A Batalha de Bosworth

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Em 22 de agosto 1485, dois exércitos enfrentaram-se em uma batalha que mudou o curso da história inglesa.
Um grande exército Real, liderado pelo Rei Ricardo III, aguardava a aproximação de um exército rebelde duas vezes menor, liderado por Henrique Tudor, Conde de Richmond. Esta batalha decisiva iria testemunhar a morte de um rei e o nascimento de uma dinastia que prolongaria-se por 122 anos.

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Ricardo III.

Ricardo III governava o país há pouco mais de dois anos, quando encontrou o seu direito ao trono desafiado por Henrique Tudor. Henrique, por sua vez, que começou aquele dia como um rebelde exilado, terminou sendo coroado Henrique VII da Inglaterra.

Henrique havia sido exilado na França desde os 14 anos, mas aos 28 anos ele foi incentivado por sua família Lancasteriana e aliados, a lutar pela chance de se tornar rei da Inglaterra. Ele partiu para Milford Haven no País de Gales com um pequeno exército de exilados ingleses e mercenários franceses.

Henrique pediu a ajuda de Lorde Thomas Stanley e de seu irmão, Sir William Stanley, com base no Noroeste da Inglaterra. Lorde Thomas era casado com a mãe de Henrique, e o mais o mais importante: era um homem rico, e por esse motivo, poderia comandar um grande exército privado. Alguns relatos sugerem que Henrique e Sir William se comunicaram durante a marcha, uma vez que ambos teriam seguido um trajeto semelhante. No entanto, não se sabe se Henrique foi bem-sucedido na busca pelo apoio de Lorde Thomas antes do conflito.

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Henrique Tudor.

Enquanto isso, Ricardo III, ao saber sobre o desembarque de Henrique, enviou uma intimação para os seus apoiantes, pedindo-lhes para se juntassem a ele equipados para a guerra. Ele também queria o apoio de Lorde Thomas e tomou o seu filho mais velho como refém em uma tentativa de garantir isso.

Ricardo saiu de Leicester com cerca de 12.000* homens, com a intenção de parar Henrique durante sua marcha em direção a Londres. A localização exata de onde eles se encontraram foi, até recentemente, o assunto de muito debate, e pesquisas ainda estão sendo feitas na área ao redor das aldeias ligadas à Batalha.

O exército do rei acampou em Ambion durante a noite, mas na manhã da batalha eles parecem ter se mudado alguma forma, descendo a colina para enfrentar o exército de Henrique Tudor. Os homens de Henrique encontraram um pântano e o cercaram para enfrentar Ricardo. A essa altura os irmãos Stanley, Lorde Thomas e Sir William, já haviam chegado, porém também estava claro que eles ainda não tinham decidido qual dos lados iriam apoiar. Eles passaram a maior parte da manhã assistindo o desenrolar dos acontecimentos.

A Batalha:

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John Howard, Primeiro Duque de Norfolk.

Ao contrário de Ricardo – que era um renomado guerreiro-, Henrique nunca tinha lutado em uma batalha antes e sabia que lhe faltava a experiência para enfrentar Ricardo, mas ele contava com o Conde de Oxford, que era um soldado experiente junto com ele. Dessa forma, Henrique assumiu o comando da reserva. Os homens de Oxford se moveram em torno do pântano para atacar o flanco direito de Ricardo, que era comandado por John Howard, o Duque de Norfolk. Ricardo desejava que Norfolk atacasse os homens de Henrique, uma vez que estes tinham atravessado o pântano. Um escritor da Borgonha, Jean Molinet, nos diz que o exército de Oxford (incluindo os mercenários franceses) mudou-se para atacar o flanco de Ricardo e para evitar o fogo pesado da artilharia do Rei. Oxford havia colocado duas bandeiras no chão e incentivou seus homens a formarem-se entre elas. Ele também sabia que eles estavam em desvantagem numérica, e deste modo, ele ordenou que seus homens ficassem a dez passos dos estandartes, garantindo que sua força não seria desfeita. Isto criou uma cunha sólida de homens e quando Norfolk chegou até lá, ele encontrou a defesa de Oxford difícil de atacar. Norfolk foi morto durante a luta feroz, no entanto, a vantagem de números ainda estava com Ricardo e os Yorkistas.

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Sir John Cheney.

Os homens de Henrique eventualmente avançaram em ordem de batalha. Ricardo, do seu ponto de vista, viu que estava perdendo Norfolk no flanco direito e que Northumberland não se envolveu, ou não poderia se envolver com qualquer inimigo, pois ele afirmou que sua tropa precisava permanecer em posição para enfrentar qualquer movimento dos Stanley. Nesse momento, Ricardo ordenou que Lord Stanley entrasse em combate imediatamente, e deixou a instrução para execução de seu filho, caso ele não o obedecesse. Essa ordem, por sua vez, também não foi obedecida, e os carrascos, talvez por prudência, esperaram para ver quem venceria o combate antes de se tornarem responsáveis pela morte do filho de um nobre potencialmente vitorioso.
Ao perceber como a abordagem Henrique contava com uma relativamente pequena força de homens, Ricardo pode ver uma chance de ganhar a batalha de forma definitiva matando Henrique.
O ataque de Ricardo foi vigoroso, e a princípio, bem-sucedido. Ele ficou assustadoramente perto de Henrique Tudor, chegou a conseguir derrubar Sir John Cheney e o porta bandeira Tudor, Sir William Brandon e, segundo algumas fontes, ele e Henrique lutaram diretamente durante algum tempo.

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Matéria de uma revista inglesa, ilustrando os golpes recebidos por Ricardo III em batalha.

Neste ponto, William Stanley finalmente decidiu manter o compromisso de apoiar Henrique, e seus homens atacaram Ricardo e seus cavaleiros. Ricardo III encontrou-se em menor número e embora consciente de que havia sido derrotado, ou talvez justamente porque soubesse disso, ele se recusou a fugir do campo de batalha. Alguns mencionam que ele rechaçou as tentativas de seus homens de lhe entregarem um cavalo para a fuga, alegando que pretendia morrer como Rei da Inglaterra. Pode ter sido uma teimosia incrível, pura coragem, desespero heroico por ter sido traído, ou percepção de que fugir significava ser humilhado e executado em algum momento no futuro; não temos como saber, mas qualquer que fosse a razão, ele manteve sua posição, foi ferido e lutou até a morte. Os detalhes são vagos sobre como Ricardo chegou ao seu violente e sangrento fim, mas parece que ele foi desmontado e arrastado pelos guarda-costas de Henrique. Pelos danos no crânio de Ricardo, é possível especular que seu elmo foi retirado por trás, o que deixou a cicatriz no queixo, que pode ter sido cortada com um punhal ou instrumento similar. Um ferimento na bochecha sugere também uma ação de esfaqueamento pelas costas durante a batalha. Finalmente, um ataque de uma espada ou arma de batalha, através da cabeça, concluiu a morte do último rei da Casa de York.

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Henrique VII.

A batalha toda durou aproximadamente duas horas e terminou ao meio-dia. Ricardo seria o primeiro rei Inglês a ser morto no campo de batalha desde que Ricardo I, em 1199, e também o último Rei inglês a morrer desta forma. Mais tarde naquele dia, a coroa de Ricardo foi recuperada e Henrique foi coroado em um campo nas proximidades Crown Hill em Stoke Golding.

O corpo de Ricardo foi colocado ao ar livre por dois ou três dias, para que as pessoas pudessem ver e assim confirmar a sua morte, bem como a vitória de Henrique em Bosworth. Ricardo foi, então, colocado para descansar no Mosteiro Greyfriars.
Henrique VII, o novo rei da Inglaterra se casou com a sobrinha de Ricardo III, Elizabeth de York, juntando as casas de York e Lancaster. Porém, como sabemos, apesar desta união, as revoltas Yorkistas continuaram até 1499.

Algumas observações e curiosidades sobre Bosworth Field:

1) A batalha de Bosworth não foi realmente travada em Bosworth.

Ela só se tornou conhecida como “A batalha de Bosworth” cerca de 25 anos após ter ocorrido. Em vez disso, seus contemporâneos a conheciam como a batalha de “Redemore”, que significa lugar de juncos. Outros nomes para a batalha eram “Brownheath” e “Sandeford”.

2) Pode ser difícil imaginar o tamanho da batalha.

As estimativas apontam que o exército de Ricardo III tinha cerca de 15.000 homens – aproximadamente três vezes o tamanho do exército de Henrique Tudor, com apenas 5.000 homens. Enquanto isso, os irmãos Stanley tinham cerca de 6.000 homens entre eles. Estes números significam que o local da batalha deve ter sido bem amplo.

3) Ricardo tinha um impressionante arsenal militar.

Um relato menciona 140 canhões, enquanto as pesquisas arqueológicas do campo de batalha encontraram mais de 30 balas de canhão – mais do que qualquer outra descoberta em um campo de batalha medieval europeu.

4) Henrique Tudor tinha chegado ao País de Gales no dia 7 de agosto e tinha marchado mais de 200 milhas na Inglaterra.

Ricardo III tinha ficado “muito feliz” ao ouvir sobre seu desembarque e estava confiante de que ele iria derrotar o rebelde. De fato, ele estava tão confiante que chegou a se atrasar, deixando sua base em Nottingham por um dia, a fim de celebrar um dia de festa.

5) Sendo ele um novato no que se tratava de batalhas, Henrique Tudor permaneceu na parte de trás do campo, enquanto suas forças foram lideradas pelo general Lancasteriano, John de Vere, Conde de Oxford, que também liderou a vanguarda de Henrique.

Conforme mencionado acima, entre as duas forças havia um pântano que Oxford conseguiu circular, antes de lançar um ataque contra a vanguarda de Ricardo III, que era comandada pelo Duque de Norfolk.

6) Foi com o esmagamento da vanguarda de Ricardo por Oxford, que a batalha começou a virar para Henrique: as tropas de Ricardo começaram a abandoná-lo.

Em particular, a sua retaguarda de 7.000 homens foi liderada por Henrique Percy, o Conde de Northumberland. Relatos mencionam que ela se deteve, e “nenhum golpe foi dado ou recebido”, sugerindo que os homens de Northumberland foram mantidos fora da ação. Talvez eles não tenham sido capazes de atravessar o pântano.
Alternativamente, contos da traição de Northumberland foram abundantes. Mais tarde, ele foi morto por seus próprios partidários por ‘decepcionar Ricardo’. Seja qual for a causa, o fato é que metade da retaguarda do exército de Ricardo não se envolveu na batalha e isso deixou o rei com sérios problemas.

7) Ofereceram a Ricardo um cavalo para que ele pudesse fugir da batalha, mas ele recusou.

Os relatos mencionam que ele teria dito: “Deus me livre de dar um passo. Neste dia eu vou morrer como um rei, ou vencer”.

8) A batalha foi brutal.

Todas os relatos atestam a força de Ricardo em batalha. Mesmo John Rous, que comparou Ricardo ao Anticristo, admitiu que “se me permite dizer a verdade, a seu crédito – embora pequeno de corpo e débil de membros – ele portou-se como um cavaleiro galante e agiu com distinção como seu próprio campeão até seu último suspiro”.

Ricardo derrubou Sir John Cheyney, que foi o soldado mais alto na época, com certa de 2,07 metros. Ele também conseguiu matar o porta-estandarte de Henrique, Sir William Brandon. O próprio porta-estandarte de Ricardo, Sir Percival Thribald, teve as duas pernas cortadas durante a batalha, mas ainda conseguiu agarrar-se ao estandarte Real.

9) Foi só quando Henrique ficou em ‘perigo imediato’ que os Stanley – ou melhor, Sir William Stanley – veio em seu auxílio, colidindo com o flanco dos homens de Ricardo e varrendo-os para o pântano.

Sir William não ganharia se Ricardo tivesse vencido – ele já havia sido declarado traidor dias antes. Seu astuto irmão mais velho, Thomas Stanley, apesar de ser casado com a mãe de Henrique Tudor, Margaret Beaufort, parece ter pensado melhor e preferido ficar fora da batalha por completo. Quando Henrique foi coroado após o conflito, uma das fontes relatou que foi Sir William Stanley, em vez de seu irmão, quem colocou a coroa na cabeça do novo rei.

10) Graças à descoberta dos restos de Ricardo, agora sabemos mais detalhes sobre como Ricardo deve ter encontrado seu fim.

Um relatório sugere que sua morte foi causada por um alabardeiro galês – a alabarda era uma arma semelhante a um machado, porém com um cabo mais logo. O capacete do rei parece ter sido cortado – existem marcas de corte na mandíbula do crânio sugerindo que a alça do capacete foi cortada – para expor a cabeça.

Várias marcas na parte frontal do crânio parecem ter sido causadas por um punhal, talvez em uma luta. Em seguida, as duas feridas que teriam matado Ricardo, incluem um corte na parte de trás da cabeça que e expôs o cérebro e parece ter sido causado por uma alabarda, e se isso não o matou, a lâmina de uma espada que foi impulsionada da base do crânio em linha reta através do cérebro certamente deve ter concluído o trabalho.

O corpo de Ricardo foi então colocado na parte de trás de um cavalo, amarrado como um porco, com suas “partes íntimas” expostas e levado para Leicester, onde seu foi colocado em exposição pública.

Em conclusão, Bosworth continua a ser uma batalha com um apelo duradouro: não é simplesmente um conto sobre uma derrota e uma vitória, mas também sobre intriga e traição.

Fontes:
DOUGHERTY, Martin J.“Guerra das Rosas”. A história que inspirou Game of Thrones. São Paulo: M.BOOKS, 19 nov 2015.
R3.org: AQUI.
Bosworth Battle Field: AQUI.
Battlefield Trust: AQUI.
Henrique Tudor Society: AQUI.
History Extra: AQUI.

Relíquia Encontrada: Pano de altar em igreja rural, pode ter pertencido à Elizabeth I

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Por séculos a proveniência de uma rica toalha de altar na igreja rural de St. Faith na aldeia de Bacton em Herefordshire, alimenta um enigma e desperta a curiosidade de locais. Segundo conjecturavam, este tratava-se de um tecido doado pela própria Elizabeth I, última monarca da dinastia Tudor, à sua servente e confidente, Blanche Parry, uma nobre local.

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A Toalha em exposição nas paredes de St. Faith.

A toalha, que era o tesouro mais precioso da Igreja de St.Faith, e que até recentemente esteve pendurada em uma caixa de madeira e vidro em uma das paredes do local (após ter sido aposentado como um pano de altar há mais de cem anos atrás) tornou-se famosa em toda a Inglaterra ao ser identificada por especialistas como tendo feito parte de um traje que remonta às últimas décadas do século XVI. Um recente exame detalhado da toalha realizado pelos curadores do HRP (Historic Royal Palaces), reforçou a teoria de que o tecido uma vez fez parte de um vestido usado na Corte Real.

A toalha, que mede mais de 2 metros por 1 metro, foi confeccionada em tecido de prata; este tecido de elevado estatuto compreende-se por finos fios de prata, torcidos juntamente com fios de seda, a fim de fornecer uma brilhante trama para vestes. Segundo a Lei Suntuária¹  Tudor, este pano poderia ser destinado apenas aos mais altos escalões da aristocracia.

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Igreja de St. Faith, em Bracton.

Uma vez que o tecido conta com elementos habilmente bordados para embelezá-lo – como flores, plantas, diversos animais, e até mesmo um pequeno barco a remo – a mão de uma bordadeira doméstica foi detectada, mostrando ser este, um típico trabalho de bordado realizado por Damas da aristocracia Tudor. Os elementos nele apresentados, o fizeram ser relacionado à uma das mais famosas pinturas onde Elizabeth I aparece representada: o Rainbow Portrait (Retrato do Arco-íris). No retrato em questão, o vestido usado por ela, contém um tecido semelhante ao analisado, embora não tenha sido encontrada nenhuma prova documental para assegurar tal afirmação.

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Blanche Parry ao lado de Elizabeth I.

Blanche Parry (1507/8–1590), nascida em Bracton, foi conhecida por ter sido a dama-chefe da Câmara Privada da rainha e mantenedora das joias de sua majestade, cargo este, que assumiu aos 57 anos de idade. Cabia a ela supervisionar o guarda-roupa e as joias reais, ajudar a elaborar os trajes da rainha e a vesti-la para suas ocasiões. Tal serviço fez com que ela desenvolvesse fortes vínculos com a monarca, tornando-se uma de suas companheiras mais intimas. Registros mostram que a rainha regularmente presenteava Parry com muitas peças de seu guarda-roupa. Deste modo, o pano tem sido associado a uma doação realizada por Parry à igreja, uma vez que a mesma ergueu em St. Faith, um monumento marcando seus leais serviços prestados à rainha.

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Detalhe do tecido.

Embora famosa por seu luxuoso guarda-roupa que ocupava várias salas, todas repletas de peças ricamente adornadas, não era incomum que a rainha Elizabeth I passasse adiante suas roupas descartadas para seus servos ou confidentes. No entanto, uma vez que usar os trajes de uma rainha (mesmo os menos elegantes) era visto como um tabu devido as leis suntuárias, muitas vezes essas roupas eram cortadas e seus valiosos tecidos doados ou vendidos como peças separadas. De todas as roupas usadas por Elizabeth, até hoje nenhum único pedaço delas foi encontrado.

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Rainbow Portrait.

O caso ganhou notoriedade fora do local, quando a historiadora especializada no período Tudor e curadora conjunta do HRP, Tracy Borman, visitou a igreja. Borman estava em Bacton procurando informações sobre Blanche Parry. Como resultado de suas pesquisas, ela aborda a história por detrás do objeto, em  seu novo livro chamado ”The Private Lives Of The Tudors’’ (A Vida Privada dos Tudors).

Segundo a historiadora: ”Este é um achado incrível. Itens de vestuário Tudor são excepcionalmente raros em todos caso, porém, descobrir um com uma ligação pessoal à rainha Elizabeth I, é algo quase inédito! Estamos entusiasmados por trabalhar com a Igreja de St Faith para conservar este notável objeto, que será agora examinado por nossos especialistas em conservação no Palácio de Hampton Court, onde esperamos ser capazes de exibi-lo no futuro.”

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Detalhe bordado no tecido.

Esta é uma descoberta fascinante, uma vez que o tecido não foi encontrado no porão de um museu, nem a casa de um colecionador particular, mas sim pendurado na parede de uma igreja local inglesa – o que sugere novos pontos de partida para a busca de artefatos históricos perdidos. Outro aspecto animador, é que além de acessórios como luvas, joias e outros pertences pessoais, nenhum dos famosos e magníficos vestidos da rainha parecem ter sobrevivido ao tempo.

Embora a condição do pano seja notavelmente boa, ele precisa de maiores cuidados para manter-se preservado. A pesquisa sobre o tecido ainda não foi concluída, mas em todo modo, a evidência de sua proveniência real é forte.

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Detalhe do tecido usado por Elizabeth I no Rainbow Portrait.


Lei Suntuária¹: Lei que restringe o luxo e a extravagância, especialmente das vestes, para certas camadas sociais. 

Fontes:
BBC.UK: AQUI.
PREMIER.ORG: AQUI.
MENTAL FLOSS: AQUI.
DAILY MAIL: AQUI.
HRP.ORG: AQUI.

 

 

 

Reconstrução Facial de Lord Darnley, Marido de Mary Stuart, é Revelada!

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Conhecido pela própria Mary como “o mais vigoroso e melhor proporcionado homem que já vira”, o infame Lord Darnley teve seu crânio reconstruído por uma renomada equipe de cientistas escoceses.

Henry, Lord Darnley (1545-1567), que casou-se com Mary Stuart em 1565, era conhecido por polêmicas como seu vício com bebidas e seu envolvimento no assassinato do secretário particular da Rainha, David Rizzio, antes deste ser assassinado, menos de dois anos após seu matrimônio.

Ele foi enterrado na Vala Real da Abbey Church em Holyrood, mas seu túmulo foi invadido entre 1776 e 1778 e dois supostos crânios de Darnley foram parar em dois locais diferentes, um na Universidade de Edimburgo e outro, no Royal College of Surgeons em Londres.

Na tentativa de resolver o grande mistério sobre qual destes dois crânios seria o verdadeiro, a Universidade de Edimburgo contratou os serviços do renomado Centro de Anatomia e Identificação Humana de Dundee. Em seguida, a estudante de 23 anos, Emma Price, assumiu o projeto como parte de seu mestrado (que foi oferecido em conjunto pela CAHID e Duncan de Jordanstone).

Até então, ninguém sabia qual dos crânios era o verdadeiro, um questionamento que tornou-se mais difícil uma vez que o crânio londrino foi destruído na blitz. No entanto, Price passou meses comparando ambos os crânios com retratos pintados durante a vida de Darnley. Felizmente, imagens detalhadas do crânio destruído permanecem perfeitas, assim como as medições precisas, realizadas pelo Dr. Karl Pearson, em 1928.

Ela descobriu que o crânio de Londres é genuíno, enquanto que a versão exposta em Edimburgo por 250 anos, é uma farsa.

Usando um software 3-D, ela produziu um modelo do crânio de Darnley e realizou sua reconstrução usando cera e silicone. A obra completa mostra um jovem com brilhantes olhos azuis, cabelos castanhos claros e uma estrutura facial que carrega forte semelhança com o homem dos retratos do século XVI.

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Crânio de Edimburgo.

“As características do retrato, tais como as sobrancelhas muito arqueadas e testa inclinada, levaram-me a concluir que o crânio de Edimburgo não resistiria ao escrutínio, uma vez que o de Londres combinava” – disse a srta. Price, que está conduzindo seu mestrado em Arte e identificação facial forense.

“A partir da análise que fiz, podemos dizer que o crânio de Edimburgo definitivamente não é de Darnley. No entanto, eu produzi uma reconstrução craniofacial do outro crânio, apresentando uma escultura em 3d de como Lord Darnley teria parecido-se antes de sua morte prematura […] Diziam que Darnley era muito bonito. Ele tinha mais de 1,80 de altura, o que teria sido altamente incomum para o período”.

“O que é interessante, é que em um período onde figuras Protestantes e Católicas eram retratadas tanto como heróis quanto como vilões (dependendo de quem fosse o escritor que as abordasse), Darnley era universalmente odiado. As pessoas o vilipendiaram por sua arrogância, bebedeira e promiscuidade.”

Darnley (Henry Stuart), que foi descrito pelos cortesãos de Mary como persistentemente arrogante, embriagado e petulante, foi assassinado com apenas 21 anos de idade, oito meses após sua esposa dar à luz a seu filho, o futuro James I e VI (da Inglaterra e Escócia).

Em 9 de Fevereiro de 1567, seu corpo foi descoberto nas redondezas de Kirk o’ Field, Edimburgo, em uma casa de dois andares a pouca distância de Holyrood, onde Mary o havia instalado para curar-se da varíola. A casa foi abalada por duas explosões, após dois barris de pólvora terem sido colocados em uma pequena sala sobre os aposentos de Darnley.

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Crânio de Londres.

Seu cadáver e o de seu criado William Taylor (vestidos em trajes de dormir), foram encontrados no pomar das redondezas, rodeados por um manto, um punhal, uma cadeira e um casaco. Uma vez que os corpos pareciam ilesos pela explosão, determinou-se que os dois homens haviam sido estrangulados enquanto tentavam fugir das ruínas fumegantes do local.

Rapidamente as suspeitas da morte de Darnley recaíram-se sobre Bothwell, a quem Maria mais tarde desposaria – sendo um dos principais fatores que ocasionariam sua queda.

Uma equipe convocada pela Royal Society of Edinburgh para examinar o assassinato de Darnley com métodos modernos de investigação, chegou à conclusão de que Maria não estava envolvida no trágico assassinato de seu marido.

Este ano, o trabalho da srta. Price será uma das exibições da Masters Show que abrirá da faculdade Duncan of Jordanstone este final de semana, indo até o domingo do dia 28 de Agosto.

Para mais informações, acesse o site da Duncan of Johnstone College of Art & Design: AQUI.

Veja também a reconstrução facial de Mary Stuart: AQUI.

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FONTES:
Telegraph.co.uk: AQUI.

Guerreiras Vikings: Lenda ou realidade?

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Nos deparamos com certa frequencia, ao assistir filmes e séries baseadas em contextos históricos em que os vikings são personagens principais, com belas e imponentes guerreiras que participam junto com os homens de incursões exploratórias, guerras e lutas. Geralmente, essas produções da cultura pop retratam a posição das mulheres vikings como igualitária quando comparada aos homens. Dessa forma, este artigo possui como objetivo aprofundar a análise do lugar ocupado pela mulher na sociedade viking ao propormos responder aos seguintes questionamentos: Na sociedade viking a mulher ocupava posição equiparada aos homens? A ela era permitido participar das incursões exploratórias? As mulheres se tornavam guerreiras ou esta representação seria apenas lenda?

A sociedade viking

Antes de falarmos sobre a mulher viking é interessante conhecer um pouco mais sobre a cultura desse povo, suas origens e suas práticas. Não é intenção deste artigo fazer um estudo aprofundado no que se refere a terminologia ou etimologia da palavra viking, no entanto, consideramos pertinente, mesmo que de modo simplificado, traçar uma breve explicação acerca da sua origem. Viking é um termo proveniente da língua nórdica antiga e, foi comumente utilizada para designar sociedades que se dedicavam a prática da exploração, guerreiros, e aos comerciantes naturais da Escandinávia. Os povos vikings se fixaram na região da Península da Escandinávia, no norte da Europa, a partir do ano 700 d.C e, perduraram na região entre a Antiguidade à Idade Média. Quando iniciaram suas inúmeras viagens exploratórias, a partir do século VIII, em várias partes da Europa, também foram nomeados como normandos, a exemplo dos franceses que se referiam a eles dessa forma. Ainda, de acordo com língua nórdica, vikings significa ‘homens do norte’ ou piratas.

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Ilustração – Guerreiros Vikings

A sociedade viking ocupou a região do norte da Europa, nas regiões onde atualmente estão localizadas a Dinamarca, a Noruega e a Suécia. A organização social não era composta por inúmeras classes. Havia o rei e, abaixo dele chefes tribais que exerciam a função de comandar os guerreiros e garantir a ordem administrativa das comunidades. Ademais, também haviam os Jarls que eram indivíduos que detinham grande quantidade de terras. Os líderes gozavam de autoridade em cada comunidade e, deveriam se submeter ao líder central, ou seja, ao rei viking. Na organização social, cabia aos homens a responsabilidade da pesca e da caça, assim como também o exercício das práticas comerciais e econômicas. De maneira geral, era responsabilidade das mulheres o cuidado com os filhos e com as atividades domésticas. Na sociedade viking a família era uma base fundamental e a mulher exercia a função de cuidar da educação dos filhos.

Não podemos deixar de fazer menção ao papel ao indivíduos responsáveis pela difusão do culto pagão na sociedade, os goði. Também haviam mulheres que se dedicavam a realização de rituais considerados por esta sociedade como ‘mágicos’, conhecidas como völva. Os goði tinham a importante tarefa de difundir as concepções religiosas politeístas. Os vikings eram pagãos e, a mitologia nórdica contava com inúmeros deuses ligados ao universo da natureza e místicos, que representavam valores culturais, sociais e religiosos. Dentre os quais, podemos destacar Odin, o expoente Deus da cultura nórdica que representava o deus da sabedora, o pai de todos, o deus da guerra e da morte. Além dele, podemos fazer menção a Thor, o Deus da luta e dos trovões que, é comumente apreciado pela cultura pop. Era através da mitologia nórdica que a tradição, ensinamentos e os costumes eram transmitidos de geração em geração.

ilustração guerreiro viking 01Os vikings não detinham uma escrita tal como conhecemos, eles utilizavam de uma escrita própria por meio de símbolos conhecidos como runas. As runas eram uma forma de escrita simples utilizada para grafar aspectos relacionados a sua história, a sua cultura e ao modus organizacional da sociedade. Os sinais grafados pela sociedade nórdica apresentava sinais simples, tais como linhas retas ou curvas, gravadas em madeiras ou pedras por meio de traços feitos com grãos resistentes. O alfabeto viking possuíam cerca de 16 letras, denominadas como “futhark” e representaram sons, frases e, inclusive textos. É preciso ressaltar que havia variações na forma como elas eram utilizadas. Por meio das fontes identificadas por arqueólogos, antropólogos e historiadores, relativas a estes artefatos podemos conhecer um pouco mais sobre esta sociedade que remonta há séculos. Além das runas, o pesquisador Marlon Ângelo Maltauro ressalta o papel das sagas e das eddas como obras que são embasadas nas experiências da sociedade viking. As eddas referem-se as coletâneas identificadas na Islândia e que contém fragmentos da tradição oral dos povos nórdicos relacionadas as histórias de deuses, deusas e heróis da mitologia nórdica. De acordo com Maltauro:

As principais fontes escritas a respeito das velhas tradições da sociedade viking são as Sagas e os Eddas. Quando estas obras começaram a ser traduzidas em  diversas línguas no século XIX foram a principio consideradas obras de ficção literária,  fábulas que tinham o objetivo de entreter e despertar o orgulho dos descendentes da cultura viking (Maltauro, 2003: 81), porém, sabe-se que tais fontes misturam material legendários com feitos históricos sendo possível observar em suas entrelinhas inúmeros aspectos sócio-políticos. (MALTAURO, p.02)

Ainda sobre as Eddas, não podemos deixar de fazer menção a Snorri Sturluson, um estudioso e político que viveu em uma comunidade na Islândia entre os anos de 1178 a 1241. À Snorri atribui-se a autoria da Eddas em prosa, que consiste na compilação de poesias e lendas relativas a mitologia nórdica. Dessa forma, Eddas é considerada como uma fonte fundamental para os estudos vikings e, foram escritas no decurso do período cristão. Além destas fontes, precisamos ressaltar o papel da tradição oral nesta sociedade, haja vista que, por meio de músicas, lendas e contos transmitidos através da tradição oral, muitos lendários homens e mulheres que viveram neste contexto passaram a ser conhecidos. Essas fontes culturais da época também eram fundamental para que os valores religiosos e morais fossem repassados as futuras gerações. Obviamente, muito se perdeu ao longo dos séculos, mas as lendas e contos contribuem de modo positivo para que possamos entender a estrutura e complexidade da sociedade viking.

Expansão

ilustração guerreiro 03Muito embora tenham ficado comumente conhecidos pela presteza na construção de embarcações, os vikings também se dedicavam ao comércio e a agricultura. A agricultura era fundamental para prover a comunidade que, também se dedicava as atividades ligadas ao artesanato. Os aspectos econômicos da sociedade viking estavam atrelados aos elementos culturais. Exímios construtores de barcos e sagazes no que se refere a tecnologia náutica do século VIII, eles se fixaram em regiões próximas ao mar e desenvolveram sofisticadas técnicas de construção de embarcações. O processo de construção das embarcações era envolta às tradições culturais, pais transmitiam suas técnicas aos filhos em meio a difusão das suas experiências nas incursões marítimas, e aos relatos de lendas e mitos nórdicos. Farta parcela das embarcações eram construídas com o objetivo de efetuar as viagens pela Europa no intuito de realizar saques. Por isso, muitos barcos chegaram a ter entre 30 a 50 metros de extensão.

O auge das invasões vikings pela Europa se deu entre os séculos VIII e IX a partir de incursões realizadas principalmente nas regiões onde hoje estão situados os países da Inglaterra e da França. Ao percorrer inúmeras regiões da Europa ocidental os vikings conquistaram terras, saquearam e incendiaram cidades. Munidos de guerreiros bem treinados, com espadas e machados em punhos, os relatos da chegada dos vikings causavam terror à população dada ao relevo e força dos ataques. Em função das incursões voltadas a ocupação e pirataria nos deparamos com informações muitas vezes difusas sobre a participação das mulheres lutando em pé de igualdade com os homens.

Guerreiras Vikings: Lenda ou realidade?

As produções da cultura pop, sejam elas filmes, séries ou quadrinhos tendem a estereotipar de modo pejorativo os vikings. Não é difícil buscar em nossa memória a lembrança de alguma tirinha ou charge que apresenta a figura de um viking representado como um homem truculento e violento, geralmente com uma espada em punho, que se mete em confusões em meio a suas ações exploratórias. Mesmo as representações de guerreiros com capacetes que possuem chifres, são inverídicas, pois os inúmeros elmos identificados pelos arqueólogos nas regiões onde eles viveram revelam que tais chifres nos elmos não existiam. Assim como em outras culturas, os vikings cobriam a face com máscaras de ferro ou couro, devido a necessidade de proteger a face durantes os conflitos, mas, ao contrário das representações modernas, originárias sobretudo a partir do século XIX na Inglaterra e, difundida tanto no cinema quanto nos quadrinhos e desenhos no decurso do século XX. Sendo assim, os chifres não estavam presentes nos artefatos vikings identificados pelos arqueólogos e são pois uma representação posterior constituída sobre eles.

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Atriz Katheryn Winnick intérprete da guerreira Lagertha na série “Vikings”

Em filmes e séries, sobretudo na atualidade, temos a exposição da figura do viking como um lendário e mitológico explorador, com a representação de guerreiros fortes que se destacam pela sua força e imponência. Esta representação vem sendo comumente apreciada na série “Vikings”. A série “Vikings” é uma drama histórico do canal History Channel baseado na saga do lendário viking Ragnar Lothbrok. Em relação as mulheres na referida produção, temos a performance retratada tanto do seu papel enquanto gestora do lar e responsável cuidado com os filhos, como também através da exploração da imagem da mulher enquanto exímia guerreira. Nesta última representação, – a guerreira – vem ganhando cada vez maior destaque na mídia de modo geral.

As produções contemporâneas, apesar de serem baseadas em contextos históricos, são voltadas ao entretenimento e ao lucro. Por isso, a necessidade de adequar o scrip ao perfil do público da atualidade é necessária. Tendo em voga a expansão das discussões sobre o empoderamento feminino e a importância deste para avanço e respeito da mulher em nossa sociedade, não é difícil concluir que as produtores de filmes e séries agreguem essa percepção e a transmita para o público a fim de atraí-lo. Nesse sentido, é tarefa do historiador ir além, e problematizar se, a mulher viking de fato ostentou a função de guerreira ou, se tal concepção é fruto de lenda, vinculada ao imaginário e representações, seja ela secular ou contemporânea.

Responder aos questionamentos propostos no início deste artigo não foi uma tarefa fácil. Isso porque, não há consenso entres historiadores brasileiros e estrangeiros, antropólogos e arqueólogos em relação ao fato da mulher viking ter atuado como guerreira ou não. A arqueóloga Susanne Thedéen que atua como professora e Diretora da Faculdade de Humanas na área de Doutorado na Universidade de Estocolmo, revelou em suas pesquisas que sim, a mulher viking foi uma distinta guerreira. De acordo com Thedéen, as mulheres vikings detinham maior autonomia quando comparada as européias, sendo que a sociedade viking promoveu importante emancipação feminina em vários aspectos. Em relação ao casamento, não era permitida a mulher a escolha do marido e, se casavam muito jovens, com idade que variava entre 12 a 16 anos. Todavia, elas tinham a direito ao divórcio caso o marido traísse, se o cônjuge não fizesse a manutenção do lar adequadamente, ou, ainda, nos casos em que o marido cometesse algum abuso e violência a ela ou aos seus filhos. Para que o divórcio fosse legitimado era necessário a existência de apenas uma testemunha que pudesse anunciar publicamente que o casal estaria se divorciando.

Ainda, de acordo com a pesquisadora, a mulher viking gozava de liberdade, ou seja, ela não era reconhecida como uma propriedade da sua família ou do seu marido. Elas eram tratadas como iguais na sociedade. Mesmo os bens adquiridos por ela após o casamento a pertencia, não era pois usurpado pelo marido em função do enlace matrimonial.

imagem 02Fazia parte da cultura viking os mortos serem enterrados com objetios que simbolizavam seus pertences em vida. Dessa forma, arqueólogos identificaram inúmeros corpos em que mulheres carregavam consigo as chaves de suas casas ou de propriedades, afixadas do lado esquerdo do corpo, como broche ou colar. Conforme Thedéen isso representa que às mulheres eram concedidos a autoridade e responsabilidade pelo lar. Além disso, a pesquisadora também trabalha com a hipótese de que em função das incursões, muitas mulheres ficaram com a função de guardiã da família e da administração do lar e das propriedades. A sua tese é reforçada na medida em que escavações verificam que não foram encontradas artefatos que representam a chave do lar nos restos mortais de figuras masculinas. Ainda, conforme Thedén as pesquisas que afirmam que as mulheres também participaram das viagens exploratórias, enquanto guerreiras, se embasam, em boa medida, em pesquisas genéticas que comprovaram a presença feminina entre os restos mortais de indivíduos mortos em batalhas.

No entanto, é possível afirmar que as mulheres foram guerreiras? De acordo com os estudos desenvolvidos por pesquisadores da Universidade da Austrália Ocidental, alguns indícios revelam que mulheres foram enterradas junto com homens em locais que foram campos de batalhas ou expedições. Mas, comprovar a presença delas não quer dizer que elas de fato tenham lutado junto com os homens. A localização de restos mortais de guerreiros masculinos e femininos sugere que os exércitos eram compostos por homens e por mulheres. Sugere, mas não afirma com plena certeza. De fato, não era proibido a mulher viking participar das batalhas, se elas quisessem podiam se alistar e atuar como guerreira. Todavia, as fontes indicam que, se as guerreiras existiram, certamente, foram em menor número quando comparado aos homens.

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Alyssa Sutherland intérprete da princesa Aslaug, na série “Vikings”. A personagens dedica-se ao cuidado dos filhos de Ragnar Lodbrok

De acordo com Johnni Langer, professor de História Medieval da Universidade Federal da Paraíba, e coordenador do Núcleo de Estudos Vikings e Escandinavos, o imaginário e representação da mulher viking está vinculado a influência tanto das sagas lendárias, quanto do ideário romântico da Inglaterra do século XVIII e que foi progressivamente difundido ao longo do século XX em filmes e representações de quadrinhos. Dentre as sagas, temos a personagem de Lagertha, a lendária guerreira e esposa do viajante explorador Ragnar Lodbrok. Lagertha é retratada como uma imponente guerreira, que lutou ao lado do seu marido. De acordo com Langer, os pesquisadores de modo geral tendem a serem céticos quando se trata de confirmar a existência de guerreiras vikings. Ainda, em suas palavras:

Em vestígios de sepulturas onde um corpo feminino foi encontrado junto a armas (um na Noruega e dois na Dinamarca), os pesquisadores acreditam mais num indicativo de riqueza e prestígio social do que uma evidência de mulheres lutadoras (Christiansen, 2006: 21) Nos registros escritos, temos basicamente dois tipos de fontes, a crônica com conteúdo semi-histórico, como a Gesta Danorum de Saxo, e as fontes mitológicas e folclóricas ( Eddas e sagas lendárias). Na obra de Saxo Grammaticus (História dos Danes, escrita em latim em 1200)numerosas guerreiras são descritas, como Sela, Lathgertha, Hetha, Visna, entreoutras. Além de serem piratas, elas participam diretamente de batalhas, como ade Brávellir. Algumas pesquisadoras acreditam que, apesar de possuirreferenciais lendários, pelo menos dois casos citados por Saxo, podem remetera personagens históricos e reais, como Lathgertha e Rusila, esta última,supostamente a mesma Inghen a vermelha, citada em fontes irlandesas(Mclaughin, 1990: 197). (LANGER, p.277)

vikings-news 03De acordo com o pesquisador não foi algo corriqueiro a presença de guerreiras em batalhas, sendo algo mais circunstancial do que generalista. Para ele, tornar-se uma guerreira, embora não fosse proibido, era senão resultado de uma dada peculiaridade familiar, como a ausência de irmãos para atuar em guerras e nas incursões, ou falecimento dos homens da família, como o pai, por exemplo. Não era pois, uma regra social tornar-se uma guerreira.

É importante ressaltar o papel da mulher na sociedade viking no espaço do lar como membro fundamental. Ou seja, a ela cabia a responsabilidade de cuidar dos filhos e do lar, sobretudo, na ocasiões em que farta parcela dos homens se dirigiam as inúmeras viagens marítimas para promover saques e pirataria. Conforme Langer, o ideal da nossa sociedade contemporânea tende a valorizar excessivamente papeis tido como masculinos, e a renegar como algo inferior o cuidado com o lar. Como se esta função fosse algo menor, quando comparada a participação nas viagens exploratórias e em batalhas. De modo geral, as mulheres nórdicas exerciam funções tipicamente voltadas ao lar, tais como cozinhar, tecer, administrar o lar, cuidar dos filhos. Enfim, elas detinham uma função primordial na dinâmica da sociedade e, esta posição não era vista como algo inferior, inclusive. Para o autor, esta perspectiva de enaltecer a guerreira viking como algo generalista é originária do século XVIII, quando o ideal nórdico do homem e mulher guerreiros passaram a serem enaltecidos e difundidos na cultura popular como algo a ser valorizado, um tipo ideal do que teria sido homens e mulheres vikings.

É possível comprovar por meio de restos mortais identificados nas escavações que mulheres estiveram presentes nas diversas incursões dos povos nórdicos. Todavia, necessariamente a função exercida por elas pode não ter sido voltada apenas a participação nos conflitos. Elas podem ter auxiliado na manutenção dos grupo, no preparo da alimentação e cuidado dos filhos, que por ventura podem ter nascido durante as viagens. Afirmar que existiram eventualmente guerreiras é possível, mas não como algo generalista, como regra desta sociedade. Dessa forma, é preciso pois considerar a complexidade desta sociedade. Este é um debate que ainda divide muitos pesquisadores, todavia, sejam elas guerreiras ou mantenedoras do lar, a mulher viking exerceu um papel de destaque nessa sociedade.

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Referências:

LANGER, Johnni. Guerreiras na Era Viking? Uma análise do Quadrinho “Irmãs de escudo” (Série Northlanders) Roda da Fortuna. Revista Eletrônica sobre Antiguidade e Medievo. 2012, Volume 1, Número 1, pp. 267-293.

MAUTARO, Marlon Ângelo. A Representação da Mulher Viking na Volsunga Saga. Revista Brathair. 2005, v. 5, p.32-44.Disponível em: < http://ppg.revistas.uema.br/index.php/brathair/article/view/592/513 > acesso em julho de 2016.

MCLOAD, Shane.  O início do povoamento Scandinavian na Inglaterra: O ‘grande exército Viking e colonização. c . 865-900 (Estudos sobre o início da Idade Média). Brepols Publishers, 2014, 396 p.

Mail online. Invasion of the Viking women: Wives joined warriors when they came to Britain. Disponível em: < http://www.dailymail.co.uk/sciencetech/article-2017251/Family-affair-Viking-warriors-joined-wives-invaded-Britain.html#ixzz4Ho8tDVdw > acesso em agosto de 2016.

Persona Mulher. A mulher na era Viking. Disponível em: < http://personamulher.com/index.php?t=A+mulher+na+era+Viking&secao=secoes.php&sc=75&sub=MA==&url=pg_mapa.php&id=155 > acesso em julho de 2016.

Science Fair. Invasion of the Viking women unearthed. Disponível em: < http://content.usatoday.com/communities/sciencefair/post/2011/07/invasion-of-the-viking-women-unearthed/1?csp=34tech&utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed:+usatoday-TechTopStories+%28Tech+-+Top+Stories%29&siteID=je6NUbpObpQ-K0N7ZWh0LJjcLzI4zsnGxg#.V7cvcPkrLIX > acesso em julho de 2016

KILLGRAVE, Cristina. Vings women Immigrated to England, but wuere they wuarriors or wives? Disponível em: < http://www.poweredbyosteons.org/2011/07/viking-women-immigrated-to-england.html > acesso em julho de 2016.

SUSSANE, THÉDEN. To Tender in Gender: The past an futures of gender research in arqueology. In: Box Brooches beyond the border. Femele Viking age identities of intersectionality. p.67-68. Stocholmstudiesin archaelogy. Back Danielsson, I. M. & Thedéen. (eds)

THEDÉEN, Sussane. Uma Paixão pelo Pluralismo: Identidades em vida e morte durante as eras Merovíngia e Viking.

 

Maria Stuart [Parte IV]: O Retorno à Escócia

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A morte de Francis II da França, em 5 de dezembro de 1560, representou um forte golpe à Maria, especialmente no que dizia respeito ao rumo que esta agora deveria tomar em sua vida. Conforme os meses foram passando, sua presença na França passou a incomodar a rainha-mãe Catarina de Medici, e Maria por fim, decidiu que seu futuro encontraria-se na Escócia.

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Retrato de Francis II e Maria Stuart, datado de 1558.

Quando aportou em Calais em 1561, a jovem de 18 anos, rainha da Escócia e rainha viúva da França, trajando vestes negras, rompeu em lágrimas quando enfim teve de dizer adeus ao reino que por tantos anos chamou de lar. Seu destino a levaria agora a seu reino, um local praticamente desconhecido para ela. Maria havia sido rainha da Escócia desde o berço, quando contava com apenas uma semana de idade. Aos cinco anos ela foi enviada à França, para manter-se longe das garras inglesas. Aos 15 anos, em 24 de Abril de 1558, ela casou-se com o então futuro Francis II da França, que na época contava com 14 anos. Sua união com o jovem herdeiro fora breve e acredita-se que no momento de sua precoce viuvez (após dois anos e oito meses de casada), ela ainda continuava donzela.

A frota de galeões escocesa que veio à Calais para busca-la, foi comandada pelo alto almirante da Escócia, James Hepburn, Conde de Bothwell – que estava destinado a desempenhar no futuro, um importante papel na vida de Maria. Ao contrário do aflito coração da jovem, os mares que a levariam para seu destino estavam cálidos. Deste modo, a viagem rumo à Leith (distrito de Edimburgo onde localiza-se o porto) foi rápida, levando muito menos tempo que o esperado.

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Retrato vitoriano da chegada de Maria à Leith.

Ela chegou à Leith, em uma manhã nublada do dia 19 de agosto de 1561. A chegada antecipada a preveniu de uma comitiva e festa de boas vindas no cais. Ao seu lado nesta nova jornada, estavam suas damas de companhia, as quatro Marias e seus três tios maternos da casa francesa de Guise.

Ao desembarcar no local, podemos apenas imaginar o misto de emoções desta jovem; ela deixara o país que para ela havia sido seu lar, rumo a um destino repleto de apreensão e incertezas. No local, Mary foi primeiramente escoltada até a casa de um comerciante local, por nobres liderados por seu meio-irmão ilegítimo, Lord James Stewart – Conde de Moray, que veio para acompanhá-la através de Edimburgo, onde uma multidão aos poucos reuniu-se para animá-la em seu trajeto de volta ao lar. A passagem de Mary foi comemorada com reluzentes fogueiras acesas na fria noite escocesa, enquanto ela presidia um banquete. Após cear em Leith, Maria e sua comitiva partiram rumo ao Palácio de Holyroodhouse. Sua rota foi acompanhada de uma multidão de curiosos que a aplaudiam e comentavam o vislumbre de sua rainha. Com sua pele de alabastro, cabelos encaracolados cor de areia, jovem, alta, graciosa e vivaz, Maria causou uma excelente impressão no povo.

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Chegada de Maria à Escócia.

Sua entrada oficial à Edimburgo, foi recebida com fogos de canhões no local. Em todo local que a comitiva real passava, o povo ia às ruas saudá-la. Maria então, montou a cavalo pela Royal Mile, onde foi recebida por artistas fantasiados, jogos e cenas teatrais.

Uma passagem interessante, ocorreu quando a rainha ouviu uma serenata embaixo de um arco de madeira colorido, sob o céu nublado. No local, os presentes ‘cantaram músicas adequadas à ocasião’. Segundo um cronista do período, quando a rainha atravessou o arco, as nuvens dissiparam-se e súditos entregaram à ela as chaves da cidade, juntamente com a bíblia e livro dos salmos cobertos com rico veludo roxo (a cor da realeza).

No Bow Nether (local onde atualmente encontra-se o Scottish Storytelling Centre) outro andaime foi erguido para ocasião. Nele, uma marionete de dragão foi manipulada enquanto alguns discursos foram proferidos em homenagem à rainha. Pouco depois, a marionete foi queimada.

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Palácio de Holyrood.

Quando o sol se pôs, dando lugar a sua primeira noite em seu reino, a rainha se ausentou, enquanto um número de 500 ou mais músicos amadores, a mantinham acordada com seus violinos e cantos desafinados dos salmos (pois melodias profanas são proibidas pelos pastores calvinistas), debaixo de sua janela. Na manhã seguinte, com seu habitual charme bem-humorado, Maria agradeceu-lhes a cortesia.

Apesar de toda a pompa que marcou seu retorno à Escócia, Maria enfrentou uma situação política volátil e traiçoeira. Sua devoção à fé católica significava que ela era vista com desconfiança e hostilidade por muitos. Ao celebrar pela primeira vez uma missa católica em Holyroodhouse, as multidões prontamente apareceram para protestar.

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Maria Stuart.

O Palácio de Holyrood, ou Holyroodhouse, foi 0 lar de Mary em Edimburgo, e havia sido reconstruído por seu pai, James V. Seus quartos na torre noroeste, incluíam uma câmara de presença para receber os visitantes, seu quarto de dormir, uma câmara de jantar pequena e uma sala que era um misto de quarto de banho e de vestir. O palácio tinha um grande parque de veados, onde ela passou a caçar e construir um novo quarto de banho, onde supostamente gostava de banhar-se imersa em vinho branco, que acreditavam fazer bem à pele.

Embora a jovem rainha falasse fluentemente o escocês, ela era mais francesa que nativa. Ela manteve uma esplêndida corte em estilo francês e a maioria de sua household era composta por franceses. Os rigorosos protestantes ficaram horrorizados com o fato de que tanto Maria quanto suas damas, dançavam em bailes e banquetes. John Knox, conhecido por menosprezar a figura feminina no poder (especialmente as católicas, como Maria Stuart e Maria I da Inglaterra), já havia emitido uma denúncia de todas as governantes do sexo feminino em sua publicação que ficou conhecida como: ”The First Blast of the Trumpet Against the Monstrous Regiment of Women’’ de 1558. Ele disse que a rainha havia trazido com ela, para a tristeza da Escócia, ”dor, trevas e toda a impiedade’’. Ele reclamou que Holyrood em breve tornaria-se um bordel e atribuiu o fascínio que Mary exercia sobre os homens, à “algum encantamento pelo qual estes são enfeitiçados’’. Os esforços da rainha em discutir com ele, fracassaram completamente. Conforme o tempo mostraria, sua atratividade perante os homens representaria sua infalível capacidade em escolher o parceiro errado.

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James Stewart, meio-irmão de Mary.

Maria era popular com muitos de seus súditos, mas enfrentou sérios problemas. Ela era uma católica romana e, embora assistisse à missa apenas em privado e anunciasse não ter nenhuma intenção em interferir com o protestantismo oficial da Escócia (embora em plano privado, confidenciasse ao Papa o oposto), ela levantou suspeitas protestantes. Embora tivesse o apoio de Lord James Stewart e outros, a nobreza escocesa estava propensa à ilegalidade, violência, brigas e rapacidade, estando portanto, longe de ser fácil de lidar. Além disso, ela era por direito de sangue, não apenas rainha da Escócia, como a herdeira mais próxima (depois de Elizabeth I) do trono da Inglaterra. Na verdade, os franceses sustentavam que Maria possuía uma maior reivindicação ao trono, que a própria Elizabeth I. A recusa de Maria em renunciar a tal reivindicação, rendeu a hostilidade da monarca inglesa, que provaria à sua prima, diante de alguns fatores, ser mais comedida na arte de governar.

Mesmo assim, as coisas correram relativamente bem para Maria em seus primeiros anos na Escócia. No entanto, sendo a rainha jovem e viúva, logo foi levantada uma amarga questão entre seus conterrâneos: o casamento.
Após a morte de Francis, a rainha possuía muitos pretendentes. No entanto, ela não tinha pressa em casar-se novamente. Ela sabia que sua posição era delicada e que tinha de pensar em uma série de fatores antes de uma nova união.

Primeiramente, a rainha queria que seu marido fosse um membro da família real. Os reis da Suécia e da Dinamarca foram cogitados, assim como o novo rei da França, e até mesmo Don Carlos, herdeiro do rei da Espanha. Estava claro que o objetivo da rainha era um marido experiente na arte de governar, sendo monarca ou herdeiro de algum trono estrangeiro. No entanto, uma possível união teria de ser pensada nos seguintes aspectos:

– Religião:
Um marido católico iria perturbar os protestantes escoceses, mas um casamento protestante, iria perturbar os católicos na Inglaterra e resto da Europa.

– Influência estrangeira na Escócia:
Os escoceses haviam se rebelado contra a influência francesa sobre o seu país. Sendo assim, um marido estrangeiro poderia representar um problema. Além disso, um marido estrangeiro poderia implicar a Escócia em guerras contra a Inglaterra.

– A opinião de Elizabeth I:
Maria sabia que era herdeira presuntiva de Elizabeth I. Deste modo, ela não poderia arriscar ofendê-la, casando-se com alguém que representasse um perigo em potencial para o reino inglês.

– União espanhola:
A primeira escolha de Maria foi Don Carlos, filho de Filipe II da Espanha. No entanto, sendo a Espanha o maior inimigo da Inglaterra, um marido espanhol poderia utilizar a Escócia como ponto de apoio para invadir a Inglaterra – talvez para colocá-la no trono. Em 1563, Elizabeth disse à Maria que um casamento espanhol faria da Inglaterra sua inimiga. Discussões continuaram por mais uma ano, até que tornou-se óbvio que Don Carlos não estava apto a desposar ninguém.

No entanto, a questão marital mostraria-se resolvida quando, em 1565, ela apaixonou-se por um de seus primos paternos, Henry Stewart, Conde de Darnley. Maria ficou deslumbrada pelo jovem. Ela disse que ele era “o mais vigoroso e melhor proporcionado homem que já vira”, cometendo portanto, o fatal erro de desposá-lo. Não demoraria muito para ela amargar o resultado de tal união, que seria o primeiro de muitos deslizes que ocasionariam em sua queda.

CONTINUA…

Bibliografia:
History Today (artigo: Mary Queen of Scots Leaves France to Scotland): AQUI.
Educational Scotland (artigo: Mary Returns to Scotland): AQUI.

A Vida de Dido Elizabeth Belle – Parte II

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A possível influência de Dido nas ações do seu tio avô, Conde Murray:

O cotidiano de Dido não era fácil. Ela teve que lidar com o preconceito racial não apenas nas ocasiões em que a família Murray recebia convidados da aristocracia inglesa em sua residência. Na comunidade em que ela vivia os olhares diários de estranhamento quando ela percorria as ruas eram recorrentes. Certamente, Dido vivenciou o preconceito racial cotidianamente, afinal, ela destoava dos ‘padrões’.

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William Murray, 1 Conde de Mansfield, tio-avô de Dido.

Para além destes aspectos, os registros reforçam a ideia de que os Murrays se apegaram a menina e, eventualmente, pesquisadores afirmam que o carinho estabelecido por esta relação pode ter influenciado as ações profissionais do seu tio avô. O Conde Murray exercia a função de Lord Chefe de Justiça, conhecido entre seus pares como Lord Mansfield. O Lord Mansfield de maneira direta e indiretamente, influenciou na ampliação do debate em torno da necessidade do fim da escravidão. Em sua opinião era importante que a Inglaterra avançasse na discussão sobre o fim da escravidão a partir da criação de uma lei específica. Como dissemos anteriormente, ele era contrário a escravidão e tinha acesso à obras de intelectuais que defendiam o fim do regime escravocrata. Foi durante a condução do Julgamento de Somerset no ano de 1772 que os rumores em relação a sua contrariedade em torno do sistema escravocrata ganharam maior repercussão na Inglaterra.

Entre os anos de 1771 e 1772 os tribunais britânicos tiveram que avaliar o caso do escravo James Somerset que foi levado à força da Inglaterra para uma das colônias inglesas. Lord Mansfield foi encarregado de conduzir o caso e, historiadores que se dedicam ao estudo do processo abolicionista inglês, avaliam que a maneira pela qual Mansfield conduziu este julgamento dava mostras de que ele defendia o fim da escravidão. Em um dos seus discursos Mansfield proferiu frases segundo o qual considerava abusivo um país permitir a existência além da escravidão, forçar indivíduos a se deslocarem e serem vendidos para o exterior.

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”Am I not a man”, emblema utilizado durante a campanha para abolir a escravidão. Imagem extraída de um livro de 1788.

Em sua decisão final sobre este julgamento, ele considerou como injusta a venda de pessoas para outros países de maneira indiscriminada e sem qualquer tipo de regulamentação. Esta ação que fez com que várias pessoas considerassem que Murray estaria abrindo um precedente para conduzir o processo que levaria ao fim da escravidão. Boatos sobre ele ter concedido a liberdade a escravos teriam se espalhado rapidamente em 1772. No entanto, ele não havia concedido a liberdade para os escravos, mas a difusão do seu discurso influenciou a condução de debates em torno da necessidade do fim da escravidão no país.

Mansfield teve que vir a público desmentir os boatos de que estaria concedendo liberdade aos escravos na Geórgia, diante da propagação de notícias que ligavam seu nome a crescente onda de movimentos abolicionistas. É importante ressaltar que, a economia escravocrata era um dos motes essenciais da Inglaterra, e ir contra este modelo seria ir contra aos rumos do país. Dessa forma, apesar de ser contrário à escravidão, ele era um homem de seu tempo e, ao que tudo indica, não levou a ferro e fogo o desejo prático pelo fim deste regime. Manfield tinha uma opinião pessoal a respeito da necessidade de liberdade aos negros, todavia, ele não liderou movimentos abolicionistas.

 Vida adulta e últimos dias de Dido:

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Dido e John Davinier, no longa ”Belle”.

De acordo com as fontes, Dido viveu com a família Murray durante aproximadamente 30 anos. Seu pai biológico faleceu em 1788 e, não foram encontrados registros de que ele tenha tido outros herdeiros legítimos reconhecidos por eles juridicamente. Alguns registros encontrados sugerem que Jonh Lindsay tenha tido outra filha, conhecida como Elzabeth Palmer, e, esta teria nascido em 1765 na Escócia. No entanto, em seu testamento, Lindsay deixou cerca de 1000 libras para Dido e, no mesmo documento não foram encontradas menções para a sua outra suposta filha natural.

Dido também herdou considerável renda da sua família adotiva. No testamento de Murray redigido no ano de 1783, além de confirmar a liberdade da jovem, no intuito de garantir o seu futuro longe de quaisquer dificuldades financeiras, ele deixou especificado que a ela deveria ser concedida uma renda anual. Ele deixou em testamento para a sua sobrinha o valor de £ 10.000. Em março do respectivo ano, em 1793, o seu tio avô faleceu. Em setembro deste mesmo ano Elizabeth Belle Dido casou-se com um francês que trabalhava como administrador chamado de John Davinier. O casal teve três filhos, dos quais os gêmeos Charles e John (batizados em 1795) e William Thomas (batizado em 1802). Ela faleceu em 1804 aos 43 anos e foi enterrada na Igreja de Santo George Fields, em Westminster, atual Baywater Road. Em nossa pesquisa, encontramos informações sobre o último descendente conhecido de Dido. Trata-se do seu bisneto, Harold Davinier que, não teve filhos e faleceu na África do Sul no ano de 1975.

Continua…

Referências:
Disponível em: < https://historicengland.org.uk/research/inclusive-heritage/the-slave-trade-and-abolition/slavery-and-justice-exhibition-at-kenwood-house/ > acesso em junho de 2016.

Disponível em: http://blog.english-heritage.org.uk/belle-happened-dido-film-ended/ > acesso em junho de 2016.

Disponível em: http://sharonlathanauthor.com/wp-content/uploads/Dido-Elizabeth-Belle_-a-black-girl-at-Kenwood.pdf >

Disponível em: http://racerelations.about.com/od/trailblazers/fl/Dido-Elizabeth-Belle-Biography.htm > acesso em junho de 2016.

Disponível em: http://elizabethhanbury.blogspot.com.br/2013/02/dido-elizabeth-belle.html > acesso em junho de 2016

 

Belle – Parte III: O filme que foi inspirado em um retrato

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Entre as muitas faces aristocráticas que estão penduradas nos quadros da recentemente remodelada Kenwood House, existe uma que se destaca. É o retrato de duas mulheres bonitas com roupas do século 18, duas irmãs aparentemente afetuosas. Não é algo tão incomum de se encontrar, exceto pelo fato de que uma das jovens na pintura é negra. Essas meninas são Elizabeth Murray e Dido Belle. Belle foi criada em Kenwood, uma casa parcialmente construída com o “dinheiro de sangue” do comércio triangular, e ela fez sua própria contribuição para a abolição da escravatura.

Um filme baseado em sua vida foi lançado em 2013 e recebeu o título de “Belle”. De acordo com o produtor do filme, Damian Jones: “É sobre encontrar sua identidade e o seu lugar.” Jones mora perto de Kenwood e queria contar a história de Belle, depois de ver o retrato pendurado lá: “Eu pensei que era algo extraordinário – era uma coisa raro para aquele período que uma mulher negra fosse retratada como uma igual a uma mulher branca. O retrato abre um monte de perguntas. A história de Belle no filme foi romanceada para se encaixar no período romântico, mas há também uma mensagem que é ressonante até hoje.” Laura Houliston, curadora do museu English Heritage em Kenwood, diz: “A escravidão não era apenas sobre os reis de açúcar que viviam na terra (Colônias).  Ela afetou a maioria das casas na Inglaterra.”

Então, quem é a menina no retrato, e qual é a sua relevância hoje? Dido Belle nasceu como a filha ilegítima do almirante da Marinha Real, Sir John Lindsay e Maria Belle, uma escrava que ele conheceu no caminho entre a Inglaterra e a Jamaica em torno de 1761. Quando Lindsay voltou para a Marinha, ele deixou sua filha de cinco anos de idade, Belle, aos cuidados de seu tio, Lorde Mansfield, que era o Chefe de Justiça, e vivia em Kenwood. Lorde e Lady Mansfield não tiveram filhos próprios, mas criaram Belle com Lady Elizabeth Murray, filha de um outro sobrinho de Mansfield, David Murray.

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Kenwood House, onde dido viveu em sua infância e juventude.

“A ideia de que havia uma garota que fazia parte do nosso legado cultural na Inglaterra – uma mulher da raça mista na década de 1780 – foi o que me pegou. ”, disse Gugu Mbatha-Raw,  a atriz que interpretou Belle no longa. Ela ainda destaca: Falando como uma mulher de raça mista em 2013, não há muitos contos históricos sobre pessoas como eu. Quando as pessoas pensam sobre ‘dupla herança’, eles acham que é um conceito moderno, mas não é. Eu queria fazer justiça a Dido. ”

Houliston diz que: “Os visitantes ficavam admirados pelo fato de que uma menina negra era autorizada a se juntar à família depois do jantar; e sobre como ela poderia conversar e tocar piano. Lorde Mansfield parece ter tratado Belle e Elizabeth Murray igualmente, comprando-lhes as mesmas sedas e dando-lhes a mesma educação. Esta igualdade é evidente em seu testamento, onde ele deixou para Belle uma grande quantidade de dinheiro. Ele também reafirmou que ela estava livre. ”

Porém, apesar de ter tido acesso ao conforto e a educação nos mesmos moldes que a sua prima, na prática, Dido teve que enfrentar o peso das convenções sociais. (Leia mais detalhadamente sobre os primeiros anos da vida de Belle aqui https://tudorbrasil.wordpress.com/2016/07/05/a-vida-de-dido-elizabeth-belle-parte-i/).

A diretora do filme, Amma Asante, declarou que ficou impressionada pela forma como Lorde Mansfield tratou Belle, pois de acordo com ela – considerando o contexto do período e a sociedade em que eles estavam inseridos – foi um ato de elevado nível de coragem, o que o deixou bem admirado.

Em 1772, quando Belle tinha cerca de 11 anos, seu tio-avô tomou uma decisão que iria mudar a história e, eventualmente, levaria à abolição em 1833. No caso da escravidão em Somerset, ele declarou que a escravidão era incompatível com a lei existente na Inglaterra e um mestre não podia exportar escravos britânicos. Então, em 1781, ele presidiu o caso do Massacre no navio Zong, onde 142 escravos africanos foram arremessados ao mar e se afogaram para que seus proprietários pudessem reivindicar o seguro de “carga danificada”. Em um duro golpe para os mercadores de escravos, Mansfield decidiu que os donos dos escravos não poderiam reivindicar o dinheiro.
Esse episódio, embora anacrônico, foi o escolhido para ser usado como enredo do filme de 2013, onde foi mostrado como a influência de Dido sobre a vida de seu tio-avô o impulsionou a tomar essa decisão.

Misan Sagay, que escreveu o roteiro de Belle, explica sobre o porquê de eles terem escolhido usar esse episódio em particular para desenvolver o filme: “A história abolição é muitas vezes contada sem uma pessoa negra estar lá. Mas nós queríamos que Belle a vivesse que fizesse julgamentos que afetariam a escravidão, pois mesmo que indiretamente, ela teve algum impacto sobre ela.”

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Lord Mansfield

Depois que Lady Mansfield morreu, Dido ficou na casa para cuidar de seu tio. Ela lia jornais para ele no café da manhã e o acompanhava, até que ele acabou por sucumbir ao reumatismo. Ele morreu aos 88 anos, em 1793, legando para Dido em seu testamento uma soma substancial. Belle deixou Kenwood no mesmo ano, quando se casou com John Davinier. Eles viveram em Pimlico e tiveram três filhos. Belle morreu em 1804, aos 43 anos, mas sua linhagem familiar continuou. Seu último descendente conhecido foi um tataraneto na África do Sul, que morreu em 1975. Em seu atestado de óbito sua raça é listada como branco. Ele era um mecânico aposentado, casado, sem filhos. Seu pai chamava-se Charles Lindsay, então é possível que eles soubessem de sua ligação com a família Lindsay.

A mãe de Belle, Maria, terminou na Flórida, onde John Lindsay deu-lhe terras e propriedades.  Sobre Maria Belle, segundo o historiador Gene Adams em seu livro ‘Dido Elizabeth Belle: A Black Girl at Kenwood’: “Não se sabe se Dido foi separada de bom grado de sua mãe, mas materialmente falando, a separação teria certamente ajudado tanto a mãe quanto a criança. ”

É claro que a posição de Belle era complicada e estranha perante a sociedade. Ela era uma nova rica, mas também era mestiça – Ela não era nem uma serva, mas também não era um membro legítimo da família.

Haviam aqueles na Inglaterra Georgiana que argumentaram que Dido influenciou a decisão seu grande tio. Francis Hutchinson, um americano que vivia em Londres, escreveu sobre sua visita a Kenwood dizendo que: “A negra veio após o jantar e sentou-se com as senhoras e, após o café, andou com na companhia delas pelos jardins. Uma das jovens senhoras com o braço dentro o outro… eles a chamam de Dido, o que suponho que seja o único nome que ela tem. Ele [Lorde Mansfield] sabe que foi censurado por demonstrar carinho e predileção por ela – ouso dizer que isso não é crime. ” Gugu Mbatha-Raw diz que como um personagem, Belle é ‘mal-humorada’: “Ela percebe que os Mansfields a protegeram. E isso vem como um choque para ela, em especial quando alguns outros de fora a tratam como lixo.”

150224McQueen disse que: “As pessoas de alguma forma, não querem olhar para este momento particular da história. A escravidão durou 400 anos e há menos de 20 [filmes] sobre isso. Temos de restabelecer o equilíbrio.” Asanta diz que: “O mundo está mais preparado para essas histórias do que nunca, devemos olhar para a nossa história, seja ela boa ou ruim. ”

Sagay acrescenta que ela foi atraída para Belle porque: “Este é um período da nossa história que devemos sempre nos lembrar. Hoje ainda existem juízes como Mansfield, que debatem questões que têm consequências assustadoras. Precisamos lembrar daqueles que se levantaram para o que é certo, mesmo que soubessem que trariam um impacto difícil. A história de Belle é a de uma revolução silenciosa, não só de uma mulher, mas uma história da influência de mulher negra. ”

 

O que o retrato de Dido Belle nos diz?

Lady Elizabeth Murray and Dido Belle, once attributed to ZoffanyA primeira questão que atinge o espectador é: por que Dido está apontando para a bochecha?
É um “gesto intrigante”, escreveu professora de literatura Inglesa, Christine Kenyon Jones, em um artigo para o Jane Austen Society of North America. “É com intenção de chamar a atenção para sua cor de pele, ou simplesmente para seu sorriso e suas covinhas? ”

Estas perguntas – e o mistério do que ela estava fazendo, tanto em Kenwood e quanto na pintura – dão sensação especialmente mítica sobre Dido. A pintura até mesmo inspirou um romance.
“A razão pela qual ela me surpreendeu”, diz Caitlin Davies, autora de ‘Family Likeness’, “foi que eu cresci perto de Kenwood, por isso estive dentro e fora da casa várias vezes em 45 anos. Então, de repente, em 2007, eu vi este retrato quando visitei a exposição temporária sobre Escravidão e Justiça. ”
Davies, que é branca, tinha levado sua filha mestiça junto com ela. “Ela foi muito atingida por isso, porque praticamente todos os outros retratos nas paredes eram de aristocratas brancos – e repentinamente ali estava alguém que se parecia com ela. ”  Graças ao retrato e a reação de sua filha a ele, Davies se inspirou para escrever seu romance, que é sobre uma menina mestiça crescendo em uma pequena cidade de Kent em 1950, condenada ao ostracismo por causa de sua cor.

Amma Asante, a diretora do filme, também explicou por que a pintura o inspirou para seu longa: Você vê uma menina bi racial, uma mulher de cor, que está representada como um pouco maior do que o seu homólogo branco. Ela está olhando diretamente para fora da tela, e tem um olhar muito confiante. Esta pintura… A tradição e tudo mais sobre o século 18 que esse retrato nos conta foi o que eu vi como uma oportunidade para contar uma história que poderia combinar a arte e a política. ”

De volta à pintura, vamos as outras questões. Por que Dido olha como se ela estivesse correndo para ajudar sua prima em uma missão? Para Davies, uma possibilidade é que isso começou como um retrato único. “Parece que o retrato de Elizabeth veio primeiro e, em depois, alguém decidiu que queria as duas jovens juntas e então Dido foi adicionada. O toque entre eles pode parecer estranho. Estaria Elizabeth empurrando-a para longe? Ou o pintor só manteve Elizabeth como ela estava pintada originalmente, com um braço estendido? ”

dido-bannerNo filme, o status ímpar de Dido nesta sociedade branca e estratificada é feito com uma simples frase. “Posso estar em uma classe alta demais para jantar com criados e baixa demais para jantar com a família. ”

De qualquer forma, há mais coisas acontecendo na representação de Dido do que apenas uma imagem de uma garota solitária e marginalizada. Mario Valdes, um historiador norte-americano da diáspora Africana, sugere que o turbante possa ser parte de uma tentativa de Indianizar Dido. Conforme ele explica, Entre 1770 e 1771, o pai de Dido serviu como ministro de Sua Majestade Britânica na Índia. Mas o que isso teria a ver com o gesto de Dido? Valdes explica: “Uma interpretação comum é de que ela esteja apontando para a diferença na aparência entre ela e sua prima, mas eu diria que uma abordagem muito mais sofisticada está em jogo. Há uma escultura que mostra o Deus Krishna em uma pose semelhante, e uma história conta que certa vez ele foi golpeado por uma divindade feminina para assumir a aparência de sua irmã e seu marido. Quando esta irmã tentou consolá-lo, ele sorriu, apontou para o rosto machucado, e exclamou: ‘Ela mostrou que todos os três de nós são um e a mesma coisa. ’ Dessa forma, a pose de Dido, aparentemente, estaria proclamando que ela e sua prima compartilham a mesma humanidade e dignidade inata. ”

Há última questão para se pensar é se Dido Belle chegou a ver seu retrato. Davies acha que ela pode não ter chegado a ver a pintura. “Eu me pergunto se a própria Dido chegou a ver sua pintura. Eu fico intrigado com o que ela poderia ter pensado dela, mas até onde eu tenho verificado, ela não foi mostrada nas paredes de Kenwood durante sua vida. ”

Talvez ela teria gostado. Só podemos imaginar, mas sabemos que outros certamente apreciaram. O quadro se tornou famoso e é uma imagem que foi impressa em aos espelhos de bolso, chaveiros e blocos magnéticos dentre muitos outros itens. Parece que Dido Belle pode ter passado parte de sua vida na obscuridade, mas hoje ela é uma espécie de ícone.

 

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Fontes:

http://www.usatoday.com/story/life/movies/2014/05/05/movie-inspired-by-a-painting-belle-is-an-amazing-but-true-story/8174219/

http://www.dailymail.co.uk/home/you/article-2618656/Portrait-mystery-lady-The-incredible-story-18th-century-painting-inspired-new-movie.html

https://www.theguardian.com/artanddesign/2014/may/27/dido-belle-enigmatic-painting-that-inspired-a-movie

http://www.standard.co.uk/lifestyle/london-life/the-story-behind-dido-belle-the-bi-racial-londoner-who-helped-end-slavery-in-britain-9046065.html

 

As Guerreiras Celtas

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Dentro do contexto político do mundo Antigo, talvez a mulher celta tenha sido o único grupo do gênero feminino a possuir um grau de liberdade social maior do que o de suas irmãs gregas e romanas. Antes de falarmos da mulher celta, necessitamos recordar alguns pontos, primeiro: as tribos célticas eram descentralizadas e comumente inimigas umas das outras (o que levou, diga-se de passagem, a conquista mais brutal e facilitada por parte do Império Romano). Dessa forma, é importante sinalizar que, ainda que possuíssem uma língua, etnicidade e cultura comum, existiam também diferenças, que podiam fazer de uma tribo mais “aberta e liberal” ao papel social da mulher, do que outras. Sendo assim, ressaltamos que apesar das possíveis diferenças tribais, a mulher celta possuía mais liberdade e autonomia do que outras do mundo Antigo.

Segundo ponto: a cultura celta dominou a Europa por muito tempo, chegando a sua decadência na dominação por parte do Império Romano. Existem vestígios arqueológicos e heranças culturais de ocupação celta na França, Espanha, Portugal, Escócia, Inglaterra, Áustria, Alemanha, Ilha de Mann, Cornuália, País de Gales, Bélgica e Irlanda. Dada essa introdução e antes de focarmos no ponto mais importante do texto, “a mulher guerreira”, vamos citar algumas das “liberdades” da mulher celta, em relação ao mundo grego e romano:

  • As mulheres celtas tinham a possibilidade de pedir o divórcio ou anulação do casamento diante dos respectivos casos: a não satisfação sexual, a existência de amantes ou concubinas.
  • Mulheres podiam desempenhar a função sacerdotal de druidesas, segundo as fontes irlandesas. Já, as mulheres do continente, existem fontes ambíguas sobre o assunto.
  • Sexualidade, como um todo, não era um tabu: Podiam escolher com quem iam se casar e se não queriam se casar, uma mulher celta só se casava com seu consentimento. Algumas tribos célticas podiam ser poligâmicas ou poliandricas.
  • Podiam herdar riqueza com plenos direitos de propriedade e ser escolhidas para qualquer cargo.
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Mulher Celta no carro de guerra.

Como podemos notar, a mulher celta possuía, de fato, algumas liberdades que outras não tinham a mesma sorte de ter. Dentre essas liberdades, estava a questão bélica e de poder. É importante ressaltar que mulheres guerreiras, ou que lutavam em determinadas ocasiões, não era incomuns, especialmente dentro da realidade do mundo celta. Não significa que todas as mulheres eram exímias guerreiras, assim como a lógica da guerra, em si, nunca garantiu a adesão completa de homens. Lutavam aqueles que possuíam treinamento necessário para tal feito e no caso das celtas, muitas mulheres eram treinadas, possuíam armas, treinavam outros para lutar e lutavam, lado a lado, de homens contra invasores. Nas lendas irlandesas o herói Cuchullain foi treinado por uma poderosa guerreira, chamada “Scáthach”, ela, por sua vez, possuía uma rival, outra guerreira, chamada “Aife”. Nas fontes contemporâneas, vindas de gregos e romanos, encontramos relatos sobre a força da mulher celta:

“A mulher celta é, por vezes, igual a qualquer outro romano em um combate mão a mão. Ela é linda tanto quanto é forte. Seu corpo é formoso, mas feroz. O físico de nossas romanas padecem em comparação.” Soldado romano não identificado.

O historiador grego Diodorus Siculus descreve as mulheres celtas Gaulesas como tão corajosas quanto do mesmo porte dos homens gauleses:

“As mulheres dos gauleses são, não apenas como os homens em seu grande porte, mas são páreo a qualquer gaulês em coragem também.”  Diodorus Siculus

Plutarco faz menção da participação das mulheres celtas Gaulesas  na resistência contra os romanos:

“Aqui, as mulheres os encontraram com espadas e machados nas mãos. Com gritos horríveis de fúria elas tentaram fazer recuar a caça e os caçadores. Os fugitivos como desertores, os perseguidores como inimigos. Com as mãos desprotegidas as mulheres arrancaram os escudos dos romanos ou agarraram suas espadas, resistindo a ferimentos mutilantes.” Plutarco.

Ainda sobre a mulher celta Gaulesa e a sua força bélica:

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Representação da Guerreira Celta

“Todo um bando de estrangeiros não será capaz de lidar com um [Gaules] em uma luta, se ele chama em sua esposa, mais forte do que ele, de longe, e com os olhos piscando; muito menos quando ela incha seu pescoço e range os dentes e equilibrando seus enormes braços brancos, começa a chover golpes misturados com chutes, como tiros descarregadas pelas cordas torcidas de uma catapulta. “Amiano Marcelino.

Sobre as celtas da tribo Braccari, da Espanha, o comentário de Appian deixa claro o perfil bélico e a resistência da mulher celtiberica:

 “Eles são um povo muito guerreiro e entre eles as mulheres vestiam armas junto com os homens, que morreram com vontade, nenhum deles mostrando suas costas, ou soltando um grito. Das mulheres que foram capturados algumas se mataram, outras mataram seus filhos também com suas próprias mãos, considerando preferível a morte ao cativeiro.” Appian

Agora atestamos o relato de Tácito, sobre a primeira invasão romana a Grã Bretanha, onde, demonstra não apenas a misoginia, mas o escárnio que o império sentia diante dessas tribos, a quem chamavam de “selvagens”. Interessante, também, é notar que nesse caso, as mulheres, junto dos Druidas não pegaram em armas, necessariamente, mas foram utilizadas como tática de guerra para amedrontar e atrasar o ataque das tropas romanas.

“Na costa estava o exército inimigo com sua variedade densa de guerreiros armados enquanto entre as fileiras  as mulheres frustradas , trajadas em  preto, como as Fúrias com o cabelo despenteado, acenando marcas. Ao redor, os druidas levantavam as mãos para o céu e derramam imprecações terríveis, assustado nossos soldados pela visão estranha, de modo que, como se seus membros estivessem paralisados, eles ficaram imóveis e expostos a danos. Em seguida, solicitados pelos apelos de seu general e  mutualmente incentivos para não falhar ante uma tropa de mulheres frenéticas.” Tácito.

Como vimos, de acordo com relatos contemporâneos de seus inimigos Romanos e de Gregos, com quem os Celtas, muitas vezes, comercializavam, dos mitos irlandeses das guerreiras treinadoras, passando pelas fortes gaulesas, resistentes celtibericas e as amedrontadoras galesas, fica evidente a singularidade da mulher Celta e sua posição, mais livre que outras, e apta, também, às guerras.

Além dessas mulheres anônimas, de quem soubemos graças aos registros da época, existem outros dois nomes muito conhecidos e que demonstram a mulher Celta, não só bélica, mas também detentora de poder. São elas Boudica e Cartimandua.

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Ilustração: Boudicca

Boudica é famosa por ser a líder da resistência Celta dos Icenis, uma tribo da Inglaterra, contra  Roma. Boudica era esposa do chefe da tribo, Prasutagus que possuía uma relação boa e diplomática com Roma, com sua morte ele deixa parte de sua herança divida entre Roma, sua esposa e suas duas filhas, O império acreditava que com a morte do chefe tribal, seu legado seria entregue a Imperador. Além dessa questão, o fato de uma mulher ser eleita chefe político de algo não era viável, muito menos aceitável, do ponto de vista misógino romano. Em resposta, sua tribo foi atacada e Boudica teve de ver suas duas filhas serem estupradas pelos soldados romanos. Esse foi o estopim para uma das maiores e mais sangrentas revoltas dos Celtas, no caso da tribo Iceni, contra o império Romano. Com força, o exército de Boudica saqueou diversas cidades romanas na Grã Bretanha, mas com tempo o exército imperial se reorganizou e utilizando de suas táticas, sufocou a revolta.

Cartimandua foi outra chefe tribal, dos Brigantes, também da Inglaterra. Ao contrário de sua contemporânea, Boudica, Cartimandua é lembrada como traidora por entregar  Cardoc, líder da resistência celta na Grã Bretanha, aos romanos.

Heroína ou traidora a questão é que tanto Boudica quanto Cartimandua, foram mulheres poderosas que lideraram tribos celtas, e por tal feito eram vistas pelo império e por Tácito com desdém. Afinal, a mulher, no ponto de vista de Roma não servia para nada além de procriar, ambas as mulheres celtas, e tantas outras anônimas como vimos anteriormente, destruíam esse arquétipo. Tácito procurou desmerecer os feitos de Boudica e Cartimandua devido seu gênero, como vemos abaixo:

Cartimandua, rainha dos Brigantes

Cartimandua, Rainha dos Brigantes.

“Cartimandua foi descrita como uma “adúltera” com a luxúria e temperamento selvagem. Já Boudica é descrita como uma selvagem cruel, pelo saque liderado por ela contra as cidades romanas na Grã Bretanha.” Tácito

É muito comum, ainda hoje, nos depararmos com frases misóginas ou que tendem a diminuir o poder e força da mulher baseando no histórico da “feminilidade” como se isso fosse algo natural, quando na realidade esse conceito foi naturalizado.

A mulher  Celta é um excelente exemplo da completude e da complexidade da mulher na História: Mãe, amante, druidesa, rainha, guerreira, agricultora, assassina… Enfim, a mulher Celta era tudo isso ao mesmo tempo ou, era aquilo que quisesse ou pudesse ser. Necessário lembrar que, ainda que possuíssem mais liberdade do que mulheres de outras regiões, o mundo no qual as celtas estavam  inseridas era patriarcal e como tal, ainda que detentoras de liberdades, elas resistiam, aos invasores e aos seus, quando necessário.

Fontes:
http://penelope.uchicago.edu/~grout/encyclopaedia_romana/hispania/celtiberianwar.html

http://www.legendarywomen.org/content/ancientcelticwomenandromanhistorianswholovehatethem

https://bellodunon.com/2013/01/10/mulheres-guerreiras-2/

http://www.claudiocrow.com.br/celtas-sociedade.htm

http://www.druidismo.com.br/index/Os_Celtas/Entries/2010/8/15_a_sociedade_celta.html

Describe and assess the role of women in Celtic and/or Germanic society, how did this role differ from the role of women in Greek and Roman society (PDF)

Women in Celtic Society (PDF)

The Lives of Ancient Celtic Women (PDF)

Tacitus,  Agricola, trans.A.R.Birley, Oxford, 1999.

BOER, W. Den, Some Minor Roman Historians.

CUNLIFF, Barry. The Celts : a very short introdution

O casamento de Henrique VIII e Catarina Howard e, a execução de Thomas Cromwell

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O dia 28 de julho de 1540 foi um dia muito importante, tanto para o reinado do Rei Henrique VIII, quanto na história em geral; pois foi o dia em que o ministro do rei e vice-regente em assuntos espirituais, Thomas Cromwell, foi decapitado publicamente na Torre Hill, sub acusação dos crimes de traição e heresia. Neste mesmo dia, Henrique se casou pela quinta vez, tomando como sua consorte Catarina Howard, uma das Damas de Companhia de sua ex-consorte, Ana de Cleves. O rei já contava com quarenta e nove anos e sua nova esposa tinha entre dezesseis ou dezessete anos.

É intrigante para muitos historiadores quais foram as razões por trás da queda abrupta de Cromwell, no verão de 1540. Como foi que o homem mais poderoso do reino, depois do próprio rei, – que tinha sido elevado à aristocracia em abril, quando Henrique o havia concedido o título de conde de Essex -, caiu tão de repente e perdeu seu poder e influência? As opiniões dos historiadores divergem sobre os motivos. Talvez em razão das crenças religiosas de Cromwell – que o levaram ao crescente conflito com o rei conservador -, ou, se foi por seu papel como um bode expiatório para o malfadado casamento do rei com Ana de Cleves. Ou, talvez por todos esses fatores, somado as manobras de facções na corte que teriam sido responsáveis por sua espetacular e súbita queda.

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Cena da execução de Thomas Cromwell na série “The Tudors”

É impossível saber ao certo o que causou a queda de Cromwell. Possivelmente, as circunstâncias estavam fora de seu controle. Em 1539 ele tinha, junto com Henrique, projetado um casamento para o rei, depois da morte de sua terceira esposa, Jane Seymour, com Anne de Cleves. O casamento com Anne  foi particularmente importante para firmar uma liança entre a Inglaterra com os protestantes príncipes alemães. Este casamento foi arranjado principalmente para proteger a Inglaterra de uma aliança franco-imperial hostil, vista como potencialmente prejudicial para a segurança da Inglaterra.

No entanto, esta ameaça não se materializou, e Henrique não consumou seu casamento com Ana, não necessariamente porque ela era feia (um mito persistente que existe em meio as muitas lendas sobre suas seis esposas), mas porque ele acreditava que ela era casada com outra pessoa; uma questão cultural que pode tê-lo impedido de consumar a união.

cena de execução 02É provável que Henrique tinha se apaixonado por Catarina Howard quando ela chegou a Corte, no outono de 1539.  Ele a escolheu entre outras donzelas para servir a nova rainha, e foi relatado ao para a avó de Catarina, a duquesa de Norfolk, que o rei tinha “criado uma fantasia” com ela a partir do momento em que a viu. Esta paixão pela Dama de Companhia de sua esposa pode ter agravado as dificuldades em seu relacionamento com a Rainha Ana. Seja qual for o caso, no início do verão de 1540, Henrique estava determinado a anular seu casamento com Ana e substituí-la pela jovem Catarina, e Cromwell foi escolhido como um bode expiatório para o fracasso humilhante deste quarto casamento do rei.

Em 10 de Junho de 1540, Cromwell foi preso em uma reunião do conselho e encarcerado na Torre de Londres. Um decreto de proscrição foi introduzido contra ele na Câmara dos Lordes e uma semana depois, Cromwell foi acusado de apoiar anabatistas (uma seita radical do protestantismo), deixando de cumprir a Lei de seis artigos, e até mesmo supostamente conspirando para se casar com Lady Maria, a filha mais velha de Henrique VIII. Cromwell implorou ao rei por misericórdia em uma série de cartas desesperadas, mas nenhuma delas obteve sucesso. Ele foi condenado à morte sem julgamento e no dia 28 de julho, foi decapitado na Torre Hill. O cronista eminente Tudor, Edward Hall escreveu sobre o final de Cromwell dizendo que:

“Muitas pessoas religiosas lamentavam, mas muitas mais se alegraram, e especialmente os que haviam sido homens religiosos, ou favorecidas; eles banqueteavam e triunfaram juntos naquela noite, muitos desejando que aquele dia tivesse acontecido sete anos antes; e alguns temendo que ele pudesse escapar (embora ele estivesse preso), não conseguiam ficar felizes. Outros que conheciam um pouco melhor, lamentaram e sinceramente oraram por ele.”

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Henrique VII e Catarina Howard na série “The Tudors”

O rei mais tarde veio a se arrepender muito pela perda de Cromwell, denominando-o “o servo mais fiel que ele já teve”. Ele acusou seus ministros de trazer o fim sobre Cromwell por falsas acusações. Mas o rei não sentiu nenhum desses arrependimentos no dia da morte de Cromwell, pois ele estava ocupado se casando com Catarina no Palácio de Oatlands.Embora um cronista espanhol anônimo tenha escrito provavelmente uma década mais tarde, que houve grande júbilo e comemorações na corte, o casamento, na verdade, parece ter sido muito discreto, bem como os casamentos de Henrique com Ana Bolena, Jane Seymour e, mais tarde, Catarina Parr.

Onze dias depois, em 8 de agosto, Catarina Howard foi apresentada publicamente como rainha pela primeira vez. Ela não poderia ter imaginado na época, mas ela havia dado seu primeiro passo para a tragédia final de sua jovem vida.

Fonte: http://conorbyrnex.blogspot.com.br/2014/07/28-july-1540-katherine-howards-marriage.html?m=0

Resenha – A Lenda de Tarzan

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Criado em 1912 pelo escritor norte-americano Edgar Rice Burroughs (1875-1950), Tarzan é um dos personagens icônicos do século XX, presente em nosso imaginário cultural contemporâneo há tempos. A nova adaptação cinematográfica que está estreando nos cinemas brasileiros tem como novidade o destaque para o brutal processo de civilização do Congo e o papel genocida do então soberano belga, Leopoldo II, muito pouco explorado até então, quando se conta a história de Tarzan.

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Capa do livro: Tarzan of the Apes, 1912.

Dirigido por David Yates, com roteiro de Adam Cozad e Craig Brewer e estrelado por Alexander Skarsgård (Tarzan), Samuel L. Jackson (George Washington Williams) Margot Robbie (Jane Porter), Christoph Waltz (Léon Rom), Djimon Hounsou (Chefe Mbonga), o filme vem recendo críticas pouco generosas da imprensa, o que é compreensível, já que ele traz um subtexto incomum para uma história que deveria ser mero entretenimento. Esse subtexto é a expansão colonial da Europa na África e seus consequentes abusos.

A história começa com uma reunião de cúpula entre britânicos e belgas (a Conferência de Berlim, de 1884), na qual está sendo discutida a partilha do Congo. A Bélgica está à beira da falência e sem condições de continuar bancando a aventura colonial, que inclui a construção de uma imensa estrada de ferro. Léon Rom, um empresário sem escrúpulos, vai ao Congo a mando do rei, em busca de diamantes. Sua expedição é repelida pelos nativos da tribo do chefe Mbonga, o qual lhe promete acesso aos diamantes de Opar, caso ele lhe entregue seu inimigo: Tarzan, Lorde Greystoke, que está na Inglaterra já há 8 anos, casado com Jane Porter, filha de um missionário inglês, a quem havia conhecido na África.

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Jane e Tarzan no longa.

Em Londres, Tarzan/Lord Greystoke/John Clayton III recebe o convite para voltar ao Congo, da parte de Sua Sereníssima Alteza, o rei Leopoldo II. Ele não sabe que o convite é uma emboscada para que ele seja entregue ao chefe Mbonga. Em princípio relutante, Tarzan acaba cedendo aos apelos de Jane, que deseja voltar à África e também do enviado norte-americano, George Washington Williams, que deseja ir ao Congo com alguém que conheça o local, já que existem boatos sobre escravização e vários maus tratos contra tribos congolesas por parte dos belgas.

É neste ponto que A Lenda de Tarzan se diferencia das obras anteriores que mostraram Tarzan no cinema. Ao trazer a figura real de George Washington Williams para a ficção, o filme ganha uma nova força. Embora suavizada para que o filme pudesse alcançar uma faixa etária mais baixa, a violência colonial se faz presente. Cenas de nativos escravizados, do comércio criminoso do marfim e da exploração de diamantes às custas das vidas de tribos inteiras são mostradas. E, principalmente, o nome de Leopoldo II como mandante desses horrores não é escondido.

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George Washington Williams e Tarzan

Leopoldo II notabilizou-se por fazer do Congo uma propriedade privada, gerida com extrema crueldade. Leopoldo convenceu as demais potências européias de que sua empresa no Congo tinha caráter humanitário, pois levaria a “civilização” àquela região da África. Na realidade, a exploração do marfim e da borracha foi feita às custas das vidas de milhões de africanos. Isso mesmo, estima-se que a exploração do Congo tenha levado à morte entre 5 e 20 milhões de congoleses, além de um sem número de mutilados. A mutilação era uma forma de intimidação e controle usada pelos soldados coloniais, a chamada Force Publique, segundo relata Adam Hochschild, em seu livro O Fantasma do Rei Leopoldo. O trecho abaixo, extraído da resenha do livro escrita por Israel Junior Silva, mostra um pouco desses horrores:

”A extração do marfim era relativamente simples, pois os oficiais armavam-se com rifles, matavam centenas de elefantes e os africanos, amarrados por grossas correntes nas pernas, formavam longas filas e carregavam cargas pesadíssimas até a margem do rio Congo, onde navios esperavam para dali partirem rumo à Europa. Não é preciso dizer que nesse trajeto – dos locais das matanças até o rio – os negros eram constantemente açoitados e muitos morriam por não suportar o peso da carga. A comida era uma ração, distribuída uma única vez ao dia e muito inferior àquela que era destinada aos cavalos do rei. Para extrair a borracha, houve um impasse. Como os negros precisavam subir nas árvores, era impossível mantê-los acorrentados uns aos outros, o que dificultava o recrutamento de “voluntários”. Mas, como não existia obstáculo que pudesse deter o regime de terror, os belgas invadiam as aldeias, raptavam mulheres e crianças e exigiam como pagamento por sua liberdade uma quantia de látex que necessitava de 24 dias para ser extraído. Dessa forma, vários africanos eram obrigados a se embrenhar na mata para conseguirem a matéria-prima da borracha e muitos eram devorados por leões e leopardos. Os que retornavam, muitas vezes encontravam esposas e filhos mortos, ou violentados pelos soldados do rei. As mulheres mais bonitas eram entregues aos oficiais, como forma de amenizar o celibato forçado em que viviam. Muitos aventureiros de toda a Europa foram para o Congo, nesta época, atraídos pelo dinheiro fácil conseguido através da venda de escravos. Outros invadiam as aldeias que resistiam ao trabalho de extração da borracha e, para cada bala disparada, tinham que apresentar a um oficial belga a mão direita do africano morto, para só assim receberem o pagamento. Como alguns utilizavam a munição para caçar, decepavam mãos de pessoas vivas, no intuito de justificar a bala desperdiçada. A prova disso são várias fotos espalhadas pelo livro, onde se vê homens, mulheres e até crianças mutiladas.”

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Chefe Mbonga.

Evidentemente, essas cenas não estão no filme, embora apareça o massacre de uma aldeia e nativos sequestrados e escravizados. O destaque neste ponto vai para a personagem de Samuel L. Jackson, conforme já destacamos, uma presença da vida real na ficção. Em uma de suas falas, ele diz a Tarzan “O que fizemos na América com os índios não foi diferente do que os belgas fazem aqui… e eu me envergonho, é preciso acabar com isso!” O filme, nesse ponto, embora seja um blockbuster cheio de cenas de ação e aventura e vá caminhar inevitavelmente para um final feliz, tem a ousadia de trazer essa reflexão, que pode despertar no espectador mais atento a vontade de conhecer a fundo essa história. Na vida real, George Washington Williams esteve de fato no Congo em 1890 e, ao constatar os horrores da empresa colonial belga, escreveu ao rei Leopoldo II uma carta aberta (que poder ser lida: AQUI), que é um dos primeiros documentos e testemunhos contra os crimes belgas no Congo. Finalmente, em 1908, após imensa pressão internacional, o rei Leopoldo cedeu sua empresa colonial ao estado belga, e o país tornou-se a colônia do Congo Belga, sob controle parlamentar. Após sua independência, em meados do século XX, o país foi renomeado como Zaire e hoje é a República Democrática do Congo.

Dessa forma, o filme A Lenda de Tarzan traz para os cinemas uma história que, ao fundir ficção, fantasia e realidade, além de propiciar um bom entretenimento pode servir de estímulo a pesquisas sobre esse tema tão pouco estudado que é a colonização européia na África.

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Fontes:
Muito Além do Céu (acesso em: Leopoldo II): AQUI.
PCB (acesso em: Leopoldo II da Bélgica e o Holocausto Negro): AQUI.
Black Past (Acesso em: George Washinghton Williams open letter): AQUI.
Super Interessante (Acesso em: O Monarca Negreiro): AQUI.