê-la na lareira e encher a banheira. É provavelmente seguro afirmar que este trabalhoso processo tenha dissuadido as pessoas a tomarem menos banhos antigamente do que tomamos hoje, porém não havia nada que os impedissem de realizar um banho diário. A distinção é que o banho como conhecemos hoje, exigia que uma pessoa entrasse em uma banheira e se lavasse com esponja.

Os únicos Tudors a terem sorte o suficiente para ter um encanamento permanente e luxuosos banheiros eram da realeza.

Pelo fato do abastecimento de água determinar por quanto tempo a corte poderia ficar em um determinado local, Henrique VIII decidiu reformular os sistemas de abastecimento de água de todas as suas grandes casas.

Melhorias feitas para o abastecimento de água levaram ao facilitamento dos banhos. Algumas das casas que Henry herdou já continham banheiros de luxo, tais como o banheiro de Eduardo III em Westminster com “duas grandes torneiras de bronze para o banho dos reis pudesse ter água quente e fria” (Thurley, pág. 167).

Em 1529, Henrique VIII ordenou a construção de um novo banheiro no primeiro andar da Torre de Bayne em Hampton Court. Esta torre era a suíte de luxo de Henrique VIII e consistia em um escritório, uma sala-forte, um quarto, um banheiro, uma sala de reuniões, uma biblioteca e uma jewel house (Thurley, Pg 170.).

Thurley descreve o banheiro em grandes detalhes:

“O banheiro tem profundas janelas com assentos e armários embaixo, adornado por um teto decorado com ripas de ouro em um fundo branco. As banheiras foram feitas por um tanoeiro e foram fixadas à parede, elas tem duas torneiras, uma para a água fria e outra para quente. Logo atrás do banheiro, em outra sala pequena, tem um fogão de de queima de carvão, ou caldeira, alimentado a partir de uma cisterna no segundo andar, que foi preenchido pela conduta de Coombe. “(Pág. 170)

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Foto de uma típica banheira Tudor.

Outros banheiros semelhantes existiram na Torre de Londres, Castelo de Windsor e New Hall.

Mais tarde no reinado de Henry, ele começou a tomar banho em banheiras submersivas. Thomas Platter descreveu o banho de Henry em Woodstock:

“Fomos apresentados ao banheiro e banheira do Rei Henrique VIII, e também a uma grande cisterna central quadrada cheia de água em que ele se banhava, a água vem da nascente Rosamund, e é fria no verão e quente no inverno.” (Thurley, pág. 170)

Em 1540, Henrique VIII instalou uma banheira em Whitehall mais luxuosa e sofisticada até mesmo que a de Hampton Court, mas não temos nenhum registro a respeito da freqüência que Henry de fato teria usado a banheira.

Thurley afirma que Henry, por prescrição médica, tomava ‘banhos de ervas medicinais’ a cada inverno, mas evitou banhos por um tempo quando a doença do suor maligno tornou-se evidente.

Uma escola filosófica de pensamento que existiu na época acreditava que o banho era perigoso e que “permitia que ares venenosos entrassem, destruíssem os espíritos animados no homem e enfraquecesse o corpo” (Thurley, pág. 171).

Além de tomar banho com sabonetes perfumados, os mais ricos também poderiam se dar ao luxo de comprar perfume. Os Perfumes eram feitos de especiarias importadas e por isso nem todos podiam pagar por esse luxo (veja também o artigo: ”A Maquiagem nos tempos Tudor”). Alison Sim acredita que eles foram usados mais ​​como uma demonstração de riqueza do que como forma de mascarar odores desagradáveis. Alison também afirma que se de fato eles tivessem sido usados ​​para mascarar odores, seria mais provável que tivesse sido da roupa, ao invés das pessoas.

Usar roupas Tudor no pico verão teria causado muitos suores e para tentar mantê-las com um cheiro mais fresco, sem as conveniências modernas como desodorante ou máquina de lavar, eles de fato podem ter aplicado algumas fragrâncias. Uma outra forma de tentar fazer com que as roupas permanecessem frescas seria mudando-as tão frequentemente quanto possível.

Os Tudors tomavam grande cuidado em garantir que suas roupas de baixo estivessem sempre limpas, uma vez que isso era um sinal de respeitabilidade. No livro de Richard Jones ‘Heptameron of Civil Discourses’, sobre como ter um casamento feliz, ele diz que uma mulher que não usa roupas de baixo limpas não deve agradar a estranhos e muito menos a seu marido”(Sim, pág. 52). A maioria mudava sua roupa de baixo diariamente e os mais ricos poderiam trocá-las várias vezes ao dia.

Na próxima parte de nosso artigo de higiene Tudor, vamos olhar para a forma que os Tudors escovavam os dentes, lavavam roupas e como a limpeza doméstica em geral era feita.

Fontes:
On the Tudor Trail: AQUI.

 

Jane Seymour higienizando suas mãos no filme Henry VIII and his six wives de 1972 da BBC.

Jane Seymour higienizando suas mãos no filme Henry VIII and his six wives de 1972 da BBC.