A esquecida História muçulmana da Inglaterra

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A Grã-Bretanha está dividida como nunca antes. O país virou as costas à Europa, e sua regente tem os olhos postos no comércio com o Oriente. Por mais que isso soe como a Grã-Bretanha atual, também descreve o país no século XVI, durante o período que ficou conhecido através do senso comum como a “idade de ouro” de sua mais famosa monarca, a Rainha Elizabeth I.

Um dos aspectos mais surpreendentes da Inglaterra elisabetana é que a suas políticas externa e econômica foram impulsionadas por uma estreita aliança com o mundo islâmico, um fato convenientemente ignorado hoje por aqueles que defendem a retórica populista de “soberania nacional”.

A partir do momento de sua ascensão ao trono em 1558, Elizabeth começou a procurar relações diplomáticas, comerciais e militares com os governantes muçulmanos no Irã, Turquia e Marrocos – e com boas razões. Em 1570, quando se tornou claro que a Inglaterra protestante não voltaria à fé católica, o papa excomungou Elizabeth e pediu para ela fosse despojada de sua coroa. Logo, o poder da Espanha católica foi contra ela, uma invasão iminente. Comerciantes ingleses foram proibidos de negociar com os ricos mercados dos Países Baixos espanhóis. O isolamento econômico e político ameaçou destruir o país recém-protestante.

 542px-Elizabeth_I_Rainbow_PortraitElizabeth respondeu aproximando-se do mundo islâmico. O único rival da Espanha era o Império Otomano, governado pelo sultão Murad III, que se estendia desde o Norte de África, através da Europa Oriental, ao Oceano Índico. Os otomanos tinham lutado contra os Habsburgos por décadas, conquistando partes da Hungria. Elizabeth esperava que uma aliança com o sultão fosse fornecer o alívio necessário da agressão militar espanhola, e permitir que os comerciantes explorassem os mercados lucrativos do Oriente. Ela também se aproximou de rivais dos otomanos,como o xá da Pérsia e o governante de Marrocos, por exemplo.

O problema é que os impérios muçulmanos eram muito mais poderosos do que a pequena nação insular de Elizabeth, flutuando nas brumas encharcadas, fora da Europa. Elizabeth queria explorar novas alianças comerciais, mas não podia se dar ao luxo de financiá-los. Sua resposta foi a explorar as inovadoras, porém obscuras sociedades de economia mista – política introduzida por sua irmã, Maria I.

As empresas funcionavam como associações comerciais pertencentes a seus sócios. O capital foi usado para financiar os custos de viagens comerciais, e os lucros – ou perdas – também seriam compartilhados. Elizabeth apoiou com entusiasmo a Companhia Moscovita, que negociava com a Pérsia e passou a inspirar a formação da Companhia Turca, que negociou com os otomanos, e com a Companhia das Índias Orientais, que acabaria por conquistar a Índia.

Na década de 1580 Elizabeth assinou acordos comerciais com os otomanos que durariam mais de 300 anos, com a concessão de seus comerciantes ao acesso comercial livre com terras otomanas. Fez uma aliança semelhante com Marrocos, com a promessa tácita do apoio militar contra a Espanha.

Como o dinheiro chegando, Elizabeth começou a escrever cartas para seus parceiros muçulmanos, exaltando os benefícios do comércio recíproco. Ela escreveu como suplicante, chamando Murad de “o mais poderoso governante do reino da Turquia, única e, acima de tudo, e ao grande monarca soberano do Império oriental.” Ela também jogou com sua mútua hostilidade ao catolicismo, descrevendo-se como “a grande defensora, invencível e mais poderosa da fé cristã contra todo tipo de idolatria. – Como muçulmanos, protestantes rejeitaram a adoração de ícones, e defendiam a palavra não mediada de Deus, enquanto os católicos se valiam da intercessão sacerdotal.  Ela habilmente explorou a fusão de protestantes e muçulmanos como duas faces da mesma moeda herética. O truque funcionou.

elizabeth_iRegiões, como Aleppo, na Síria, e Mosul no Iraque, eram muito mais seguras para mercadores ingleses do que teria sido em uma viagem equivalente pela Europa católica, onde eles se arriscariam a cair nas mãos da Inquisição.

As autoridades otomanas viam sua capacidade de absorver as pessoas de fé diferente como um sinal de poder, não de fraqueza e observavam os conflitos católicos x protestantes da época com estupefação isolada. Alguns ingleses inclusive se converteram ao Islã. Alguns, como Sansão Rowlie, um comerciante de Norfolk que se tornou Hassan Aga, tesoureiro-chefe de Argel, foram forçados. Outros o fizeram por vontade própria, talvez vendo o Islã como uma aposta melhor do que a nova fé protestante, ainda precária. Aristocratas ingleses estavam contentes com as sedas e especiarias do Oriente, mas turcos e marroquinos estavam decididamente menos interessados na lã Inglesa. O que eles precisavam eram de armas. Em um ato pungente de retribuição religiosa, Elizabeth despojou o metal de igrejas católicas e derreteu seus sinos para fazer munições que foram então enviadas para a Turquia, provando que as vendas obscuras de armas ocidentais vão muito mais longe do que o caso “Irã x contras”. A rainha incentivou acordos semelhantes com Marrocos, envolvendo a venda de armas e a compra de salitre, o ingrediente essencial da pólvora; e açúcar, inaugurando um consumo duradouro que escureceu próprios dentes de Elizabeth .

Açúcar, sedas, tapetes e especiarias transformaram-se em comida, decoração de  casas e  vestimentas para os elisabetanos. Palavras como “doce” e “turquesa” (de “pedra turca”) tornaram-se comuns. Ate mesmo Shakespeare escreveu Otello logo após a visita de seis meses do primeiro embaixador do Marrocos.

Apesar do sucesso comercial das sociedades anônimas, a economia era incapaz de sustentar sua dependência do comércio mundial. Imediatamente após a morte de Elizabeth, em 1603, o novo rei, James I, assinou um tratado de paz com a Espanha, que terminou com o isolamento da Inglaterra. A política islâmica de Elizabeth, realizada fora do âmbito católico, transformou o gosto Inglês e estabeleceu um novo modelo de investimento em ações conjuntas que acabaria por financiar a “Companhia Virginia”, que fundou a primeira colônia norte-americana permanente.

Portanto, o Islã, em todas as suas manifestações – imperial, militar e comercial – desempenhou um papel importante na história da Inglaterra. Hoje em dia, quando a retórica anti-muçulmana inflama o discurso político, é útil lembrar que nosso passado tem muito mais em comum com essa cultura do que muitos gostariam de  admitir.

Fonte:

Traduzido de: BROTTON, Jerry. England’s forgotten  Muslim History.  Disponível em: < http://www.nytimes.com/2016/09/18/opinion/sunday/englands-forgotten-muslim-history.html?_r=2 > acesso em setembro de 2016.

 

Reviver a História: “Bruxas” teriam roubado pênis na Idade Média e os usado como “animais de estimação”

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De acordo com um guia do século XV, que continha instruções voltadas para detectar e erradicar feitiçaria, mulheres que eram consideradas “bruxas” eram capazes de fazer pênis desaparecerem. O texto apresentava informações de que algumas até mesmo os mantinham em ninhos e os sustentavam com aveia.

Desde tempos imemoriais, os homens têm se preocupado irracionalmente sobre ameaças aos seus pênis. Muito antes de existir a lógica da castração, havia algo muito mais sinistro: o mito das “bruxas” que roubavam Falos para mantê-los desmembrados e  como animais de estimação.

A descrição mais conhecida desta prática ocorre no Malleus Maleficarum, um manual de caça às “bruxas” do século 15 escrito por Heinrich Kramer. Os historiadores normalmente tendem a considerá-lo como um texto ridículo e misógino que, no entanto, resultou em inúmeros assassinatos cruéis de mulheres acusadas de bruxaria. Em The Salem Witch Trials Reader, Frances Colin descreve-o como “um dos livros mais terríveis e irritantes já escritos.” O Malleus é repleto de tensões a respeito do desejo sexual feminino, como a folclorista Moira Smith observa em sua analise, “Penis Theft in the Malleus Maleficarum” Muitos dos crimes (Maleficia) atribuídos às “bruxas” estavam baseados na sexualidade: cópula com os demônios Incubus, ocorrência de abortos causando esterilidade e morte fetal e impedindo as relações sexuais entre marido e mulher.

arvoreNa Idade Média, imaginava-se que as “bruxas” possuíam artes mágicas com a finalidade de destruir Falos. A mais sinistra seria a capacidade de fazer o órgão sexual desaparecer completamente. De acordo com Smith, o Malleus Maleficarum detalha três estudos de casos específicos em que as “bruxas” fizeram desaparecer pênis. Os dois primeiros envolvem simplesmente homens que têm seus genitais escondidos por alguma mágica. “As bruxas podem tirar o órgão masculino”, Heinrich Kramer escreve: “Não por despojar o corpo humano dele, mas ocultando-o com um pouco de glamour.”

O terceiro caso menciona o fenômeno das “bruxas” mantendo pênis desmembrados  como animais de estimação e alimentando-os com aveia e outros grãos nutritivos:

Devemos pensar nessas bruxas que de alguma forma levam os membros em grandes números, vinte ou trintm – e os coloca juntos em um ninho de pássaros ou alguma caixa, onde eles se movem como os membros vivos, comendo aveia ou outros grãos. Isso tem sido visto por muitos e é um assunto de conversa comum. Diz-se que tudo é feito pelo trabalho do diabo e ilusão, para os sentidos de quem vê [o pênis] estão iludidos na forma como já dissemos…

Kramer continua a descrever a busca de um homem para restaurar seu membro  perdido. De acordo com o autor, o “pobre homem castrado” se aproximou de certa “bruxa” que o instruiu a “subir em uma árvore especial onde havia um ninho contendo muitos membros, e o autorizou a tomar qualquer um que quisesse.” (Ele, infelizmente, foi rejeitado depois de tentar pegar um, particularmente grande, porque pertencia a um pároco).

“Árvores-falos” não eram incomuns na Idade Média. Em um artigo de 2010 publicado no Journal of Sexual Medicine, o historiador Johan J. Mattelaer argumenta que “entre o final do século XIII e início do século XVI, a árvore-falo era um fenômeno comum”.  Essas árvores ‘floresceram’ em toda a Europa, de acordo com a sua pesquisa. arvore-2Um manuscrito francês do século 14 contém duas imagens de freiras colhendo pênis de árvores e colocando-os em suas vestes; uma escultura em madeira do início do século XV atualmente mantida em um museu na Alemanha descreve uma mulher casualmente arrancando pênis enquanto seu amante examina uma árvore de vulvas; e um emblema decorativo encontrado nos Países Baixos “mostra um casal fazendo amor debaixo de uma árvore-falo, possivelmente sendo vigiado por um voyeur.”

Em 2000, arqueólogos descobriram algo impressionante: um mural enorme do século XIII, localizado na Toscana. Ela retrata uma árvore coberta de órgãos sexuais masculinos, todos os quais eram “desproporcionalmente grandes e… claramente em um estado de excitação.”: oito mulheres, nas raízes das plantas, duas das quais parecem estar brigando por um pênis e uma delas está  tentando bater em um ramo, usando uma vara.  Ao lado delas, outra mulher que parece não estar envolvida na cena na maior parte do tempo, mas que, após uma inspeção mais próxima, como nota Mattelaer, “tem um dos frutos da árvore saindo de sua parte inferior.” George Ferzoco, o diretor do Centro de Estudos da Toscana, argumentou que o mural constitui “a mais antiga representação na arte de mulheres que atuam como “bruxas”, citando o antigo folclore da Toscana sobre “bruxas” mantendo pênis em cativeiro em ninhos.

No Malleus Maleficarum, Kramer escreve: “Toda a bruxaria vem de luxúria carnal, que nas mulheres é insaciável.” Em sua mais pura essência, a árvore-pênis – e sua associação com “bruxas” interminavelmente lascivas – levanta uma interessante questão: se pênis crescem em árvores, quem precisaria dos homens?

 

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FONTE: Texto original traduzido de: < https://broadly.vice.com/en_us/article/witches-allegedly-stole-penises-and-kept-them-as-pets-in-the-middle-ages > acesso em setembro de 2016.

O Nascimento de Ana de Cleves

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Pintura alegórica de John III, pai de Ana de Cleves, ao lado da virgem Maria e do menino Jesus.

Ana de Cleves, nasceu perto de Düsseldorf, no ducado de Berg, em uma família principesca alemã, no dia 22 de Setembro de 1515, durante os primeiros anos de reinado do homem que viria tornar-se seu futuro esposo, Henrique VIII da Inglaterra.

A cidade de Düsseldorf fica localizada à margem direita do rio Reno e remonta aos tempos romanos. Por volta do século XII, os Bergs conquistaram o local, transformando-o em seu reino, em meados do século XIII. A cidade, que obteve tal estatuto através do Conde Adolf V, possuía significativa rota comercial e mercados, que a transformariam em um importante ponto para negociações com outros reinos da Europa.

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Ana de Cleves, por Hans Holbein.

Ana foi a segunda filha do Duque de Cleves, John III e sua esposa, Maria de Juliers. Segundo aponta a historiadora Elizabeth Norton, o sexo do bebê foi um tanto decepcionante para seus pais, que tiveram que deixar sua filha mais velha de 3 anos de idade, Sibylla, como herdeira de suas terras. Porém, tal situação manteria-se por pouco tempo, uma vez que menos de um ano mais tarde, Maria deu à luz um herdeiro varão, que seria chamado de William. O jovem desempenharia um importante e decisivo papel na vida de Ana, anos mais tarde.

A família de Ana pertencia à Casa Real de Von der Marck, mais popularmente conhecida como La Marck. Seu pai, John III, o pacífico, foi o terceiro Duque de Cleves e Conde de La Marck. Ana descendia da nata das grandes famílias nobres alemãs, assim como de Eduardo I da Inglaterra (todas as esposas de Henrique VIII descendiam dele) e de monarcas franceses, tendo parentesco paterno com Luís XIII. Segundo Norton, depois de Catarina de Aragão, filha dos Reis Católicos, Ana seria a esposa de Henrique VIII com a maior linhagem familiar.

Uma vez que William era agora o herdeiro oficial do Duque de Cleves, Ana e sua irmã foram afastadas de sua companhia, para que este pudesse receber uma educação adequada ao título que um dia iria carregar.

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Schloss Burg, local onde Ana de Cleves viveu seus primeiros anos.

A mãe de Ana, Maria, foi a responsável pela criação de suas filhas. Embora fosse moda no início do século XVI, que as jovens meninas recebessem uma instrução mais refinada, Maria não foi adepta de tal ideia. Suas filhas foram educadas para serem boas esposas para príncipes alemães, recebendo portanto, ao ponto de vista inglês, uma educação restrita, segundo aponta o embaixador Nicholas Wotton: –

”Acaso desde a sua infância (assim como Lady Sybilla foi até se casar e como Lady Amélia tem sido) ela foi criada com a senhora Duquesa sua mãe, e em maneiras, nunca escassas, sendo a duquesa sábia e muito restrita em modos aos seus filhos. Todo cavalheiro da corte a quem perguntei, informou-me que (Ana) sempre foi muito leal e gentil, motivos pelos quais ganhou o favor de sua mãe, que sofreu deveras ao afastar-se dela”. 

Ana portanto, era a favorita de sua mãe, sendo criada de modo restrito, porém, não sem bons modos. Ela passou desde seus primeiros anos, até o início de sua vida adulta, ao lado de Maria, passando seu tempo com trabalhos manuais, como por exemplo, costura e bordados.

Ela sabia ler e escrever, embora dominasse apenas a língua alemã. Sua educação não foi muito diferente da recebida por Jane Seymour, segunda esposa de Henrique VIII, mas foi muito contrastante com a erudição das esposas anteriores do monarca, como Catarina de Aragão e Ana Bolena, que falavam mais de um idioma e receberam requintada educação humanista.

Embora fosse considerada uma pessoa hábil e de boa escrita, que logo aprenderia o inglês, Ana não sabia cantar ou dançar, algo que Henrique VIII era fascinado e que, todas as suas esposas até então, eram adeptas.

Existem poucos registros a respeito da infância e primeiros anos de Ana. Sabemos que ela cresceu em Schloss Burg, sede ancestral dos Condes e Duques de Berg, na cidade de Solingen, perto do local onde nasceu, sob os cuidados de sua mãe, uma mulher católica devota. Tal aspecto abre espaço para debates entre estudiosos, sobre qual religião Ana seguiu nos primeiros anos de sua vida, uma vez que ela tem sido equivocadamente relacionada como luterana. Sabemos também que seu pai, John III, era seguidor do teólogo e humanista, Erasmo de Rotterdam, e aderiu a reforma protestante, embora tenha em muitos aspectos, mantido preceitos católicos, assim como Henrique VIII.

Podemos frisar um aspecto sobre a vida de Ana de Cleves. Conforme cita a historiadora Elizabeth Norton:

”Ninguém que viu Ana de Cleves em sua infância, poderia sequer ter imaginado que ela iria, por alguns breves meses, tornar-se uma rainha, ou terminar sua vida como a última cônjuge sobrevivente do monarca que mais casou-se na Inglaterra, e um dos mais notórios da Europa. Ana de Cleves sobreviveu ao seu desastroso casamento, para permanecer nas graças e bons termos do rei, e, embora Henrique tenha deixado uma viúva, foi Ana a esposa que verdadeiramente sobreviveu”. 

FONTES:
Anne of Cleves – Henry VIII’s Discarded Bride; Norton, Elizabeth. England, 2010.

Journey Mart.com: AQUI.
The Marrying of Anne of Cleves: Royal Protocol in Early Modern England; M. Warnicke, Retha. England, 2000.

Medo e Provocação de Mary Stuart Revelados em carta ao Vaticano, meses antes de sua execução

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O frágil pergaminho contendo insígnias reais, foi enviado ao Papa por uma monarca deposta que implorava por sua vida.
Embora a carta dirigida ao Papa Sisto V não tenha conseguido salvar a vida de Mary Stuart da espada do carrasco, o documento sobreviveu enterrado nas entranhas dos artigos secretos do Vaticano por mais de 400 anos.

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Mary Stuart, Rainha da Escócia.

Ele está entre os 100 itens de correspondências confidenciais mais significativos historicamente, que deverão entrar em exibição pública pela primeira vez em uma exposição especial em Roma.

O acervo de valor inestimável se estende por mais de um milênio, a partir do século VIII até os tempos atuais, e apresenta inúmeros personagens históricos que cruzaram espadas com uma sucessão de pontífices, desde Templários a Galileu, Martinho Lutero e Henrique VIII.

Maria Stuart escreveu a carta a partir de sua prisão no castelo de Fotheringhay em Northamptonshire, apenas três meses antes de ser executada, após anos de confinamento em solo inglês.

A carta foi escrita em francês, no dia 23 de Novembro de 1586. Nela, a católica Maria pede perdão por seus pecados, mas também alerta contra mentiras perpetradas por seus inimigos na Inglaterra e adverte o Papa de Cardeais traiçoeiros.

Ela alega que o tribunal que a condenou à morte era ilegítimo e também relata o sofrimento que havia passado durante quase 20 anos de cárcere sob o reinado de sua prima protestante, a rainha Elizabeth I.

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Vaticano.

Maria havia fugido para a Inglaterra após uma frustrada tentativa de recuperar o trono da Escócia. Ela inicialmente buscou a proteção de Elizabeth, mas por causa da ameaça que representava, a rainha foi levada a acreditar que Maria era o foco das revoltas dos católicos, que a consideravam regente da Inglaterra. Ela por sua vez foi presa, antes de ser julgada por traição.

Qualquer esperança de que o Papa intercederia em seu socorro, foi frustrada quando Maria foi executada por decapitação, em Fotheringhay, às 8h da manhã, no dia 08 de fevereiro de 1587.
O documento de valor inestimável é normalmente mantido ao lado de dezenas de milhares de outros registros, em prateleiras de salas climatizadas no Palácio Apostólico do Vaticano, bem como em um bunker subterrâneo de alta segurança.

Os arquivistas os reuniram juntos para uma exposição que será realizada no Musei Capitolini em Roma, a fim de celebrar o  400º aniversário da fundação do Arquivo Secreto em sua forma atual.

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Carta de Mary Stuart, enviada ao Vaticano.

O Padre Federico Lombardi, porta-voz oficial do Vaticano, disse: – “É um evento excepcional. Nunca antes tantos documentos dos Arquivos Secretos foram autorizados a deixar o Vaticano.”

Os visitantes para a exposição intitulada ‘Lux in Arcana: Os Arquivos Secretos do Vaticano Revelados’, podem estar igualmente interessados em um recurso interposto pelo Parlamento britânico, pedindo ao papa para anular o casamento de Henrique VIII com sua primeira consorte, Catarina de Aragão. Enviado ao Papa Clemente VII, em 1530, ele não conseguiu resolver a disputa, que acabou levando a um dos principais motivos da cisão religiosa e da fundação da Igreja da Inglaterra. Ele será exibido ao lado de documentos do julgamento de heresia de Galileu Galilei, cujas teorias científicas de que a Terra girava em torno do Sol atraíram a hostilidade da Igreja Católica no início do século XVII.

FONTES:
Daily Mail.uk: AQUI.

Reviver a História – Lendária Hua Mulan: Criação da Disney ou Realidade?

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Muitos já devem ter assistido a animação infantil “Mulan”, de 1998. A produção norte americana da Disney, inspirada na famosa lenda chinesa de Hua Mulan, conta a história de uma jovem menina que decide se integrar ao exército chinês a fim de defender seu país da invasão de tribos periféricas. Neste ínterim, ela assume o lugar do seu pai, que em razão de estar doente e ser idoso, fica impossibilitado de cumprir com as obrigações de se alistar no exército chinês. Para isso, ela finge-se de homem. Mas, seria a história dessa jovem guerreira chinesa apenas criação da Disney?

A história não é uma invenção da Disney, embora a produção tenha sido deveras romanceada. Hua Mulan tornou-se lenda conhecida, mas não é possível afirmar se de fato a jovem guerreira existiu. A história é baseada em um poema, intitulado “A Balada de Mulan” que foi escrito no século VII, durante o governo da Dinastia Tang (618-907 d.C). O poema narra a história de uma menina que, para honrar a sua família, prova a lealdade ao seu Khan – corresponde ao líder, isto é, título atribuído ao soberanos mongóis que reinaram na China – e se alista ao exército chinês.

Mulan se integra ao exército chinês, pois além de seu pai estar doente, ele não tinha filhos homens crescidos. A versão original do poema se perdeu ao longo do tempo, mas o que restou dele foi incluído junto a outros poemas líricos que foram compilados durante o século XI e XII. Pesquisamos e identificamos o poema, que expomos a seguir a sua tradução para o português. Nele, temos a trajetória e experiências da menina Mulan narrada delicadamente:

“A Balada de Mulan”

Um suspiro e outro suspiro,
Mulan tece de fronte à porta.
Não se ouve o som da lançadeira,
Não se ouvem os suspiros da filha.
Perguntam o que está no seu coração,
Perguntam o que está no seu pensamento,
Não há nada em meu coração,

Não há nada em minha mente.
Noite passada eu vi os anúncios para o recrutamento,
O Khan está convocando muitas tropas,
A lista do exército está escrita em doze rolos,
Em todos eles aparece o nome do meu pai.

Meu pai não tem nenhum filho crescido,
Mulan não tem nenhum irmão mais velho.
“(Então) eu irei comprar uma sela e um cavalo,
E servirei o exército no lugar de meu pai.”
No mercado leste ela comprou um cavalo de porte,
No mercado oeste ela comprou uma boa sela,
No mercado sul ela comprou um bom freio,
No mercado norte ela comprou um longo chicote.

Ao amanhecer ela deixou seu pai e sua mãe,
Ao anoitecer ela chegou ao acampamento nos bancos do rio Amarelo.
Ela já não ouve mais o chamado de seu pai e sua mãe,
Ela ouve apenas o rumor da corrente do rio Amarelo.
Ao amanhecer ela deixa o rio Amarelo,
Ao anoitecer ela chega à montanha Hei.
Ela já não ouve o chamado de seu pai e sua mãe,
Ela ouve apenas o relinchar dos cavalos nômades do monte Yen.

Ela avançou dez mil milhas por causa da guerra,
Ela passou voando por desfiladeiros e montanhas
As rajadas do vento norte traziam o rufar do metal,
As luzes frias brilhavam nas armaduras de ferro.
Generais pereceram numa centena de batalhas,
Soldados enrijecidos retornaram após dez anos.

Ao retornar ela vê o imperador,
Ele estava sentado numa sala suntuosa.
O imperador concedeu promoções em doze categorias,
E premiou centenas de milhares.
O Khan perguntou o que ela desejava.
 “Mulan não tem interesse em postos oficiais.
Eu desejo apenas uma montaria veloz
Que me leve de volta ao lar.”

Quando o pai e a mãe ouvem que a filha está voltando
Dirigem-se para fora dos muros da casa, apoiando-se um no outro.
Quando a irmã mais velha ouve que a irmã mais nova está voltando
arruma a maquiagem e coloca-se defronte à porta.

Quando o irmão mais novo ouve que a irmã mais nova está voltando
afia sua faca e prepara o leitão e o cordeiro.

“Eu abro a porta do quarto leste,
E sento-me na minha cama na sala oeste,
Eu tiro minha armadura de guerra
E visto meus trajes de antigamente.”
Defronte ao espelho ela penteia seus cabelos de nuvem,
Segurando o espelho, ela enfeita-se com flores
Ela abre a porta e se apresenta diante dos seus companheiros
Eles ficam todos surpresos e perplexos.
Pois viajaram juntos por doze anos
E não sabiam que Mulan era uma menina

“As patas do coelho pulam mais,
Os olhos da coelha são mais estreitos,
Mas dois coelhos correndo lado a lado junto ao chão, não se pode distinguir
E assim quem poderia dizer se eu era um rapaz ou uma garota.”

captura-de-tela-2016-09-16-as-20-50-37Na China do século VII não era permitido as mulheres participarem do exército, apenas homens tornavam-se guerreiros. Por isso, Mulan teve que se passar por homem para conseguir integrar o exército chinês. E foi assim por 12 anos. Não é possível afirmar com certeza qual foi o contexto em que Mulan atuou. Mas, de acordo com as informações contidas no poema, muitos acreditam que Mulan tenha supostamente vivido durante a vigência da Dinastia Weir do Norte (386-534 d.C). A referida Dinastia integrava os três grandes reinos da China na época, que contava ainda com os “Shu” e os “Wu”. Nesse período, tribos periféricas invadiram as planícies centrais da China, dessa forma, o governo imperial ordenou que todas as famílias enviassem homens para proteger a China. Diante desse contexto, Mulan decide se alistar no exército disfarçada de homem.

De acordo com o poema, Mulan permaneceu 12 anos disfarçada de homem, atuando como exímia guerreira pelo exército chinês e contribuiu com significativas vitórias. Ao término das batalhas ela foi recebida pelo Imperador com honrarias – na ocasião ela ainda mantinha o disfarce de homem – o então chefe de estado perguntou o que ela deseja pelos seus heróicos feitos. Para a sua surpresa, a jovem guerreira não queria riqueza e nem cargos ou honrarias, apenas desejava voltar para o seio da sua família. É então que, ao regressar para a sua terra natal ela retira o seu disfarce e surpreende a todos os demais guerreiros. Eles finalmente descobrem que não se tratava de um guerreiro, mas sim de uma guerreira.

hua_mulan_medium-1Devido a necessidade de adequar ao perfil do público, a animação da Disney “Mulan” não aborda todas as contradições e dores de atuar em meio a inúmeras batalhas. Como, por exemplo, ter que lidar com a morte constantemente, matar, lutar… Enfim, as dificuldades cotidianas, as dores e a tristeza que envolve a vida de um guerreiro em batalhas. A produção também não realiza uma análise mais aprofundada ou mesmo parcial da condição da mulher na sociedade chinesa do período, ou seja, suas limitações sociais e as normas rígidas a que as mulheres estavam submetidas. Isto porque, como dissemos, não era permitido as mulheres se alistarem no exército. Era uma sociedade patriarcal em que a condição da mulher era voltada para a família e para o cuidado com o lar. Na animação infantil foram incluídas personagens ‘mágicos’, como animais que falam e a presença dos ancestrais da família de Mulan. Apesar da ausência dessa abordagem mais crítica e analítica da condição feminina na sociedade chinesa do século VII, a essência da história apresentada no poema foi mantida, sobretudo, no que se refere as concepções de honra e fidelidade que são explícitas ao longo da trama.

Imagens do pergaminho contendo a “Balada de Mulan”:

Pergaminho 1:
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Pergaminho 2:

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Leia também:
A Verdadeira História da Bela e a Fera
A Verdadeira História da Branca de Neve
A Verdadeira História de Pocahontas

Referências:

The Real Story of Mulan. Disponível em: < http://www.ancient-origins.net/history-famous-people/ballad-hua-mulan-legendary-warrior-woman-who-brought-hope-china-005084 > acesso em agosto de 2016.

Poema: The ballad of Mulan  (ODE OF MULAN). Disponível em: < http://afe.easia.columbia.edu/ps/china/mulan.pdf > acesso em 31 de julho de 2016.

Mulan. Disponível em: < http://www.shenyun.com/learn/article/read/item/v7oZoV5fuog/mulan-chinese-stories-history.html > acesso em 31 de julho de 2016

The Story Behind the Animation: Disney, and the Ballad of Mulan. Disponível em: < https://reelrundown.com/animation/The-Story-Behind-the-Animation-Disney-and-the-Ballad-of-Mulan > acesso em julho de 2016.

Carta de Mary Stuart enviada à Maria Tudor, em 1554

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Apresentamos neste artigo, uma carta da jovem rainha Mary Stuart à sua prima inglesa, Maria Tudor. Neste período, Maria I da Inglaterra acreditava que estava grávida de um herdeiro católico ao trono inglês. Na Escócia, Maria de Guise, mãe da jovem Maria I da Escócia, estava servindo a filha como sua regente, enquanto esta crescia na corte francesa.

A carta trata de um pedido de Maria Stuart à sua prima, Maria Tudor, para que recebesse em sua corte um tenente do rei Henrique II da França que seguiria para a Inglaterra e falaria com Maria em nome da jovem rainha escocesa.

Este é o texto da carta:

Rótulo/Remetente: Para a senhora, minha boa irmã, a rainha da Inglaterra.

Endossada/Emissor: A jovem rainha escocesa a majestade da rainha.

“Senhora, minha boa irmã,

Visto que  Sieur d’Oysel (Senhor Henri Cleutin), tenente do rei na Escócia (referindo-se a Henri II), está retornando, eu tê-lo solicitado, ao passar por seu reino, para visitá-lo por mim, e agradecê-la, como eu faria carinhosamente, pela amizade gentil e pela segurança que você me dá, em sua última carta, e dizer-lhe que, de minha parte eu estou determinada a correspondê-la com tanta sinceridade que, se Deus quiser, haverá uma lembrança perpétua  de que haviam duas rainhas nesta ilha, ao mesmo tempo, tão unidas na amizade inviolável como elas estão no sangue e de linhagem. Sobre o que, e sobre tudo o que ele lhe dará a entender de mim, peço-vos, minha boa irmã, a acreditar nele, tal como faria a própria pessoa de

Sua boa irmã e prima,

Marie.”

Fonte:

Letters of royal and illustrious ladies of Great Britain, from the commencement of the twelfth century to the close of the reign of Queen Mary; by Green, Mary Anne Everett; Published 1846. page 281-282.

Conhecimento Histórico versus Senso Comum: Algumas Considerações

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Para aqueles que tem apreço e interesse em relação ao conhecimento histórico é comum se deparar com palavras ou expressões que, em maior medida fazem parte do vocabulário de pesquisadores da área de humanas em geral. Dentre as palavras, podemos fazer menção a empirismo, conhecimento científico, senso crítico, senso comum… Enfim, são palavras que leitores apaixonados por história, mas são leigos – não graduados na área – tem contato com certa regularidade, todavia, em muitos casos não possuem domínio do seu significado e aplicabilidade. Não compreender o que representa essas palavras na produção e estudo do conhecimento histórico pode, muitas vezes, resultar em confusões e erros de interpretação. Foi pensando nestes leitores que o Tudor Brasil e a Reviver a História considerou fundamental trazer a tona uma discussão que muitas vezes passa despercebida, mas que é essencial para que o estudo sobre objetos, personalidades e contextos históricos não se torne algo inconsistente.

Daremos início a exposição de uma expressão que é geralmente utilizada para contrapor argumentos que não são aceitos do ponto de vista científico e histórico: o senso comum. Quando consultamos qualquer dicionário da língua portuguesa, as explicações mais recorrentes relacionadas ao senso comum referem-se ao tipo de informação ou experiências que são adquiridas a partir da relação do homem com o meio em que vive. Trata-se da aprendizagem/conhecimento que acumulamos ao longo da nossa vida, bem como as informações e experiências que são transmitidas a nós através do convívio social. Dessa forma, o senso comum se relaciona com o empirismo, isto é, com o conhecimento que acumulamos a partir da nossa observação e experiências.

Este tipo de conhecimento não tem compromisso com uma validação científica primorosa, pelo contrário, por ser resultado das nossas experiências espontâneas e cotidianas, mas não há ligação com metodologia ou teoria. No entanto, é preciso frisar que apesar do senso comum ser distinto do conhecimento científico isso não significa que ele seja inválido ou inútil. O senso comum está imbricado em nossas relações pessoais, com a família, com a nossa cultura e com os condicionantes sócio culturais. É através dos ensinamentos que uma criança aprende aspectos relacionados aos valores culturais e educacionais, por exemplo. É a partir do diálogo entre pais e filhos que um jovem adquire dados importantes sobre como foi a vida no passado, como deverá proceder em determinadas situações do dia a dia. Dessa forma, é preciso ter em mente que o conhecimento proveniente do senso comum também possui uma função significativa na formação das pessoas. O que aprendemos no dia a dia faz parte inclusive dos instintos de sobrevivência do homem em seu meio. Mesmo as pessoas que possuem baixo grau de instrução tem o domínio de informações que permite educar uma criança, passar valores e orientações. Podemos citar vários exemplos para demonstrar como o conhecimento proveniente do senso comum é perceptível em nosso cotidiano. Uma pessoa que mora no campo, por exemplo, um agricultor, mesmo sem ter uma formação de nível superior, consegue identificar qual época é mais propícia ao cultivo de determinados alimentos, ele sabe a influencia das estações do ano no regime de chuva. E, a partir da observação do comportamento dos animais e plantas ele consegue traçar planos sobre quais ações ele deve optar no decurso do ano. Este tipo de comportamento é observado em inúmeras sociedades ao longo dos séculos e está vinculado ao conhecimento empírico, resultante da observação e das experiências.

senso-comumEm outras palavras o senso comum está relacionado as históricas heranças culturais, ainda vinculadas aos costumes populares, orientações sobre a forma de pensar, agir, a diferenciação entre é o que é considerado correto e incorreto, entre o que entendemos como ser bem e mal… Podemos incluir, ainda os conselhos populares: “faz mal comer manga com leite”, ou ditados/expressões: “um dia da caça, outro do caçador”, “águas passadas não movem moinhos”. Estes são apenas algumas possibilidades de conhecimentos e ensinamentos que adquirimos ao longo da nossa trajetória de vida e que você provavelmente já deve ter escutado pelo menos uma única vez. Mas estes conhecimentos não são examinados e nem foram produzidos sob a perspectiva da análise crítica, ou seja, não são resultantes do uso do rigor científico.

Tendo em vista a compreensão sobre o que significa o conhecimento oriundo do senso comum, imagino que neste momento o leitor por ventura se questiona: Qual a diferença entre o conhecimento histórico científico e o senso comum? De maneira sintética, podemos compreender o conhecimento científico como aquele que passa pelas etapas ou processos de sistematização. Ou seja, perpassa a elaboração do planejamento de etapas a serem seguidas que coadunará na constituição de um conhecimento adquirido a partir da aplicação de rigor metodológico, teórico e documental. Entende-se por rigor metodológico a escolha de um procedimento adequado ao tipo de análise e objeto pesquisado.

O conhecimento científico impõe a necessidade de estabelecimento de um olhar analítico e racional no processo de constituição das informações. Ao passo que o senso comum é resultante de experiências pessoais e interpessoais. Já, o conhecimento científico é resultado de estudos apurados de exames metódicos, contínuo e inúmeras checagens. As conclusões resultantes da produção científica também não são estáticas. Na medida em que são descobertas novas teorias e novos métodos, uma explicação para um dado objeto ou tema pesquisado pode sofrer alterações, avanços, desconstrução, novas perspectivas. Enfim, o conhecimento científico é mutável, possui claro objetivo de explicar por meio do uso de técnicas racionais e objetivas.

Geralmente, quando pensamos em pesquisa científica, imaginamos laboratórios ligados à área biológica. Mas, e em relação a produção científica feita pelos pesquisadores da área de humanas, como é realizada? Bem, ao contrário do que muitos possam pensar, historiadores, geógrafos e sociólogos, por exemplo, utilizam o mesmo rigor em métodos na produção de suas pesquisas. Evidentemente, o objeto de estudo do historiador é o homem em diferentes contextos históricos, o que impõe a necessidade de aplicar procedimentos distintos. Um dos pilares da produção do conhecimento humanístico refere-se ao senso crítico, ou seja, ao exame aprofundo e racional que, tem como objetivo responder a questionamentos propostos e que variam de acordo com cada temática selecionada. Este é o conhecimento científico. Ao analisar o conceito de ciência o pesquisador Marivalde Moacir Francelin explicita que ciência relaciona-se a percepção de que nenhuma conclusão é definitiva, mas que para chegar à qualquer conclusão é preciso recorrer a elementos que estão desprovidos de elementos pessoais.

(…) a ciência é “[…] mais do que uma instituição, é uma atividade. Podemos mesmo dizer que a ‘ciência’ é um conceito abstrato.” O que se conhece “concretamente”, continua o autor, são os cientistas e o resultado de seus trabalhos. “O cientista contemporâneo sabe bem que nada há de definitivo e indiscutível que tenha sido assentado por homens” (Morais, 1988, p.24). A ciência não se reduz a experimentos, pelo contrário, é extremamente abrangente e complexa. O experimento científico como critério de cientificidade é ponto fundamental para o desenvolvimento das ciências exatas e biológicas ou da natureza, mais bem representadas pela física e pela biologia (especialmente através de seus desdobramentos disciplinares nas últimas décadas do século XX). (FRANCELIN, 2004, p.27)

Quando fazemos menção ao processo de construção do conhecimento científico livre das amarras das concepções e experiências pessoais, podemos destacar, por exemplo, o papel das crenças, dos valores pessoais, da religiosidade e da opinião pessoal como base argumentativa. O conhecimento científico ultrapassa as barreiras impostas para o estabelecimento de análises e interpretações racionais, que devem ser, via de regra, desprovidas do senso comum.

conhecimento-cientificoComo lidamos diretamente com o conhecimento histórico, nossas reflexões são voltadas para esta área. Sendo assim, a nossa opinião pessoal sobre este ou aquele personagem histórico não é válida na produção de um conhecimento histórico. Ter cautela quanto a análise e interpretação de fatos históricos não é responsabilidade apenas do historiador. Mesmo aqueles que não são formados na área, mas que se interessam por variados contextos históricos devem ter cuidado com a forma como conduzem as suas interpretações, sob o risco de contribuir com a difusão de um conhecimento equivocado e sem qualquer problematização.

Como dissemos, o objeto do historiador é o estudo do homem ao longo do tempo, assim como os seus condicionantes, sejam eles culturais, sociais, artísticos, políticos ou econômicos… Para realizar o processo de ‘reconstituição’ dos fatos históricos, o historiador recorre à uma gama variada de fontes, literatura relacionada ao tema e, utiliza por conseguinte métodos apropriados que deverá auxiliar a condução da sua proposta de pesquisa. Dessa forma, não cabe no processo de pesquisa a inserção da sua concepção pessoal sobre determinado tema ou objeto de pesquisa. Entende-se na história que a imparcialidade total não é possível. Qualquer pesquisador no ato da opção por determinado tema já emite por si só uma certa afinidade e interesse, que, por ventura, irá influenciar a condução da sua proposta analítica. Todavia, suas crenças pessoais, suas concepções de vida não devem, pois interferir na produção de sua pesquisa. A premissa também vale para o leigo que pretende aprofundar em obras de cunho histórico. Não é possível mesclar o apreço pessoal por determinado personagem histórico e com isso utilizar argumentos do senso comum para validar uma dada perspectiva. Fazer isso, apenas revela descaso e falta de aprofundamento analítico sistematizado.

Do mesmo modo, é preciso ponderar que o historiador não trabalha com a concepção de verdade histórica. Não é este o objetivo da produção da pesquisa em história. De acordo com o tipo de fonte selecionada para a produção da pesquisa – jornais, revistas, entrevistas, imagens, documentos oficiais – e, mediante a seleção de teoria e metodologia apropriada, o historiador pode chegar a conclusões que serão relacionadas ao seu eixo temático e problematização da proposta de estudo. Afinal, não existe verdade em história. Isso porque o historiador não pode chegar a verdade de um fato tal como foi. O seu trabalho consiste em, por meio de fragmentos/fontes, reconstituir uma versão de um dado fato ou objeto. Nesse processo, deve-se abster de introduzir ponderações de cunho pessoal.

Neste artigo nos propomos a traçar, de modo objetivo e didático, as principais diferenças entre conhecimento científico sob na perspectiva histórica, em contraponto com o senso comum. Muito embora o senso comum seja um elemento importante da formação do indivíduo, ele não deve ser utilizado como base para argumentação, não apenas em relação aos contextos históricos, mas nas várias áreas do conhecimento.

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Referências:

FRANCELIN, Marivalde Moacir. Ciência, senso comum e revoluções científicas: ressonâncias e paradoxo. Ci. Inf., Brasília, v.33, n. 3, p.26-34, set./dez. 2004. Disponível em: < http://www.scielo.br/pdf/ci/v33n3/a04v33n3 > acesso em 9 de setembro de 2016.

MARROU, Henri I. Do conhecimento histórico. 7. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1975.

RICOEUR, Paul. Tempo e narrativa. São Paulo: Martins Fontes, 2010. v. 1

 

A Aliança Auld – Escócia e França

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A mais famosa conexão da Escócia com a Europa continental foi a Aliança Auld, com a França. Datada de 1295/6, a Aliança Auld foi construída a partir de interesses franco-escoceses comuns, contra os agressivos planos de expansão da Inglaterra. Elaborada em Paris, por John Balliol da Escócia e Filipe IV de França, ela foi inicialmente uma aliança militar e diplomática, mas para a maioria da população, trouxe benefícios tangíveis através de trabalhos como mercenários nos exércitos da França e, claro, um fornecimento estável e a melhor escolha dos vinhos franceses.

Os escoceses e os franceses já mantinham negociações durante séculos. O rei David I no século XII, havia trazido famílias Normandas para a Escócia. Lã de ovelha escocesa também era enviada para Flandres e vinhos da França importados para Leith.

Como resultado, o rei da França, Filipe o Belo, concordou com a aliança e decidiu casar sua sobrinha, Jeanne de Valois, com Edward Balliol, filho do Rei John Balliol e herdeiro do trono dos escoceses. No entanto, o casamento não ocorreu.

A peça ”Henrique V’’ de William Shakespeare, retrata a batalha de Agincourt em 1415, como uma das maiores vitórias militares da Inglaterra. Para os franceses, ela foi um desastre que quase levou ao colapso de seu reino. Em sua hora mais sombria, o Dauphin virou-se para os escoceses, inimigos da Inglaterra, a fim de buscar melhores termos para tal situação.

Entre 1419 e 1424, 15.000 escoceses partiram do rio Clyde para lutar na França. Em 1421 na Batalha de Bauge, os escoceses dividiram uma derrota esmagadora contra os ingleses, que culminou com a morte do Duque de Clarence.

Honras e recompensas foram amontoadas pelos franceses para o exército escocês. O conde de Douglas recebeu o ducado real de Touraine e o exército escocês viveu bem da terra, para o grande desgosto do campesinato francês.

No entanto, sua vitória foi de curta duração; em Vernuil em 1424, um exército escocês de 4.000 homens foi aniquilado. Como mercenários eles não teriam esperado qualquer misericórdia, e aqueles que acabaram sendo capturados, foram mortos no local. Apesar de sua derrota, os escoceses haviam trazido à França um valioso tempo de rescaldo, que efetivamente os salvou de um dominação inglesa.

Muitos escoceses continuaram a servir na França. Eles auxiliaram Joana d’Arc, em seu famoso cerco de Orleans e muitos passaram a formar a Garde Ecossais, a feroz e leal guarda-costas dos reis franceses, que encontrava-se no cerne político daquele reino.

Muitos mercenários escoceses estabeleceram-se na França, embora continuassem a pensar em si como escoceses. Um deles foi Beraud Stuart de Aubigny: membro da terceira geração imigrante escocesa, Capitão da Garde Ecossais a partir 1493-1508, e herói das guerras italianas da França. Até hoje ele e outros heróis escoceses da Aliança Auld são celebrados em um evento anula na cidade natal de Beraud, Aubigny-sur-Neve.

O Vinho:
A Aliança Auld não foi simplesmente uma aliança militar; ela foi fundamentada em uma amizade de longa data, baseada no amor escocês pelo vinho francês.

A assinatura da Aliança Auld, em 1295, pode ter dado aos escoceses o apoio francês contra a Inglaterra e vice e versa, mas também deu aos comerciantes escoceses, o privilégio de selecionar em primeira mão, a escolha dos melhores vinhos de Bordeaux – um privilégio que foi avidamente protegido por centenas de anos, para o grande incômodo dos ingleses apreciadores de vinho, que receberam um produto inferior.

O vinho francês era desembarcado no Wine Quay de Leith e seguia rumo as cavernas dos mercadores, atrás da orla. O vinho que desembarcava era destinado principalmente à elite da sociedade escocesa, uma vez que a maioria dos plebeus bebia uísque ou cerveja; no entanto, parece ter sido popular entre todas as camadas sociais, durante as celebrações de Hogmanay.

O comércio, especialmente de vinho, tinha uma tendência de mover-se em face das mudanças e alianças políticas. Após a Reforma, a Aliança Auld não era mais viável entre a Escócia protestante e a França católica, mas o comércio de Claret continuou. As pessoas simplesmente continuaram a beber do vinho.

Um exemplo deste processo pode ser visto no destino pós-Reforma do St Anthony’s Fund: um fundo de caridade levantado através do comércio de vinho. O fundo simplesmente converteu-se ao protestantismo pelo rei James VI (filho de Mary Stuart) e passou para a antiga igreja paroquial de Leith.

Tão tarde quanto a década de 1670, os comerciantes escoceses ainda iam para Bordeaux a fim de obter a sua primeira escolha de vinho. Mesmo após 0 ”Tratado de União’’ na Inglaterra em 1707, os escoceses continuaram a contrabandear Claret para a Escócia, a fim de evitar impostos. Escoceses de todos os quadrantes, Jacobinos ou Hanoverianos, continuaram a beber Claret, de preferência o patriótico Porto.

FONTE:
BBC.UK: AQUI.
Education Scotland: AQUI.
Manchester: AQUI.

Reviver a História: Saga das Mulheres Guerreiras – “As Ahosi de Daomé”

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As guerreiras “Ahosi” de Daomé (Atual Benin, país do continente Africano) são a única unidade feminina reconhecida historicamente, ou seja, nunca antes no século XVII foram encontrados registros de um exército somente de mulheres guerreiras na História Mundial. Como vimos anteriormente, nos artigos anteriores da saga de nossa página Reviver a História: “Mulheres Guerreiras”, a arte da guerra era comum a mulheres de diversas tribos celtas da Antiguidade e, historiadores e arqueólogos acreditam que de fato existiram mulheres nórdicas que dominavam instrumentos de guerra e faziam parte dela. Entretanto, em nenhum desses casos (e outros que ainda vamos ver) não existiu uma oficialidade da mulher na luta, muito menos enquanto parte de uma unidade militar e é isso, além de um treinamento brutal, que faz das Ahosi africanas diferentes desses casos.

steampunk-sistas1Ao que tudo indica, as Ahosi, que significa “mulheres do rei” e que também eram conhecidas por “mino” traduzido para o português como “mães” ou “minha mãe”, e ainda como “gebto”; inicialmente não eram guerreiras mortais, mas sim caçadoras de elefantes, isso no fim do século XVII, onde encontramos os primeiros registros sobre elas. De acordo com a teoria mais popular, as Ahosi foram formadas sob o reinado de Hwegbajá com essa intenção, entretanto, já no século XVIII, o novo rei Agadja, filho do anterior, ficou encantado com a ferocidade delas e decidiu que as transformaria de caçadoras de elefantes em suas guarda-costas, mulheres aptas a protegê-lo dentro do palácio. Outra teoria indica que a unidade militar das Ahosi, enquanto guerreiras palacianas, foi criada em 1645 pelo rei Ada Onzoo; suas armas de guerra eram tacos, lanças e arcos de guerra. De um número inicial de 800 mulheres guerreiras, foram se expandindo de forma tão rápida que chegaram a ser metade do exército real, em torno de mais de 4000 guerreiras.

O treinamento de uma guerreira Ahosi era forte, bruto e procurava não apenas transformar uma mulher de Daomé em uma guerreira mortal, mas também a insensibilizá-la a fim de que suas dores fossem superadas, de que jamais o medo fizesse parte de suas batalhas e que sua sede de sangue nunca se extinguisse. Além de tudo, seu treinamento exaustivo e brutal era também uma forma de lembrá-las a sempre superarem os homens nesses mesmos quesitos, não como forma de demonstrar sua superioridade a fim de derrotá-los, mas para demonstrar que por serem mulheres, elas poderiam provar ser tão boas quanto eles. Vivendo em uma sociedade patriarcal, as daomenianas que desejavam fazer parte do exercito Ahosi ainda tinham essa prova a mais.

imagem 03 artigoParte desse treinamento era escalar um muro coberto de sebes de espinho sem mostrar dor como demonstração de sua resistência. O treinamento também envolvia prisioneiros de guerra que seriam armados com tacos, então as Minos definiriam quantos elas poderiam matar. Outra parte do treinamento era jogar prisioneiros de guerra para fora de uma plataforma elevada, onde aos gritos de uma multidão aguardavam que os novos recrutas acabassem com o prisioneiro. Sua ferocidade no treinamento era acompanhada por uma ferocidade em batalha.

O recrutamento das Ahosi era bem interessante, algumas entravam para a unidade a fim de escapar da pobreza, outras para ter renome e fama, algumas eram enviadas pelo próprio pai, caso ele percebesse que ela não daria uma boa esposa a um “bom daomeniano”. E ainda há casos de maridos que enviavam suas esposas por acharem que serviriam melhor ao rei do que a eles mesmos.

220px-dahomey-amazonerAproveitando o “gancho” é importante ressaltar que, ainda que fosse parte de um corpo militar feroz, agressivo e brutal, ainda que se provassem tão intimidadoras quanto os homens de Daomé, as Ahosi eram mulheres e como tal, vivendo em uma sociedade patriarcal e machista, deveriam servir aos homens, por isso era comum esses pais ou esposos enviarem filhas e esposas ao exército das Ahosi, pois elas serviriam melhor às necessidades do Estado do que as deles. Importante também lembrar é que essas mulheres eram proibidas de ter contato sexual com qualquer homem, a fim de não engravidar, ou seja, tinham sua vida sexual e reprodutiva controlada pelo rei. Qualquer homem que as tocasse, seria instantaneamente morto, por ordem real.

Daomé era um país de muita influência na África e participou ativamente do imperialismo africano no continente, conquistando diversos territórios próximos ao reino, como a Nigéria. Além do mais, no reinado do rei Gezo, com a ajuda direta do exercito das Ahosi, Daomé chegou ao seu ápice de influência política no continente, subjulgando o império Oyo.

imagem do artigo 02Ainda que com grande poder do reino de Daomé e da ferocidade das Ahosi, ambos os elementos não foram suficientes a fim de parar outro imperialismo, o dos europeus. Com uma tecnologia de guerra superior e um pacto político-econômico a fim de dividir Ásia e África a seus próprios interesses, não demorou muito para que uma guerra entre França e Daomé fosse estabelecida, dois grandes confrontos ocorreram na ultima década do século XVIII. Daomé atacou uma cidade colonizada pela França, e esse fato desencadeou os conflitos.

Após a derrota e a dominação colonial europeia, o rei Behanzin foi exilado, a França assumiu o controle político da Daomé e imediatamente a Unidade das Ahosi foi extinta, não permitindo a entrada de mulheres em legiões do exército. Ao que se indica apenas 50 mulheres Ahosi sobreviveram a essa guerra e teriam seguido rumo aos Estados Unidos para se juntarem ao Buffalo Bill Wild West show.

 

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Referências:

http://www.badassoftheweek.com/dahomey.html

http://www.blackpast.org/entries-categories/togo

http://streamafrica.com/culture/the-ahosi-of-dahomey/

http://theculturetrip.com/africa/benin/articles/a-history-of-female-empowerment-the-mino-of-benin/

 

 

Resenha do Livro ‘Elizabeth – Uma Biografia’, de Lisa Hilton

”A ideia de que a Inglaterra elizabetana viveu uma ‘Idade de Ouro’ era tão mítica na época em que Shakespeare escrevia quanto hoje” – L. Hilton,  p.20

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O período Tudor é repleto de personalidades memoráveis: Henrique VII, Thomas More, Shakespeare, Henrique VIII, Ana Bolena, Maria I, e Elizabeth I, são apenas alguns dos muitos nomes que ilustram a época em que uma das mais famosas dinastias inglesas, governou a Inglaterra.
Deste modo, não é de se estranhar que existam inúmeras biografias sobre tais personagens, disponíveis no mercado brasileiro. Correto?
Errado. Infelizmente o mercado brasileiro conta com uma tímida e espaçada gama de títulos sobre o período Tudor que, mesmo contando com exemplares interessantes, mais aguçam a curiosidade do leitor, do que sanam dúvidas sobre o assunto.

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Elizabeth I – Rainbow Portrait (1600/1602) – por Isaac Oliver

Foi pensando nisso que a editora Zahar, escolheu trazer ao Brasil no primeiro semestre de 2016, o livro Elizabeth – Uma Biografia. A ideia tema da obra (que tem como título original ‘Elizabeth – The Renaissance Prince’) conforme o título original sugere, é trabalhar a imagem de Elizabeth I (sua propaganda política e iconografia) como uma rainha que posicionou seu reino – onde segundo a autora, o renascimento chegou tardiamente – ao status de estado, fazendo desta, verdadeiramente um ‘príncipe’ renascentista e criatura de sua época, quando modelou seu próprio direito de governar em um novo contexto politico, arrogando o poder divino para si. Em outras palavras, a rainha assumiu seu corpo político, que transcendia o gênero, o corpo natural de um governante, através do poder divino de Deus.

Tal concepção evoca ao melhor estilo, o famigerado discurso realizado pela monarca em Tilbury, no dia 09 de agosto de 1588. Onde dizia: –

Sei que tenho o frágil e fraco corpo de uma mulher, mas eu tenho o coração e estômago de um Rei, e de um Rei da Inglaterra também.”

Autora de best-sellers de não-ficção e ficção, como ‘Athénais: The Real Queen of France’, biografia que aborda a vida de Madame de Montespan, maîtresse en titre de Luís XIV da França, e, ”Queens Consort: England’s Medieval Queens”, sobre a trajetória das grandes rainhas inglesas, Lisa Hilton, jornalista, escritora e historiadora da arte, é figura conhecida nas prateleiras de livrarias, periódicos, documentários e outros temas no exterior. Dentre os célebres documentários que participa, geralmente falando sobre a história da realeza, estão, “Bloody Queens: Elizabeth and Mary”, sobre as rainhas Elizabeth I e Maria Stuart, e ”The Royals’’ (disponível na Netflix), sobre a realeza britânicaHilton, que é formada em inglês pela Universidade de Oxford, extendendo depois sua gradução pra história da Arte, em cidades como Florença e Paris, é conhecida entre os britânicos, por seu modo crítico e direto ao abordar certas personalidades históricas.

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Documentário ‘The Royals’, disponível na Netflix.

Para suportar a premissa de seu livro, Hilton traça paralelos bem-vindos com a mais famosa obra do poeta e diplomata italiano, Nicolau Maquiavel: ”O Príncipe”. Utilizado por muitas pessoas através do tempo, como um guia do poder (como por exemplo, William Cecil e Nicholas Brandon, ministros de Elizabeth I), de prosa e lógica simples, o livro de Maquiavel tinha como objetivo, fornecer conselhos práticos e as vezes, um tanto jocosos, sobre como governar. O intuito principal do documento, é explicar como assumir o controle e como administrar suas terras, pautados em conselhos muitas vezes longe de regras éticas e morais, valendo-se da máxima: Os fins, justificam os meios.

Embora Hilton admita que não é possível afirmar que a rainha leu o livro de Maquiavel, ela aponta que, tal conteúdo era amplamente difundido na Inglaterra quando ela subiu ao trono. Sendo, conforme mencionado acima, lido por seus próprios ministros (p. 23).

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Lisa Hilton

Lisa inicia o livro tratando de uma análise sobre o conceito daquela então nova ciência que englobava várias artes e correntes filosóficas, chamada de Renascimento e abordando uma pintura alegórica de 1569/1603 de Elizabeth I, intitulada ”Elizabeth I and the Three Goddesses” (Elizabeth I e as três Deusas). Através da obra do pintor holandês Joris Hoefnagel,  a autora mostra como a rainha pretendia ser vista por seus súditos: Como uma soberana que levaria a Inglaterra consigo rumo a um renascido status de estado (no melhor estilo de Maquiavel), partindo para as análises e construções de um estado e governo.

Uma vez que é formada em história da arte, Lisa traça paralelos e observações bastante pertinentes sobre a iconografia de Elizabeth I, através de sua propaganda política veiculada em seus retratos e vestes ricamente ornamentadas, que até hoje são fortes sinônimos deste período. Ela fala sobre como a monarca se reinventou para o posto que ocuparia, desde as roupas pesadas, com joias e tecidos que carregavam profunda simbologia e significado, até sua assinatura, que conotava sua formação clássica e que, ao contrário de seus predecessores, criava um floreio agressivo e intrincado (p. 28). Em suma, ela colocava-se como um príncipe, pois assinava como tal. Este aspecto inicial do livro portanto, mostra-se impecável e explica ao leitor, como Elizabeth jogava com sua erudição para seus próprios fins.

Hilton também nos agracia com seu entendimento histórico artístico, ao escrever sobre os tecidos utilizados nas tapeçarias do período, o comércio e importância da seda no norte da Itália e tinturas da Turquia, essenciais para a confecção de um bom produto final. Ela também fala das pinturas do período como mais que simples quadros, retratos interativos que na época, iluminados por tochas e velas, faziam o expectador conversar com seu olhar. Tudo isto, para introduzir o leitor sobre como o figurino de Elizabeth em seus retratos, era milimetricamente escolhido, a fim de mostrar ao povo, sua ascensão de monarca à imortal.

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Exemplos de detalhes utilizados nos retratos de Elizabeth I.

Segundo a autora, tudo que a rainha fazia questão de expor de seu seio privado, era intimamente analisado e transformado em aspecto positivo para seu seio político e reinado. Desde suas pinturas prévia e amplamente estudadas, até seus vestidos característicos, eram utilizados por ela, como símbolo de poder, a fim de introduzir a Inglaterra – que comparado a muitos reinos europeus, era uma tímida província em ascensão – em um valioso reino protestante, digno de estratégias e alianças políticas por todo o continente.

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Detalhe do retrato de Nicolau Maquiavel, por Santi di Tito – segunda metade do século XVI.

Durante a leitura, podemos notar também, paralelos traçados entre Maquiavel e o governo de Elizabeth, com obras shakespearianas, como por exemplo, ”Henrique VIII” (p.23). Hilton mostra como a peça ”reflete o legado de Elizabeth, sendo um meio útil de contextualizar as duas dinâmicas contrastantes que definiram o governo da rainha e, em certa medida, criaram sua lenda” (p. 22), além de citar que em tal documento, ecoam as máximas de Maquiavel.
Ela também cita o bardo em algumas outras passagens, como por exemplo, em uma interessante análise do retrato da Armada, de 1588, atribuído a George Gower. A ideia de traçar paralelos entre aspectos do reinado de Elizabeth com obras como as de Nicolau Maquiavel (O Príncipe), William Shakespeare (Henrique VIII), Cristina de Pisano (A Cidade das Damas), e Baldassare Castiglione (O Cortesão), no decorrer do livro, foi um modo sensacional de criar um reflexo da construção de sua figura de soberana, com os maiores intelectuais do período e de antes dele.

No entanto, é necessário ressaltar que, a profunda e detalhada abordagem do contexto político aplicado no livro é muito interessante, e até então inédita em títulos similares no Brasil, porém, não é inovadora na área de pesquisa internacional, voltada ao período – uma vez que este foi um período de extensa mudança política, aspecto este, ressaltado em inúmeros livros de pesquisa sobre a dinastia e seus soberanos.

A passagem político-religiosa do livro de Hilton, é talvez, depois da análise das pinturas e indumentária do período, a parte mais aprazível de toda a leitura. Hilton destaca, como durante o reinado de Elizabeth I, fazia-se necessária uma ruptura política aos velhos costumes ingleses. Ela adentra à aura religiosa, contexto conturbado na época, citando que:

”A Europa estava mudando. A superestrutura da igreja, que impusera sua hierarquia aos remanescentes do governo feudal, tivera sua autoridade diminuída; na Inglaterra essa autoridade fora destituída.” (p. 22)

Em outras palavras, o cristianismo e a arte quase maquiavélica de governo utilizada no período elizabetano, eram intensamente opostas, mas que fazia-se necessária diante a conjuntura de mudanças de tais ideais.

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Elizabeth and the Three Goddesses, por Joris Hoefnagel, 1569/1603.

Os aspectos da igreja reformada citados por ela, também são interessantes. Sua explicação sobre como a fusão do estatal com o espiritual na supremacia do monarca, era reforçada através de salmos na igreja anglicana, ou o fato de que o povo via Elizabeth como virgem, pois a simbologia da igreja foi substituída pela da monarquia após a reforma, é sensacional e muito pertinente ao leitor.

E as análises de Maquiavel citadas no início do texto, não cessam nas primeiras páginas. Mesmo sem sabermos se a monarca teve de fato, contato com a obra (não existem documentos claros o suficiente para a afirmação de que Elizabeth leu ‘O Príncipe’ e muito menos que utilizou seus ensinamentos como aspectos de seu reinado), a contiguidade da monarca com os conceitos de poder aplicados na obra do diplomata no decorrer do livro, são crescentes, mesmo que não propositais e aguçam a perspectiva do leitor, mesmo que leigo no tema, a compreender melhor tal conjuntura histórica.

Já nos primeiros capítulos do livro, Hilton traça as similaridades que Elizabeth pode ter herdado de sua mãe, como por exemplo, o amor cortês utilizado, mesmo que com intenções diferentes, em sua corte. Outro aspecto interessante, é o cuidado da autora em revelar que Henrique VIII, embora tenha negligenciado alguns cuidados à sua filha, momentos após a morte de Ana, tinha para com ela carinhos e cuidados que cabiam a um pai, monarca, naquele período, embora sejam muito diferentes do nosso compreendido zelo atual. A autora é rápida ao nos entregar logo no início do livro, que as duas grandes influências, direta ou indiretamente na vida de Elizabeth I, foram sua mãe e sua madrasta, Ana Bolena e Catarina Parr; uma que trabalhou os aspectos da vida na corte e outra, os aspectos religiosos.

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Maria I da Inglaterra, por Antonis Mor, 1554.

No entanto, conforme a leitura vai avançando, um aspecto torna-se claro: Hilton não é historiadora. Ela é jornalista e por tal motivo, nos entrega uma escrita informal, intimista e bastante confortável para a leitura, mas sem perder o alto teor acadêmico da mesma. Porém, do mesmo modo que sua área de exercício nos fornece um deleite perante a leitura, mostra-nos que certos cuidados deveriam ter sido previamente tomados. A ausência de uma rigidez em expor a cronologia, deixa o leitor um tanto perdido diante de tantos registros históricos e mostra a falta de intimidade da autora com datas e em como organizá-las, a fim de facilitar o entendimento maior do leitor. Isso, por ventura, se dá em razão da autora não ser historiadora, já que historiadores geralmente tem a preocupação em especificar e delimitar no decurso de suas pesquisas o recorte temporal. No entanto, este aspecto não prejudica a qualidade da obra. Hilton também é rápida ao praticar outra modalidade controversa entre os historiadores: o juízo de valor. Isto é, expor sua opinião pessoal na medida em que analisa suas fontes. Ao alegar certos aspectos, característicos de sua empreitada em assuntos de cunho historiográfico, ela abre espaço para conclusões que não cabem ao leitor e tampouco à autora, como por exemplo, a de que Maria I era uma rainha amargurada e pouco voltada à conjuntura política de seu reinado (aspecto este que, há muito vem sendo desconstruído por historiadores), ou até mesmo o envolvimento de Catarina Parr com seu último marido, Thomas Seymour, classificado por ela como ”erótico” (p. 113). Ela também classifica Catarina Howard como uma ”pobre estouvada” (p. 61), Henrique VIII como ”pesadão e desajeitado”, e reforça o boato apócrifo de que Ana de Cleves, quarta esposa de Henrique VIII, foi chamada de Égua de Flanders (p. 59), entre outros. Isto não desqualifica a leitura, mas é um aspecto que decepciona, diante de uma obra que até então, estava agradando muito.

Porém, embora ela estereotipe Maria I, é interessante notar que a autora reconhece a educação humanista e erudita da mesma, e a influencia que esta, exerceu sobre sua irmã mais nova. Ela mostra como Elizabeth utilizaria algumas características do reinado de Maria, em seu próprio. Como por exemplo, as retóricas de seus discursos, seu anel de coroação que representava seu casamento com a nação, ou as tentativas de apresentar sua igreja como nacional.

Um ponto bastante equivocado que me surpreendeu assim que abri o livro e o caderno de ilustrações, é que ela não mostra o famoso retrato de Ana Bolena do National Portrait Gallery ou até sua medalha comemorativa (fonte mais segura da aparência da segunda esposa de Henrique VIII, uma vez que foi cunhada durante seu reinado), e sim, apenas um esboço, feito por Hans Holbein (p.66). Tal esboço é controverso, uma vez que poucos historiadores o classificam como sendo de Ana. Uma vez que a catalogação do mesmo é posterior, muitos historiadores sequer o citam em seus trabalhos. O principal biógrafo de Ana Bolena, Eric Ives, refuta a identidade do mesmo.

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Livro ‘Os dois corpos do rei’ por Ernst H. Kantorowicz.

Uma obra bastante citada por Hilton no decorrer da leitura,  e que não poderia ser diferente, é o livro ‘Os Dois Corpos do Rei – Um estudo sobre a teologia política medieval’ do historiador germano-americano, Ernst H. Kantorowicz. As citações da obra de Kantorowicz, servem para mostrar como Elizabeth I fazia a distinção entre estes dois corpos, usando-os sempre que necessário. Ela mostra que seu corpo natural era o de uma mulher e o politico, de um príncipe, pois um soberano não possuía gênero, ele era seu cargo. Segundo Lisa, tais dualidades biológicas eram os aspectos centrais de sua autoridade que, procurava ressaltar através das linhas citadas no início do texto (como indumentária e maquiagem) uma virgindade mística, confirmando não apenas sua autoridade como chefe de estado, mas também como figura divina de proa de uma nova religião.

O livro é um emaranhado de documentos históricos do início ao fim. A vasta gama de registros e cartas do período, especialmente as trocadas por Elizabeth com seus pretendentes ou outros reinos europeus, fornece uma riqueza de detalhes ímpar, que acompanha o leitor no decorrer da obra.

Enquanto crítica política e artística de um reinado, a autora exprime de modo impecável em sua biografia, percepções sobre o período, transformando o livro em um deleite sem igual. No entanto, tal aura torna-se um pouco confusa, ao adentrar em outros aspectos (que, talvez sejam resultado de sua não graduação em história), como a convicção de certeza dentro da historiografia, juízo de valor e deslizes cronológicos.

Minha Opinião:
Eu, sinceramente, não acredito que tais deslizes comprometam a leitura como um todo, pois esta é repleta de pontos altamente relevantes. No entanto, sou obrigada a mostrar tais aspectos ao leitor que, por talvez desconhecer os mesmos, não os note durante o decorrer do livro.

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Detalhe de Elizabeth I no retrato da Armada, por George Gower, 1588.

Eu indico a leitura para todos os que são fascinados pela iconografia elizabetana (o significado de sua indumentária e retratos dentro da propaganda e construção política de seu reinado), retratada com exímia precisão através das páginas, as análises partindo de princípios maquiavélicos, ou até mesmo o controverso ”culto a Elizabeth”, que é explicado por Hilton no decorrer da leitura.

Para mim foi um livro bastante enriquecedor, que até agora não vi igual no Brasil e que sana dúvidas de um dos principais aspectos do reinado desta mulher, que foi a última monarca Tudor: como uma mulher considerada um símbolo de heresia e bastardia por quase todas as potências católicas européias, conseguiu manter-se no poder em um reino relativamente tão inferior.

Dados sobre o livro:
Leia um trecho gratuitamente: AQUI.
Título:
Elizabeth. Uma Biografia
Autor: Lisa Hilton
Lançamento: 12/5/2016
Encadernação: Brochura
Tradutor: Paulo Greiger (idioma: português; original: inglês)
Páginas: 416
Capítulos: 28
Categoria: Biografia
Ilustrações: Dois cadernos ilustrados
Editora: Zahar.
À venda: AQUI.